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Luiz Guilherme de Beaurepaire: opinião sobre Exortação Aos Crocodilos


Exortação aos Crocodilos é um livro que não chega a ser uma viagem lisérgica, longe disso, mas é contada de tal forma que beira o inconsciente, no qual pequenos sentimentos, emoções, estados de espírito, loucuras humanas, ausência de amor e incertezas estão presentes nessas vozes, vindas da memória mais profunda de um mundo sufocante.

“O corpo era uma sombra do meu corpo movendo-se sem peso nos chinelos porque o corpo verdadeiro permanecia nesta cama ou em Coimbra há muitos anos, perto dos Salgueiros altos, a eu crescida observando a eu pequena ou a eu pequena observando a eu crescida, não sei...”

Nos primeiros capítulos o leitor anda num terreno minado por bombas e estilhaços. É preciso seguir adiante, ir montando um quebra cabeça compostos de imagens de infância, sabores, objetos de estimação, humilhações cotidianas, procurando reconhecer a voz dos personagens, o tempo de suas falas, o espaço a que se referem, o que acontecimentos relatam.

A narrativa é enigmática, são histórias vividas por homens sob o prisma feminino. São quatro mulheres que escrevem na primeira pessoa: Mimi, Fátima, Celina e Simone. Cada uma delas tem um passado e percurso próprio. O livro começa com as rememorações de Mimi que conta fatos vividos por seus homens, sua avó – uma galega que tinha tranças compridas penteada com aguardente – exerce uma forte influência sobre as demais. Essa avó galega, que possuía o segredo da fórmula da coca-cola, uma fórmula caseira em que misturava água gasosa, açúcar e café.

Mimi é uma surda que ouve o som das coisas, mas é incapaz de ouvir as pessoas. Ela encarna a pobreza da experiência enquanto processo de comunicação.

Fátima é afilhada do Bispo conspirador. Eram amantes. O seu destino estava traçada pelo pai. Celina representa a figura atormentada por ter sido casada ainda jovem com um homem mais velho, porém, rico. Vinga-se ao traí-lo com o seu sócio, que era nada mais, nada menos que o esposo da Mimi.

Simone é uma jovem gorda, complexada, acredita ter encontrado a saída existencial de sua vida carregada de humilhações, namorando o motorista de Mimi:
“Se meu namorado se enganar nos fios e a garagem for inteirinha pelo ar, por mim, palavra de honra, é-me indiferente.Estou cansada de dormir em colchão atrás dos automóveis acordar com dores de cabeça derivado aos vapores de gasolina(...) (...) viver rodeada de pneus motores e embreagem, em vez de quadros e móveis, do general e os outros entrarem sem incomodarem comigo, pedirem licença, me darem os bons dias sequer...”
O que essas mulheres têm em comum é que todas são casadas com pessoas desagradáveis, que abusam de serem violentos, torturadores de comunistas, envolvidos em atentados de direita, movidos por uma nostalgia do regime salazarista.

Exortação aos crocodilos não é um livro que nos leva ao maniqueísmo, ninguém é inocente nesta história toda, o general e o bispo mandam matar; militares e diplomatas articulam contrabandos de armas e operacionalizam fábricas de bombas; e as mulheres assistem a tudo com um silêncio cúmplice. No decorrer do romance, as vozes se cruzam, os tempos se misturam, as histórias se confundem. A morte invade as recordações como se misturasse numa espécie de aniquilamento final.

Nos monólogos interiores das quatro personagens é mostrado um instantâneo do inferno de cada consciência individual.

Exortação aos Crocodilos mistura polifonia, fratura, delírio, caos. Exortação aos Crocodilos é um “pit stop” no inferno da lembrança.


por Luiz Guilherme de Beaurepaire
17.01.2011

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