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Ricardo Salvalaio: opinião sobre O Meu Nome É Legião

Com título inspirado numa citação do Evangelho de São Lucas, “O Meu Nome é Legião” começa como um relatório de polícia, descrevendo a vida de uma gang numa zona a que se chama simplesmente Bairro e que pode fazer evocar qualquer bairro periférico de uma grande cidade. Histórias se cruzam no pano de fundo do Bairro e é normal - o autor mostra que aquilo que existe de mais parecido com a salvação é esquecer tudo o que aconteceu e pensar: "Não tenho medo de vocês, não tenho medo de nada".

É noite num bairro afastado de Lisboa quando oito garotos, com idades entre 12 e 19 anos, roubam dois carros. Ao alcançarem uma auto-estrada, passam a praticar crimes bárbaros madrugada adentro. Gusmão é um policial desiludido. Ignorado pelos colegas e em vias de se aposentar, redige um inquérito sobre oito jovens delinquentes e seus actos bárbaros ao longo de uma madrugada.

Mas o texto, aparentemente técnico e objectivo, aos poucos se transforma em uma trama narrativa de múltiplas vozes, em que vários narradores tomam a palavra, cada qual com sua versão dos factos e suas lembranças, criando um mosaico de contrastes sobre a injustiça e a dor. “O Meu Nome é Legião” mostra Lobo Antunes em pleno domínio de um estilo narrativo inigualável, em que as falas, os pensamentos e os actos de diversos personagens se fundem em um texto denso, raras vezes visto na literatura.

O escritor português reconta os acontecimentos inicialmente sob a forma de um relatório escrito por Gusmão, policial em fim de carreira, para em seguida entrelaçar os pensamentos desse homem solitário aos depoimentos de outros personagens que, de uma forma ou de outra, estão ligados ao destino dos jovens criminosos. “O Meu Nome é Legião” é um romance magistral, que se coloca entre os livros mais contundentes de Lobo Antunes. Confira!


Ricardo Salvalaio
16.10.2011

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