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Urbano Tavares Rodrigues: Recensão de A Ordem Natural das Coisas para a Gulbenkian em Dezembro de 1992


É talvez o melhor romance de António Lobo Antunes. Muito bem estruturado, na linha faulkneriana de vários narradores internos, o que supõe um certo esforço por parte do leitor. A Ordem Natural das Coisas conta a história dos amores, das lutas, dos fracassos, das decadências dos membros de uma família rica, com casa apalaçada na Benfica de há mais de trinta anos. O título fala-nos das leis da Natureza que condenam à morte os seres humanos e votam ao insucesso as paixões de homens de cinquenta anos por meninas adolescentes. Não há um herói nem um fulcro de narrativa, que se tece das múltiplas histórias dos irmãos e irmãs (e do sobrinho bastardo) e ainda de outras personagens adjacentes, como o antigo mineiro semi-louco, na sua arteriosclerose adiantada, que por todo o lado abre furos com a picareta, em busca de ouro, ou do ex-agente da P.I.D.E reduzido a expedientes de miséria. É um romance truculento, como todos os de Lobo Antunes, associando uma grande carga afectiva ao grotesco, ao cáustico, ao imundo, na sua ânsia de comunicar a vida, no seu estendal de sofrimentos, físicos, morais, desejos, delírios e êxtases. Poucas obras, na Literatura Portuguesa, nos terão dado até hoje os quadros de Lisboa, de Alcântara, de Benfica, do Campo de Santana à Baixa, que este livro nos oferece, com tal abundância de visões, cheiros sons, movimentos da multidão. A prosa de Lobo Antunes ganhou neste romance a sua plenitude em poder de representação e em riqueza metafórica, em pujança lexical, com um maior equilíbrio na distribuição das imagens e na adjectivação. Tudo isto, é claro, sob o signo do excesso, que é consubstancial à sua arte de escritor. Nunca também o autor penetrou tão fundo na consciência e na subconsciência das personagens, nos escombros de cada pequeno inferno privado. Tenta mesmo novos registos de linguagem para exprimir alterações psíquicas ou o grau de cultura, melhor dito, da incultura, de certas figuras. Mas nesse domínio fica aquém do propósito, pois o estilo Lobo Antunes, com raras excepções, invade todo o macrotexto, sem atender, no geral às idiossincrasias e níveis etários das personagens. Mas, nesse aspecto, há que fazer uma espécie de pacto com o autor ou com o seu projecto de verosimilhança estética, pois a torrente Lobo Antunes, com o seu brilho ofuscante impõe-se a qualquer lógica realista. Finalizando, trata-se de um romance universal, que oferece alguma resistência à decifração imediata, mas conquista o leitor pela beleza formal desmedida e intensa. E que, como tal, muito se recomenda.


por Urbano Tavares Rodrigues
recensão para a Gulbenkian
22.12.1992

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