Avançar para o conteúdo principal

António Bettencourt: sobre Que Cavalos São Estes Que Fazem Sombra No Mar?


«Como esta casa deve ser triste às três horas da tarde.»

A frase, convocada, logo no início, pela memória da personagem Beatriz foi um dos pontos de partida para este livro e uma memória do autor, citação do seu primeiro romance e recordação da sua infância. Assim se define uma das temáticas centrais do livro, a passagem do tempo, onde tudo se orienta e tudo se constrói a partir da morte da mãe, que origina o labirinto de memórias individuais de uma vida familiar desagregada e disfuncional, onde as relações e manifestações de ternura e afecto são sempre difíceis ou inexistentes e onde as personagens procuram na alienação ou no delírio mitigar o deserto da sua dificuldade emocional, e da carência que dela decorre.

Um discurso que se exerce na técnica polifónica, onde múltiplas vozes se entretecem à volta de uma dominante, vozes que configuram, muitas vezes, apenas ecos distantes da recordação de situações ou objectos.

As frases reiteradas, como que figurações de temas com inúmeras variações ou modulações de tonalidade, formam uma filigrana narrativa depurada segmento a segmento, palavra a palavra, por vezes mesmo letra a letra, num exercício de composição que confere à escrita de António Lobo Antunes um carácter de palavra essencial.

Estamos perante uma escrita que, na sua ambiguidade, nos interpela e nos fascina a cada momento, mas que obriga a que o leitor reconstrua dentro de si toda a teia lógica do romance, num esforço plenamente recompensado pela genialidade da arte de António Lobo Antunes que, a um tempo, intensamente nos perturba, mas fortemente seduz.

Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? é um romance de sombra e sol em que os cavalos, sob a luz, vão ludibriando a morte que se anuncia,

“Chegam os cavalos que fazem sombra no mar e assim que o mar emergir do escuro desaparecemos para sempre.”


António Bettencourt
29.01.2010

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia
– Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar
mas muito pouco tempo antes de morrer veio ter comigo e passámos a tarde juntos, sentados lado a lado no sofá. Foi ele quem falou quase sempre, eu pouco abri a boca.
Mostrou-me os braços, o corpo
– Estou miserável
sabia que ia morrer dali a nada e comportou-se com a extraordinária coragem do costume. Coragem, dignidade e pudor. A certa altura
– Para onde queres ir quando morreres?
respondi
– Para os Jerónimos, naturalmente.
Ficou uns minutos calado e depois
– Tu acreditas na eternidade.
Disse-lhe
– Tu também.
Novo silêncio.
– Eu quero ser cremado e que ponham as cinzas na serra, voltado para a Praia das Maçãs.
Novo silêncio. A seguir
– Vou morrer primeiro que tu. Vou morrer agora.
Mais silêncio. Eu
– Ganhei-te outra vez.
ele
– É.
Ele
Ganhamos sempre os dois.
Eu
– Porque é que a gente gosta tanto um do outro?
Ele silêncio antes de
– Se me voltas a falar de amo…

«Até que as pedras se tornem mais leves que a água»

O meu trabalho é escrever até que as pedras se tornem mais leves que a água. Não são romances o que faço, não conto histórias, não pretendo entreter, nem ser divertido, nem ser interessante: só quero que as pedras se tornem mais leves que a água. Em pequeno, à noite, no verão, de luz apagada, ouvia o mar na cama: a mesma onda sempre, ainda hoje a mesma onda a trazer a praia e a levar a praia e, ao levar a praia, eu suspenso do nada sem tocar nos lençóis. A cómoda do quarto estalava de vez em quando, perto do vidro da janela um pinheiro sem fim. Durante o dia tornava-se outra árvore mas conhecia melhor a do escuro, que me interrogava, interrogava
– Tu
até a primeira nuvem cor de laranja do nascimento do dia lhe selar os lábios. Nenhum melro ainda, nem um passo lá fora, o mundo desabitado de gente, o primeiro cão daqui a nada, rente ao muro, a tossir, com um fio de saliva pendurado do queixo. Um desses pobres cães que comem restos de bichos mortos, coçam uma orelha com a pata, vão-se em…

A opinião de um leitor sobre D'Este Viver Aqui Neste Papel Descripto (Cartas da Guerra)

António Lobo Antunes é, para mim, o maior e melhor autor português contemporâneo; tenho praticamente todos o livros que ele escreveu, já os li quase todos e interesso-me por tudo o que tenha a ver com ele, sua obra e vida. Naturalmente, quando houve toda esta “agitação” em torno do filme realizado pelo Ivo Ferreira baseado neste livro, fiquei curioso e com uma grande vontade de o ver, mas antes de o ver gostava de ler esse famoso livro que serviu de base ao filme. Por sorte possuo o livro que me tinha sido oferecido há tempos mas ainda não o tinha lido. A publicação deste livro é curiosa: apesar das cartas terem sido escritas por António Lobo Antunes à sua primeira esposa Maria José, foram as suas filhas (Maria José e Joana Lobo Antunes) quem as publicaram após a morte da sua mãe, a pedido desta.
António Lobo Antunes, em Janeiro de 1971, com 28 anos de idade, formado em medicina há pouco mais de um ano, casado há menos de seis meses e com a mulher grávida, segue para Angola como alfe…