Avançar para o conteúdo principal

Kel: opinião sobre Quarto Livro de Crónicas


Sinopse

«Este quarto livro de crónicas de António Lobo Antunes é uma selecção de 79 crónicas publicadas na revista Visão. Nestes pequenos textos, António Lobo Antunes evoca lugares, personagens, retratos do quotidiano e memórias de infância.

Não morreste na cama mas morreste entre lençóis de metal horrivelmente amachucados na auto-estrada de Cascais para Lisboa e a gente ali, diante do teu caixão, tão tristes. Começa assim a quarta crónica deste livro e é um bom exemplo da intensidade dramática de alguns textos que sendo muito mais acessíveis ao público do que os seus romances não descuram uma forte componente literária. E com uma narrativa que nos surpreende sempre pela genialidade como junta as palavras para formar cada frase, António Lobo Antunes leva-nos da tristeza à alegria e arranca-nos sorrisos pela forma como se ri de si próprio e das pequenas fraquezas de cada um de nós e que "apanha" e retrata como ninguém».

Opinião

Nunca tinha lido nada deste grande escritor, mas com este livro fiquei rendida à sua escrita. Todo o prestígio que possui não é em vão, ou exagerado.

Eu sabia que este escritor tem uma escrita muito pesada e que é necessário um certo "amadurecimento" literário para conseguir digerir bem a leitura. Além disso, como escreve sobre as suas lembranças da guerra, e outros temas dramáticos, a leitura é por vezes depressiva. Por estes motivos achei melhor entrar no seu mundo primeiro pelas crónicas. E realmente não são como as suas restantes obras. É uma leitura bem descontraída, mas que consegue prender o leitor com todas as frases e palavras. Isso acontece devido à sua natureza ilustrativa – a pessoa lê e consegue "ver" aquilo que está descrito, fazendo com que o leitor fique agarrado ao livro, não conseguindo "desligar" da leitura.

Um livro fantástico, adorei!

É constituído por crónicas de 3 ou 4 páginas, que o leitor devora. Tem um humor muito próprio, e uma linha condutora muito sua. Houve algumas crónicas que me marcaram mais, tais como "Jaime", "O que são as mulheres", "Se eu fosse Deus parava o sol sobre Lisboa" e "Já escrevi isso amanhã".

Uma pequena referência à encadernação – é magnífica! Parece daquele papel de convites de casamento, mais grossa que o normal, e com brilho. As folhas usadas são também diferentes do normal, sendo de um papel mais cuidado. Uma encadernação "de luxo".

Com certeza irei ler outros livros dele.


por Kel
07.06.2011

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia
– Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar
mas muito pouco tempo antes de morrer veio ter comigo e passámos a tarde juntos, sentados lado a lado no sofá. Foi ele quem falou quase sempre, eu pouco abri a boca.
Mostrou-me os braços, o corpo
– Estou miserável
sabia que ia morrer dali a nada e comportou-se com a extraordinária coragem do costume. Coragem, dignidade e pudor. A certa altura
– Para onde queres ir quando morreres?
respondi
– Para os Jerónimos, naturalmente.
Ficou uns minutos calado e depois
– Tu acreditas na eternidade.
Disse-lhe
– Tu também.
Novo silêncio.
– Eu quero ser cremado e que ponham as cinzas na serra, voltado para a Praia das Maçãs.
Novo silêncio. A seguir
– Vou morrer primeiro que tu. Vou morrer agora.
Mais silêncio. Eu
– Ganhei-te outra vez.
ele
– É.
Ele
Ganhamos sempre os dois.
Eu
– Porque é que a gente gosta tanto um do outro?
Ele silêncio antes de
– Se me voltas a falar de amo…

«Até que as pedras se tornem mais leves que a água»

O meu trabalho é escrever até que as pedras se tornem mais leves que a água. Não são romances o que faço, não conto histórias, não pretendo entreter, nem ser divertido, nem ser interessante: só quero que as pedras se tornem mais leves que a água. Em pequeno, à noite, no verão, de luz apagada, ouvia o mar na cama: a mesma onda sempre, ainda hoje a mesma onda a trazer a praia e a levar a praia e, ao levar a praia, eu suspenso do nada sem tocar nos lençóis. A cómoda do quarto estalava de vez em quando, perto do vidro da janela um pinheiro sem fim. Durante o dia tornava-se outra árvore mas conhecia melhor a do escuro, que me interrogava, interrogava
– Tu
até a primeira nuvem cor de laranja do nascimento do dia lhe selar os lábios. Nenhum melro ainda, nem um passo lá fora, o mundo desabitado de gente, o primeiro cão daqui a nada, rente ao muro, a tossir, com um fio de saliva pendurado do queixo. Um desses pobres cães que comem restos de bichos mortos, coçam uma orelha com a pata, vão-se em…

A opinião de um leitor sobre D'Este Viver Aqui Neste Papel Descripto (Cartas da Guerra)

António Lobo Antunes é, para mim, o maior e melhor autor português contemporâneo; tenho praticamente todos o livros que ele escreveu, já os li quase todos e interesso-me por tudo o que tenha a ver com ele, sua obra e vida. Naturalmente, quando houve toda esta “agitação” em torno do filme realizado pelo Ivo Ferreira baseado neste livro, fiquei curioso e com uma grande vontade de o ver, mas antes de o ver gostava de ler esse famoso livro que serviu de base ao filme. Por sorte possuo o livro que me tinha sido oferecido há tempos mas ainda não o tinha lido. A publicação deste livro é curiosa: apesar das cartas terem sido escritas por António Lobo Antunes à sua primeira esposa Maria José, foram as suas filhas (Maria José e Joana Lobo Antunes) quem as publicaram após a morte da sua mãe, a pedido desta.
António Lobo Antunes, em Janeiro de 1971, com 28 anos de idade, formado em medicina há pouco mais de um ano, casado há menos de seis meses e com a mulher grávida, segue para Angola como alfe…