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Miguel Real: crítica a Quarto Livro de Crónicas

Cães Pretos

A literatura portuguesa transborda de óptimos cronistas, alguns deles vivos, cada um segundo o seu estilo e um diferente enquadramento teórico. De facto, desde Fialho de Almeida a Vasco Graça Moura, o século XX foi prolífero em escritores cultores da crónica, como nos dá conta A Crónica Jornalística no Século XX (2004), de Fernando Venâncio.

Porém – desculpe-se a subjectividade do crítico -, nenhum cronista atingiu o brilhantismo estético presente nas crónicas de António Lobo Antunes (ALA), seja quanto ao primado da composição da unidade da narrativa face a cada parágrafo (tarefa dificílima devido à brevidade do texto), seja quanto à unidade inconsútil desenhada com a totalidade da sua obra de ficcionista. A recente publicação de Quarto Livro de Crónicas aí está para comprovar a justeza da nossa asserção.

Com o título de “ficção intervalar”, Maria Alzira Seixo chamou a atenção para a excelência de ALA cronista, estatuindo a crónica deste autor como um cruzamento original entre “ficção” e “autobiografia” (Cf. Maria Alzira Seixo, As Flores do Inferno e os Jardins Suspensos, 2010, pp. 169 – 182). Do ponto de vista teórico, não é preciso dizer mais. Quem conhece a obra literária e um pouco da biografia de ALA, encontra na crónica deste tanto o estilo dos seus romances quanto alguma satisfação relativamente à vida do autor. Por todas, leia-se “Dois vezes dois quatro é uma parede”, crónica absolutamente paradigmática do estilo e da obra de ALA: documentário do quotidiano e interrogação humana universal, una (a desdobragem do autor-narrador em dois) e múltipla (as circunstâncias banais da vida), unidade de tempo e de espaço e infinita abertura reflexiva, realismo quanto baste envolvido em idealidade angustiada. Ler uma crónica (um romance) de ALA é destaparmos os “cães pretos” existentes subterraneamente em nós e elevarmos o nosso pequeno mundo a um universo estético atormentado onde, frágeis e espantados, transpiramos sangue.

Maria Alzira Seixo escreve igualmente ser “o tempo a dimensão fundamental da escrita” de ALA (ibidem, p. 153). De facto, a unidade essencial deste Quarto Livro de Crónicas reside justamente no laço psíquico e estético existente entre o passado e o presente, ensombrecido pelo espectro negativo do futuro, isto é, do pressentimento físico e da aproximação existencial da morte. Como horizonte problemático e como fundo sustentador, todas as crónicas desenham uma espécie de experiência da morte. A antevisão da morte traça os contornos psicológicos da leitura do passado e do presente, bem como da visão lírica atribuída à infância em contraste com a visão trágica conferida ao presente. ALA desenha a infância em Benfica e em Nelas de um modo deleitoso e feliz, ainda que atormentado pelas agruras da educação, envolvendo as figuras (os avós, os pais, alguns irmãos, o senhor Casimiro, Acácio…) e as peripécias da infância de um halo de ternura, de que o presente é em absoluto excluído. Por outro lado, a velhice do presente é acentuada pelo autor-narrador como lugar da corrupção da carne, da degradação dos sonhos juvenis, da rendição à abjecção dos interesses, do encastelamento em pequenos e obsessivos gestos ou expressões repetitivas, síndroma de recalcamentos, frustrações e perversidades; a velhice, enquanto espécie de antecâmara da morte, evidencia-se, assim, como estado infernoso, efeito de deterioração da personalidade, lugar etário no qual se sabe já não ser possível nem rectificar a vida nem realizá-la em plenitude. O que terá acontecido à vida, ao seu sentido pleno, à epifania sonhada na infância? “Ignoro quem me derrotou. Se calhar eu mesmo, se calhar a minha irmã (o outro)” (p. 19) – um mistério o presente da vida, solucionado em solidão, desanimo, desesperança, derrota: “Porquê o quê? Não sabemos. Apenas a perguntar porquê” (p. 218).

Entre a infância benevolente, lugar da revelação e do sonho, e a velhice, lugar do aniquilamento do desejo, de corpo e alma abandonados ao ramerrão quotidiano, já desprovido de sonhos, conquistando o dia a dia como guerreiro na batalha, espécie de exaustão de vida, existe o presente, repleto de minudências, que ALA transporta maravilhosamente para o texto. Dificilmente outro cronista espelha tão angustiada quanto vividamente o lento escorrer do presente que vai deteriorando os sentidos, os sentimentos e a razão de um homem, atingindo-lhe o corpo, mas sobretudo o espírito, esboroando o halo feliz da infância adensado na memória, conduzindo-o pela mão a um estado de decadência despido de projectos de futuro, reduzindo a vida à imagem de um boca desdentada, que alguns, espertotes, compensarão com a prótese de uma dentadura artificial. Porém, do ponto de vista ontológico, não existem próteses redentoras para a decadência física e anímica, apenas gestos consolatórios.

A velhice inicia-se por repetições obsessivas de gestos (que ALA reproduz em inúmeros personagens das suas crónicas), preenchendo assim, mecanicamente, o vazio ontológico que o desbaste da vida cria em cada existência, seja no corpo (tremuras, tumores inesperados, enrugamento da pele, manchas…), seja no pensamento (esquecimentos, manias…). Para o autor-narrador, nem a família criada, sobre a qual pouco escreve, nem a profissão de médico, que releva como oportunidade para um conhecimento mais perfeito do homem, constituem bálsamos redentores, capazes de dar sentido à vida e de aplacarem os “cães pretos (p. 74) que lhe enrodilham a existência, levantando-lhe um juízo crítico negativo sobre esta. A expressão “cães pretos” evidencia-se como metáfora do presente da vida (do mesmo modo usado por Ian MacEwn no romance homónimo), um turbilhão interior que gangrena o sentido da vida, uma espécie de mal íntimo e perturbador, um instinto maléfico que aflui à consciência, reprovando-a, revelando-lhe a nulidade e o absurdo de cada vida. Diferentemente, a passagem pela Guerra do Ultramar e a escrita de romances (com sentido crítico – p. 73) revelam-se como momentos de luta pela conquista de uma inapelável dignidade humana, a primeira como encontro entre homens em sentido puro, sem a manipulação do interesse e a superioridade das classes sociais; na guerra reside a igualdade absoluta de todos perante a morte, a resistência ao sofrimento, a solidariedade em momentos extremos – unindo todos com o nome de “camaradas”; na escrita de um romance reside a memória futura, a fuga à voragem do tempo, a superação da brevidade inócua da vida e da fragilidade do corpo, isto é, o resgate do tempo passado em função de um tempo futuro, ou, dito de outro modo, a união entre o passado e o futuro na assunção da eternidade.


Miguel Real
18.07.2011

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