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Manuel Cardoso: opinião sobre Comissão das Lágrimas


Uma mulher de quarenta e tal anos. A fronteira entre a juventude e a memória que escapa, porém uma outra memória, a que resiste, persiste, como uma moinha, uma dor latente que aperta a alma e domina a mente; recordações negras, avassaladoras, povoam a mente de Cristina, internada numa clínica psiquiátrica. Memórias de África, Angola, Luanda, anos setenta. Nascida no tempo da Guerra Colonial, crescida entre o sangue e o horror, Cristina recorda a mãe, Alice ou Simone consoante se trate da mãe propriamente dita ou da mulher de alterne em que sobrevivera, do pai ou não pai, não se sabe bem, ele preto, o pai verdadeiro talvez branco, talvez o senhor Figueiredo da boîte, Cristina não sabe, sabe sim que o pai, preto, foi homem da Comissão das Lágrimas, homem que faz justiça com muitas mortes e sofreu de outras justiças não menos ensanguentadas pela guerra ou guerrilha ou seja lá o que for, porque em Angola não era preciso guerra para matar, bastava viver ou sobreviver.

É assim o escrever e o sentir de António Lobo Antunes, frases que crescem como o pensamento que se encadeia noutro pensamento, porque o pensamento não tem pontos parágrafo nem sofre de acordos ortográficos. Assim uma escrita corrediça como a vida, assim às vezes partida ao meio como as almas.

O escrever de António é como o escrever do pensamento na memória. O que pensamos é por vezes apenas o que persistiu, deitamos fora os sorrisos, ficam as dores, as moinhas que persistem como o joelho de Simone ou Alice, o joelho que não pára de doer, que incha como as dores da alma.

É assim o escrever de António, um escrever que nos faz sentir as dores de todas as Cristinas e chorar a alma de todas as Simones. É assim um livro inteiro sem um sorriso, a não ser talvez o sorriso interesseiro do avô de Simone, “anda cá rapariga”, o avô de Alice (então Alice, está claro) que não vê, não enxerga e então vê Alice tacteando, as pontas dos dedos no corpo de Alice, como os aguilhões de todas as guerras cravados nas almas.

Um livro sofrido, escrito a sangue que se lê sem lágrimas mas também sem conforto a não ser o do prazer imenso de passear na tristeza e na arte infinita de António Lobo Antunes.

A meu ver um dos melhores livros de ALA, este, o último até ao próximo. Um livro onde, mais uma vez, não se pode procurar uma estória porque os livros de ALA são viagens, não são contos nem narrativas. Viagens interiores, passeios pelas dores da vida e, muitas vezes, murros brutais na alma de quem lê. Murros que se encaixam talvez com prazer masoquista mas sem dúvida com prazer de saborear esta poesia da dor como ninguém mais é capaz de a escrever.


Manuel Cardoso
31.10.2011

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