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Damian Kelleher: opinião sobre Fado Alexandrino

edição em inglês Grove/Atlantic, 1995
É noite avançada, em Lisboa, Portugal, e cinco homens do exército convivem no décimo aniversário do seu regresso da guerra em Moçambique. Desde o horror vivido em África, alguns destes homens  foram promovidos, outros se divorciaram , casaram, voltaram a casar, rebaixados, demitidos, iniciaram negócio próprio, cuidaram dos seus familiares, enterraram outros. Discutem as suas vidas sobre o vinho, as línguas enrolando à medida que o álcool vai fluindo. Em poucas horas, um dos homens será morto, assassinado, apunhalado pelas costas por um dos outros soldados.

Para reduzir a intriga à sua pura essência, o parágrafo acima pode resumir Fado Alexandrino. Porém, este difícil, extravagante e aberto romance  abrange muito mais com cada uma das suas quase quinhentas páginas. O impacto deste romance não está no que é relatado, mas na maneira como é relatado, a forma com que António Lobo Antunes consegue tecer cinco vidas diferentes num todo coerente, abarcando mais que uma década.

Lobo Antunes recorre a um interessante estilo de parágrafos extremamente longos, quebrados por raros pontos finais, mas carregados de vírgulas. Num só parágrafo - e isto não é raro - uma personagem começa por pensar em algo, os seus pensamentos são desencadeados por um comentário à margem, a sua mente vai divagando até cinco ou dez anos no passado, ou sobre o dia anterior, e o ponto central da narrativa alterna para novos cenários, com novas personagens, sem mudar de tempo, continuando no "presente"; então outras personagens começam a pensar, e vão tomando conta da cena, direccionando o parágrafo para outro espaço e tempo, tornando-se à vez no ponto central. Isto acontece repetidamente, constantemente se muda do tempo remoto em que os soldados eram novos e inexperientes, para um tempo intermédio, com as suas mulheres e filhos, felizes ou não, até ao "presente", o convívio, em que alguns já são velhos e outros apenas mais velhos, mas todos esgotados de qualquer forma. Mas funciona. É uma marca da habilidade literária de Antunes, a de nunca nos perdemos completamente, há sempre um fio para nos mantermos no caminho, mesmo com uma repentina e não anunciada mudança do ponto de vista da personagem, de cenário, de tempo, de ponto central, conseguimos continuar a par do curso narrativo e compreender o que se vai passando. [...]

A razão principal de isto funcionar vem da Revolução, um tempo conturbado na história de Portugal, quando o socialismo e o comunismo ameaçavam tomar o poder, em que a violência, estupro e carnificina eram comuns [*]. O romance é dividido em três partes, Antes da Revolução, A Revolução, e Após a Revolução. Geralmente, ao saltar na narrativa, conseguimos dizer o que se está a passar devido à proximidade das situações, tempo e personagens aos acontecimentos em Lisboa. Reconhecidamente, embora o tempo possa mudar tão repentina e dramaticamente, durante a parte Antes da Revolução toda a analepse é dentro do tempo de antes da revolução, e o mesmo se passando com as outras duas partes. É quase como se a personagem principal do romance fosse a Revolução, um turbilhão que envolve os cinco soldados, torcendo e dando voltas com as suas vidas.

António Lobo Antunes possui um fantástico sentido de imagética, habilidade para descrever situações e ambientes como ninguém que eu tivesse conhecido. É muito orgânico nas suas descrições, a boca de uma mulher é "um gomo de laranja", as sua coxas abertas "como um pólipo marinho", etc. Considerando que o núcleo do romance é a Revolução os seus terríveis e deletérios efeitos sobre a nação portuguesa e, em particular, sobre a cidade de Lisboa, os temas sobre a morte e a decadência são basilares na escrita. Por isso, à luz do dia, com o sol expondo cruelmente as fendas, a sujidade, a falta de tinta, e as feridas da pobreza que as luzes disfarçam, tudo parece mais pequeno, feio, muito deprimente, e absolutamente pobre. Infelizmente, este traço doentio e obsceno da escrita - tão eficaz quando retratando uma nação em decadência - é mais difícil de ler quando se refere às mulheres. Não existe uma única personagem feminina positiva na Lisboa de Lobo Antunes, todas elas são ora egoístas, ora insípidas, ora obscenas, ora decadentes, ora velhas, ora fracas, ora autoritárias, ora... a lista é vasta. Ainda assim, pode argumentar-se - quase correctamente, creio - que estas características negativas serão inerentes à percepção das coisas que os soldados carregam. Em Moçambique, foram habituados à violação e à prostituição - tanto masculina como feminina - e é fácil imaginar que tenham desenvolvido preconceitos para com as mulheres e o sexo por essa razão.

Há um senão neste livro que vale a pena mencionar. O penúltimo capítulo é o único completamente centrado numa personagem, e é o único capítulo em que o narrador é uma mulher. É uma reminiscência ao monólogo de Molly, do Ulisses de Joyce, com grandes e corridas frases que ocupam um longo parágrafo inteiro, com descrições detalhadas de sexo e luxúria, pensamentos à solta e ideias, etc. O capítulo está escrito com uma habilidade fantástica, mas a questão é que na realidade não combina com o resto do romance. O tom é diferente, o ritmo é diferente, o estilo é diferente, e pouco acrescenta. Ainda assim, é uma leitura agradável. Um interessante dilema.

Ao acabar este difícil e denso romance, fica-se com uma sensação de alívio por ter-se chegado ao fim, um sentimento de dever cumprido. Porém, existe a lástima, porque, com Fado Alexandrino, fui capaz de cair tão completamente num mundo violento e decadente que voltar de lá tornou-se difícil, coisa rara de acontecer com um romance. O efeito foi tão poderoso, quase físico, enquanto o lia, que não recomendo que se leiam dois títulos de António Lobo Antunes de uma assentada. Maravilhoso, mórbido, complexo, difícil, estruturalmente supreendente e intricadamente detalhado, Fado Alexandrino bem vale o esforço.


por Damien Kelleher
Literary reviews and essays
18.11.2006
[tradução do inglês por José Alexandre Ramos]

[*] é a interpretação do autor do artigo sobre o período do 25 de Abril, obviamente desfasada da realidade, talvez por conhecimento incorrecto dos factos.

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