Avançar para o conteúdo principal

«Ah, quem me dera escrever como o Messi joga futebol!»



El País
entrevista de Antonio Jimenez Barca
14.01.2012


«Ah, quem me dera escrever como o Messi joga futebol!»

Sentado à mesa num canto da sua casa, enfrentando uma sequência de cerca de 25 esferográficas alinhadas ao seu lado, António Lobo Antunes espera que o próximo livro surja para começar a escrever. Terminou um em Setembro do ano passado e desde então ("há muito tempo já e não é normal isso") espera que medre dentro de si um novo trabalho, um novo romance, um novo delírio estruturado, que é como ele gosta de designar os seus escritos. Mas está demorado. Confessa que se sente culpado quando não está a escrever e, entretanto, lê e traduz para Português, para se entreter, os clássicos latinos Horácio ou Ovídio. O escritor português vivo de maior prestígio, nascido em Lisboa em 1942, com mais de vinte livros publicados, eterno candidato ao Prémio Nobel, tem fama de mal-humorado, mas de perto é amigável, mesmo brincalhão às vezes e à sua maneira. Fuma como uma chaminé e gosta de deitar as cinzas no maço de tabaco vazio e amarrotado. Vive inteiramente dedicado ao seu ofício absorvente: desvendar a essência da humanidade através da literatura. Portanto, este homem, que não tem telemóvel ou cartão de crédito, que escreve à mão com uma dessas vinte canetas alinhadas na mesa, não deixa que nada o distraia do livro (quando este chega): nem o leitor, nem críticos, nem os prémios, nem a rua, nem a si mesmo. Confessa que o melhor da sua escrita surge quando já leva três horas de trabalho e está cansado, quando a lógica das emoções e dos afectos vence a da mente, sendo esta, em suas próprias palavras, uma espécie de "polícia política". É então quando a sua mão desliza sozinha. Apresenta agora em Espanha um dos seu mais recentes trabalhos, Qué caballos son aquellos que hacen sombra en el mar? (Mondadori), um romance onde se cruzam as vozes dos mortos e dos vivos de uma família dividida, caída em tempos difíceis, dedicada à criação de touros, com origens de uma região rural do Alentejo. Estruturado como uma tourada, cada capítulo é precedido por um título com referência à lide tauromáquica.


Porquê esta alusão aos touros?
Há muitos anos que queria fazer um livro com uma estrutura parecida. Mas não me saía. Os livros rejeitavam. Este aceitou-a.

Gosta de touros?
Gosto de Curro Romero (ri)

O título é estranho, alude a quê?
Vem de uma canção folclórica muito antiga de Natal, do século XIX, do Alentejo, uma região do interior de Portugal. Era assim que cantavam os camponeses, que não sabiam ler e nunca tinham visto o mar. É uma canção longa, que fala da Virgem, do Menino, e depois refere-se aos Reis Magos: "Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? São os Reis do Oriente que ao Menino vão adorar", ou algo assim.

O que o atraiu nessa canção?
Porque era bonita e muito sugestiva. E o facto de que quem a fez nunca tivesse visto o mar. Quando comecei esse livro, era tudo o que tinha, esse verso e uma frase: "Que triste é esta casa às três da tarde".

Nem sequer as personagens?
Não, nada. Cada vez mais os livros se fazem a si mesmos. Antes, fazia muitos planos. Agora não.

No entanto, o tema da família é um assunto recorrente em si...
Não sei. Nunca pensei nisso. Não me interessa. Sabe por quê? Porque não me interessa a história. Em nenhum livro meu encontra a intriga. O que tento fazer é colocar a vida entre as capas de um livro. A história, se houver, serve apenas para atrair o leitor ao que me interessa verdadeiramente: a natureza humana.

Pois o livro está carregado de personagens tristes, desesperadas e sós...
Diga-me um livro alegre ou feliz. O que gosto, o que procuro nos livros é a felicidade da mão do escritor. Pode ler-se, por exemplo, A Morte de Ivan Ilich, de Tolstói, e achá-lo triste. Para mim, no entanto, lê-lo é de uma alegria enorme, porque me ensina quem sou. O mesmo se passa com Quevedo, que talvez seja o meu escritor favorito em castelhano.

E qual a sua opinião sobre Cervantes? O Quixote não é um livro com final feliz, mas também não é um livro inteiramente triste. Tem passagens com esperança.
Sim, e divertidos, é verdade. Claro que gosto do Quixote. Mas Cervantes não é dos escritores que mais me entusiasmam. Os que me deslumbram de verdade são os poetas do Século de Ouro: Góngora, Quevedo, Frei Luis de León, S. Juan de la Cruz... A propósito, sabe o que dizia Cervantes do castelhano?

Não.
Que era como o português, mas com osso. É verdade: o castelhano é um idioma muito forte. O português é muito prático, um idioma bom para escrever. Mas esconde o perigo da sua própria facilidade. Tem que se lutar todo o tempo contra essa facilidade... Acho que é mais difícil fazer um bom livro em francês do que em português. Por isso o trabalho de Céline ou de Proust me pareça incrível.

Disse sempre que os livros vêm com a chave para entendê-los e desfrutá-los. Este também?
Tem que se entrar num livro sem ideias pré-concebidas. Enquanto se lê - a mim encanta-me ler, é um prazer absoluto, não como escrever, que às vezes não o é - enquanto se está a ler, dizia, é preciso conservar a virgindade do olhar. Não se deve ir com preconceitos. Por vezes pode ter-se a sensação de não se estar a entender nada, mas isso está bem, porque depois, subitamente, entende-se tudo: o escuro torna-se claro.

Não o preocupa que isso não seja sempre assim, que alguns leitores dos seus livros os achem sempre difíceis, e acabem por desistir, deixando-os?
Enquanto se escreve não se pode pensar no leitor. Se se piscar o olho ao leitor, o livro vai ser mau. Conversei muito com Juan Marsé (um amigo meu de quem gosto muito como escritor, cujo último romance, Caligrafía  de los sueños, acho uma maravilha) acerca disso, que não se pode transigir nesse aspecto. Tem que se fazer o que há a fazer com o livro. E se o leitor gostar, melhor. Se não gostar...

O apartamento de Lobo Antunes é um duplex encantador com uma grande janela sobre uma rua movimentada. No entanto, os ruídos que vêm de fora, dos automóveis, não atinge o silêncio da casa do escritor. As divisões estão forradas de estantes de livros meticulosamente arrumados. Uma divisão guarda todos os seus romances e respectivas traduções. Numa parede da sala tem frases pintadas com marcador. São máximas de pensadores ou poetas, colocadas ali por um Lobo Antunes convertido em grafitador do seu próprio apartamento. Fala da sua dívida para com Espanha, agradece o tratamento que lá recebe, relembra escritores amigos espanhóis que admira particularmente (Javier Marías, Pere Gimferrer), defende que os dois países deviam ser fundidos num só. De seguida, acende outro dos seus cigarros e, já a tarde avançando, acende a luz de um candeeiro de mesa: "Assim vejo melhor".

Como se consegue uma voz particular como a sua?
Com trabalho. Levou-me muito tempo  para encontrar o meu estilo, muitos anos.

Muitos livros também?
Bom, eu comecei a publicar tarde, com 36 anos. Vai-se aprendendo com o que se vai escrevendo, ainda que lhe digo que não volto a ler o que já escrevi.

Porquê?
Porque tenho medo de encontrar defeitos muito grandes e pouca qualidade. Só se pode escrever estando-se convencido de que se é o melhor. E depois, é tão difícil, e há tantas decepções com os próprios livros...

Para superar isso trabalha doze horas por dia, não é?
Sim, normalmente sim. Embora agora não. Agora espero. E digo-lhe que não sei se já não terei escrito o meu último livro, pois não sei se vou ser capaz de escrever outro. A verdade é nunca sabemos...

E porque sente culpa quando não está a escrever?
Porque escrever é única coisa que sei fazer, que faço. Além disso, tenho a impressão de que os livros não me pertencem, que nem sequer tenho o direito de por o meu nome na capa. Eles vêm de sítios, nossos ou não, que não conhecemos. Nos bons momentos, a mão caminha sozinha. A literatura não se faz com a lógica da cabeça, mas com a dos afectos, dos sentimentos e das emoções.

O inconsciente?
Repare: lemos Lorca ou vemos um filme de Fellini, e compreendemos que as suas associações carecem de lógica. No entanto, são uma maravilha. E é algo verdadeiro. Isso não se pode fazer com a cabeça, isso é um milagre. E de onde vêm os milagres? Não sei.

E depois disso, corrige muito?
As primeiras versões são sempre más. O problema não é escrever, mas corrigir. Para corrigir, o estado de espírito deve ser completamente diferente. Aí é preciso estar vigilante. E tentar estruturar o delírio.

É um dos escritores mais prestigiados da Europa, muitas vezes candidato ao Nobel. Pensa nisso? Pensa nos prémios?
Os prémios não valem nada. Há uns anos, ligaram-me do México para me dizerem que tinha ganho o Juan Rulfo e eu apenas respondi: "quanto é?" Não sabia que a conversa estava a ser transmitida para uma conferência de imprensa! Do Nobel falam todos os anos, mas isso, como escritor, é igual. Se vier, está bem porque é muito dinheiro, se não vier também estará muito bem. Existem muitos prémios... todos os escritores têm o seu prémio, há prémios para todos...

Sempre se sentiu escritor?
Nunca servi para outra coisa. Não sirvo para a vida prática. Nem sequer tenho computador: escrevo à mão, porque é como bordar, gosto do cheiro do papel, gosto dessa coisa artesanal da escrita, o desenho das letras. Há três ou quatro coisas importantes na vida: os livros, os amigos, as mulheres... e Messi. Vi-o há pouco tempo, na televisão, no Mundialito. Ah, quem me dera escrever como o Messi joga futebol! A bola parece sua namorada!

Como vê agora Portugal?
As pessoas vivem muito mal. Há dois dias, fui lá abaixo comprar cigarros e no quiosque duas senhoras quase se matavam por dez cêntimos. Este bairro é pobre, onde os restaurantes são muito baratos, tascas modestas, onde se pode comer por cinco ou seis euros. Antes estavam sempre cheios. Agora estão vazios. As pessoas não têm dinheiro. O desemprego sobe e, ao mesmo tempo, há uma classe social com muitíssimo dinheiro. É tudo muito injusto.


El País
citado do artigo on-line
14.01.2012
[tradução do castelhano por José Alexandre Ramos]

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia
– Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar
mas muito pouco tempo antes de morrer veio ter comigo e passámos a tarde juntos, sentados lado a lado no sofá. Foi ele quem falou quase sempre, eu pouco abri a boca.
Mostrou-me os braços, o corpo
– Estou miserável
sabia que ia morrer dali a nada e comportou-se com a extraordinária coragem do costume. Coragem, dignidade e pudor. A certa altura
– Para onde queres ir quando morreres?
respondi
– Para os Jerónimos, naturalmente.
Ficou uns minutos calado e depois
– Tu acreditas na eternidade.
Disse-lhe
– Tu também.
Novo silêncio.
– Eu quero ser cremado e que ponham as cinzas na serra, voltado para a Praia das Maçãs.
Novo silêncio. A seguir
– Vou morrer primeiro que tu. Vou morrer agora.
Mais silêncio. Eu
– Ganhei-te outra vez.
ele
– É.
Ele
Ganhamos sempre os dois.
Eu
– Porque é que a gente gosta tanto um do outro?
Ele silêncio antes de
– Se me voltas a falar de amo…

«Até que as pedras se tornem mais leves que a água»

O meu trabalho é escrever até que as pedras se tornem mais leves que a água. Não são romances o que faço, não conto histórias, não pretendo entreter, nem ser divertido, nem ser interessante: só quero que as pedras se tornem mais leves que a água. Em pequeno, à noite, no verão, de luz apagada, ouvia o mar na cama: a mesma onda sempre, ainda hoje a mesma onda a trazer a praia e a levar a praia e, ao levar a praia, eu suspenso do nada sem tocar nos lençóis. A cómoda do quarto estalava de vez em quando, perto do vidro da janela um pinheiro sem fim. Durante o dia tornava-se outra árvore mas conhecia melhor a do escuro, que me interrogava, interrogava
– Tu
até a primeira nuvem cor de laranja do nascimento do dia lhe selar os lábios. Nenhum melro ainda, nem um passo lá fora, o mundo desabitado de gente, o primeiro cão daqui a nada, rente ao muro, a tossir, com um fio de saliva pendurado do queixo. Um desses pobres cães que comem restos de bichos mortos, coçam uma orelha com a pata, vão-se em…

A opinião de um leitor sobre D'Este Viver Aqui Neste Papel Descripto (Cartas da Guerra)

António Lobo Antunes é, para mim, o maior e melhor autor português contemporâneo; tenho praticamente todos o livros que ele escreveu, já os li quase todos e interesso-me por tudo o que tenha a ver com ele, sua obra e vida. Naturalmente, quando houve toda esta “agitação” em torno do filme realizado pelo Ivo Ferreira baseado neste livro, fiquei curioso e com uma grande vontade de o ver, mas antes de o ver gostava de ler esse famoso livro que serviu de base ao filme. Por sorte possuo o livro que me tinha sido oferecido há tempos mas ainda não o tinha lido. A publicação deste livro é curiosa: apesar das cartas terem sido escritas por António Lobo Antunes à sua primeira esposa Maria José, foram as suas filhas (Maria José e Joana Lobo Antunes) quem as publicaram após a morte da sua mãe, a pedido desta.
António Lobo Antunes, em Janeiro de 1971, com 28 anos de idade, formado em medicina há pouco mais de um ano, casado há menos de seis meses e com a mulher grávida, segue para Angola como alfe…