Avançar para o conteúdo principal

António Guerreiro: crítica a Comissão das Lágrimas


Quem falou em polifonia?

Um boato sobre alguns romances de Lobo Antunes, e muito especificamente sobre este último (agora, com o beneplácito do autor, que contribuiu para ampliá-lo), obteve ampla circulação e incitou a cerimoniosas leituras. Trata-se do boato da "polifonia", do "romance polifónico". A ideia de romance polifónico ou dialógico foi desenvolvida por Mikhail Bakhtine - um grande linguista russo, perseguido pelo estalinismo, cujos estudos só foram conhecidos na Europa ocidental já nos anos 70 - num livro chamado "A Poética de Dostoievski". O que é o romance polifónico, segundo Bakhtine? É um tipo de romance em que as vozes das várias personagens não são projecções da consciência do autor-narrador. Feito de uma multiplicidade de consciências independentes, de ideologias diversas, de linguagens diferentes, de discursos heterogéneos, o romance polifónico ou dialógico caracteriza-se por uma diversidade de vozes contraditórias que inclinam o romance para uma permanente crítica de si mesmo ou até para a paródia e a ironia. No pólo oposto do romance polifónico está o monologismo da epopeia, que, em certa medida, se prolonga no romance realista do século XIX. Ora, quando lemos "Comissão das Lágrimas", defrontamo-nos, até à exasperação, com uma espécie de recitativo ou de litania caracterizada pela homogeneidade. As vozes podem ser muitas, mas são indiferenciadas (por isso é que, para o leitor, são difíceis de identificar: quem diz o quê neste romance?), têm todas a mesma música. O efeito, como é óbvio, demasiado óbvio, é a equivalência e a monotonia, exactamente o contrário do efeito que produz um romance polifónico, que é movido pelo princípio da contestação e da contradição. O leitor avança por um terreno liso, sem paragens nem curvas nem encruzilhadas, e o perigo a que está exposto é o de sentir um enorme tédio, porque a paisagem é sempre igual: os efeitos narrativos e a informação diegética (a matéria que constitui o plano da história narrada) alcançados no primeiro capítulo não aumentam de teor nem de quantidade nem de densidade, embora se prolonguem por mais de 300 páginas. O que aumenta, isso sim, é a impaciência do leitor perante a redundância. Aquilo que é prometido como polifonia não passa de uma algazarra de vozes indistintas. Mas este romance falha essa presumida polifonia porque, embora não pareça (já que ao leitor não lhe são dadas as informações para reconstituir a história nem sequer em fragmentos), está ainda submetido a modelos de representação realista. Ao impedir o leitor de compreender e seguir uma intriga, retira-lhe algo que é uma necessidade imanente do romance e do qual ele não pode prescindir, entrando em falha. Dito de outro modo: o livro de António Lobo Antunes pressupõe uma história enquanto objecto de uma narração, exige do leitor que este saiba do que é que falam e de onde vêm as personagens, mas omite tudo isso, sem se importar com o facto de não assumir a responsabilidade da sua forma. Parece comprometido com o fragmentário e a dissolução das categorias narrativas, mas continua a exigir uma totalidade. É como se um Faulkner fosse buscar um enxerto ao Hermann Broch de "A Morte de Virgílio". Inevitavelmente, o leitor sentir-se-á derrotado por tamanho desajuste. Mas, atenção: "Comissão das Lágrimas" não recusa a intriga por se situar num outro plano. Não, ele situa-se no plano onde a intriga é ainda exigida, mas está em falta, inacessível ao leitor. Alguém que sinta falta de uma história num romance de Rui Nunes é porque não consegue, ou não quer, responder às solicitações da sua escrita; quem acha que não é necessário saber, neste romance, a quem pertencem as vozes, com quem dialogam e que história trazem consigo, é porque tem uma fé inabalável na imaginária polifonia. E ainda que seja justo reconhecer que conseguimos isolar frases, excertos, páginas que têm uma grande força e densidade, logo somos obrigados a verificar que eles são submetidos a um dispositivo que os esvazia e tudo devolve, transformado no artifício gratuito de uma hiperliteratura deslumbrada consigo mesma.
 

António Guerreiro
Expresso, suplemento Actual nº 2033
15.10.2011

Comentários

  1. Quem sabe escrever fá-lo, quem não sabe critica e ensina!...

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia
– Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar
mas muito pouco tempo antes de morrer veio ter comigo e passámos a tarde juntos, sentados lado a lado no sofá. Foi ele quem falou quase sempre, eu pouco abri a boca.
Mostrou-me os braços, o corpo
– Estou miserável
sabia que ia morrer dali a nada e comportou-se com a extraordinária coragem do costume. Coragem, dignidade e pudor. A certa altura
– Para onde queres ir quando morreres?
respondi
– Para os Jerónimos, naturalmente.
Ficou uns minutos calado e depois
– Tu acreditas na eternidade.
Disse-lhe
– Tu também.
Novo silêncio.
– Eu quero ser cremado e que ponham as cinzas na serra, voltado para a Praia das Maçãs.
Novo silêncio. A seguir
– Vou morrer primeiro que tu. Vou morrer agora.
Mais silêncio. Eu
– Ganhei-te outra vez.
ele
– É.
Ele
Ganhamos sempre os dois.
Eu
– Porque é que a gente gosta tanto um do outro?
Ele silêncio antes de
– Se me voltas a falar de amo…

«Até que as pedras se tornem mais leves que a água»

O meu trabalho é escrever até que as pedras se tornem mais leves que a água. Não são romances o que faço, não conto histórias, não pretendo entreter, nem ser divertido, nem ser interessante: só quero que as pedras se tornem mais leves que a água. Em pequeno, à noite, no verão, de luz apagada, ouvia o mar na cama: a mesma onda sempre, ainda hoje a mesma onda a trazer a praia e a levar a praia e, ao levar a praia, eu suspenso do nada sem tocar nos lençóis. A cómoda do quarto estalava de vez em quando, perto do vidro da janela um pinheiro sem fim. Durante o dia tornava-se outra árvore mas conhecia melhor a do escuro, que me interrogava, interrogava
– Tu
até a primeira nuvem cor de laranja do nascimento do dia lhe selar os lábios. Nenhum melro ainda, nem um passo lá fora, o mundo desabitado de gente, o primeiro cão daqui a nada, rente ao muro, a tossir, com um fio de saliva pendurado do queixo. Um desses pobres cães que comem restos de bichos mortos, coçam uma orelha com a pata, vão-se em…

A opinião de um leitor sobre D'Este Viver Aqui Neste Papel Descripto (Cartas da Guerra)

António Lobo Antunes é, para mim, o maior e melhor autor português contemporâneo; tenho praticamente todos o livros que ele escreveu, já os li quase todos e interesso-me por tudo o que tenha a ver com ele, sua obra e vida. Naturalmente, quando houve toda esta “agitação” em torno do filme realizado pelo Ivo Ferreira baseado neste livro, fiquei curioso e com uma grande vontade de o ver, mas antes de o ver gostava de ler esse famoso livro que serviu de base ao filme. Por sorte possuo o livro que me tinha sido oferecido há tempos mas ainda não o tinha lido. A publicação deste livro é curiosa: apesar das cartas terem sido escritas por António Lobo Antunes à sua primeira esposa Maria José, foram as suas filhas (Maria José e Joana Lobo Antunes) quem as publicaram após a morte da sua mãe, a pedido desta.
António Lobo Antunes, em Janeiro de 1971, com 28 anos de idade, formado em medicina há pouco mais de um ano, casado há menos de seis meses e com a mulher grávida, segue para Angola como alfe…