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António Bettencourt: sobre Que Cavalos São Estes Que Fazem Sombra No Mar?


«Como esta casa deve ser triste às três horas da tarde.»

A frase, convocada, logo no início, pela memória da personagem Beatriz foi um dos pontos de partida para este livro e uma memória do autor, citação do seu primeiro romance e recordação da sua infância. Assim se define uma das temáticas centrais do livro, a passagem do tempo, onde tudo se orienta e tudo se constrói a partir da morte da mãe, que origina o labirinto de memórias individuais de uma vida familiar desagregada e disfuncional, onde as relações e manifestações de ternura e afecto são sempre difíceis ou inexistentes e onde as personagens procuram na alienação ou no delírio mitigar o deserto da sua dificuldade emocional, e da carência que dela decorre.

Um discurso que se exerce na técnica polifónica, onde múltiplas vozes se entretecem à volta de uma dominante, vozes que configuram, muitas vezes, apenas ecos distantes da recordação de situações ou objectos.

As frases reiteradas, como que figurações de temas com inúmeras variações ou modulações de tonalidade, formam uma filigrana narrativa depurada segmento a segmento, palavra a palavra, por vezes mesmo letra a letra, num exercício de composição que confere à escrita de António Lobo Antunes um carácter de palavra essencial.

Estamos perante uma escrita que, na sua ambiguidade, nos interpela e nos fascina a cada momento, mas que obriga a que o leitor reconstrua dentro de si toda a teia lógica do romance, num esforço plenamente recompensado pela genialidade da arte de António Lobo Antunes que, a um tempo, intensamente nos perturba, mas fortemente seduz.

Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? é um romance de sombra e sol em que os cavalos, sob a luz, vão ludibriando a morte que se anuncia,

“Chegam os cavalos que fazem sombra no mar e assim que o mar emergir do escuro desaparecemos para sempre.”


António Bettencourt
29.01.2010

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