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Liberto Cruz: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 97 de Maio de 1987 – pp. 118 e 119


Memória de Elefante, a primeira obra de António Lobo Antunes, data de 1979, e a última, Auto dos Danados, de 1985. Temos assim que, em sete anos, este escritor publicou seis livros, o que equivale a umas centenas largas de páginas densas, quase não deixando margem para possíveis anotações ou simples descanso estético.



Sem indicação do género literário (precaução ou modernidade?) mas informados pelo editor de que se trata de romances, estas ficções de António Lobo Antunes parecem ser do agrado geral, dadas as edições já postas em circulação e as traduções já feitas ou previstas em vários países. Tanto melhor: ganha o Autor, ganha o editor, ganha a literatura portuguesa em geral e ganha, evidentemente, o respectivo ou potencial leitor.

Este processo de composição dramática, a roçar muitas vezes pelo melodramático, feito a perversos e espertalhotes indivíduos, mais não é (o que revela grandes ambições literárias), mais não é, repito, do que a comédia humana de pequeno-burgueses endinheirados onde o machismo, a cultura de sovaco, a ganância e o desprezo pelos considerados inferiores na escala social conseguem dar largas à sua intolerância, pacovismo e presunção. Tudo isto servido por um estilo que se pretende vigoroso, onde às vezes a linguagem antilírica consiste só em substituir a tradicional flor por um palavrão - o que não passa, no fim de contas, duma outra forma de lirismo muito perto da etiqueta literária de caserna.

Posto isto, considero Auto dos Danados como a melhor obra, que conheço, de António Lobo Antunes. Menos espalhafatoso, mais sóbrio no estilo, menos fanfarrão na análise de coisas e de gentes, mais moderado na narração, evitando, quase, o episódio pelo episódio, e a caminho de se livrar de imagens rebuscadas ou insólitas, que nem já os curas conseguem entusiasmar, este texto é uma lufada susceptível de incomodar os contemporâneos de António Lobo Antunes que sejam oficiais do mesmo ofício.

É preciso dizê-lo sem rodeios: Lobo Antunes é um escritor e não um escrevente. E creio, sinceramente, que, quando ele conseguir dominar a impetuosidade com que escreve e a embriaguez com que se lança na construção de situações, e quando puder ser menos moralista e mais profundo na elaboração das taras de pai em filho ou de sogro em genro, com que se delicia e nos surpreende neste Auto recentemente publicado, a sua escrita alcançará uma outra dimensão. [...]

Caso António Lobo Antunes continue a aplicar os mesmos moldes e a seguir airosamente o mesmo modelo, teremos, com frequência, tipos em vez de personagens, caricatura em vez de pessoas e jeitos de actuar em vez de tomadas de posição. A anedota e a história são duas máscaras diferentes, e a primeira não se adapta facilmente ao rosto do escritor se este não souber incluí-la, a seu tempo, na história. Ora o narrador António Lobo Antunes usa e abusa da anedota, preferindo ao real a divagação e ao concreto do quotidiano a fuga onírica. Alinhando tudo e todos pela mesma bitola e dando a cada personagem do Auto a mesma forma de falar e de pensar, o narrador domina orgulhosamente a acção como se fosse o dono e o empregado. Não se contentando em ser o administrador da fazenda alheia, o Autor apodera-se da voz das personagens e avalia-as da mesma maneira.

Com uma capacidade extraordinária de alinhavar textos por nada e de fabricar pequenos enredos aptos a voos de grande fôlego, [...] António Lobo Antunes merecia ter menos êxito. E creio que o conseguirá um dia.


Liberto Cruz
Colóquio Letras 97
Fundação Calouste Gulbenkian
Maio de 1987

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