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Maria Celeste Pereira: sobre O Meu Nome É Legião


Há uns quantos livros mas, sobretudo, uns quantos autores que, na minha opinião têm de ser lidos com a disposição certa, no momento certo, com tempo para deles podermos tirar o máximo proveito.

Foi, para mim, o caso de “O meu nome é legião”. Há já muito que o tinha pronto para ler e a verdade é que tinha vontade de o fazer. Contudo, apenas há pouco tempo entendi que estava preparada para o usufruir.

Li-o e, de imediato, voltei a lê-lo. Não que o não tenha compreendido na primeira leitura, mas sim pelo enorme prazer que me deu fazê-lo e porque me custou deixá-lo. Não queria.

Essa dupla leitura permitiu-me também parar e absorver mais intensamente algumas partes de uma beleza única. Aquelas por onde se consegue pressentir a beleza, o sentimento, onde só parece existir fealdade, desencanto, desamor, negação, dor… (O sentir do autor?)


O livro é, desde o primeiro capítulo até ao último (foram, aliás, estes dois os meus preferidos), um verdadeiro tratado literário; um prazer de leitura só por si.

Escrito em vários registos, pretende contar a história de um bando composto por oito jovens de idades compreendidas entre os doze e os dezanove anos, mestiços, um preto e um branco, todos residentes num bairro socialmente desfavorecido, onde prevalece o vazio cultural e afectivo associado às privações materiais mais prosaicas, que se dedica a actividades criminais.

Essa história que se inicia de uma forma bastante normal, sob a forma de relatório policial seguido de depoimentos testemunhais, vai dando lugar ao deambular indomável dos pensamentos mais profundos das personagens que vão desfilando sob os nossos olhos num intrincado discursivo que torna por vezes difícil identificar a personagem. E terá isso tanta importância?

Serão as personagens assim tão diferentes nas suas reflexões, nas suas deambulações?

Todas provêm de fantasmas do passado, do abandono, da solidão, do sofrimento, da injustiça, de obsessões, da ausência, de debilidades, de abusos de dores, de violências…

Todos são seres despedaçados pela vida que têm (que não tiveram), que não têm… Todos se vêem a braços com contendas interiores que não sabem como resolver. Que não resolvem. Que nem são para resolver…

Enfim, simplesmente magistral. António Lobo Antunes inconfundível e irreproduzível (se bem que por vezes, não fácil), nesta sua capacidade de dominar plenamente um estilo narrativo delicado, este de entrecruzar as vidas, os sentimentos, as lágrimas negadas, as que caem, os relatos de desesperança, a negação de memórias das suas personagens.

Se todo o livro foi para mim uma necessidade premente, o último capítulo, mais excelente ainda, no meu ponto de vista, deixou-me sem fôlego.

Fantástico.


Maria Celeste Pereira
24.08.2009

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