Avançar para o conteúdo principal

Denis Araki: opinião sobre Os Cus de Judas


Sinopse: O livro revela aos leitores brasileiros, pela primeira vez, os horrores da guerra colonial na África, o reencontro de Portugal consigo mesmo e a dilacerante experiência de viver em silêncio uma ditadura fascista.

 
edição Objetiva, Brasil
O português António Lobo Antunes, para alguns eternamente injustiçado pelo Nobel de Literatura de 1998, em sua recente visita ao Brasil, reafirmou seu carinho por nosso País. Ele não consegue imaginar o Brasil como um país, o que vem a sua mente são pessoas, doces, seu avô, que era de Belém, as cocadas de sua tia. É a visão de um autor que vem realizando um profundo retrato do Portugal contemporâneo, questionando o conceito de nação.

Os Cus de Judas, livro de 1979 que compõe a primeira trilogia do autor (os outros livros são Memória de Elefante e Conhecimento do Inferno), a que ele considera de aprendizagem, aborda os efeitos da guerra. A guerra em questão é a da libertação de Angola e seu resultado na figura de um médico enviado para o combate. Narrado em primeira pessoa, o médico passa uma madrugada até o amanhecer com uma mulher, começando em um bar e depois em sua casa. Nesse período ele conta sua história, entremeada com reflexões. O tempo é demarcado pela simulação de diálogo com a mulher, que não exprime uma palavra no romance.

Ainda que muito duro contra a guerra e contra essa noção de serviço à pátria, o texto possui momentos líricos, na medida do possível, como no trecho: “formávamos a cada jantar a anti-Última Ceia, o desejo comum de não morrer constituía, percebe, a única fraternidade possível.” O narrador sofre da falta de afeto que o atinge, ou, como ele prefere descrever, “esta angustiada sede de ternura que repele o afecto”. É a impossibilidade do amor e da readaptação que o aflige. Ele nasceu em um país “estreito e velho” e foi mandado para os “horizontes sem limites” das planícies de Luanda para cumprir o peso da tradição militar de sua família, requisito para se tornar um homem. O ressentimento a essa tradição é marcado ao longo do livro, e são poucos os momentos de ternura, principalmente de sua infância e de suas filhas.

É na descrição do cotidiano que sentimos o descaso do governo português e a dureza de se estar na guerra; nos relatos dos feridos vemos a falta de sentido no combate. É esse desconforto, essa dureza que faz com que os soldados descarreguem sua tensão no momento do combate. Algo conveniente.

Após vivenciar esses horrores, ele também vê a falta de sentido no cotidiano de sua cidade: “de chinelos, na cozinha, você prepara um café forte como um electro-choque que a projete para fora de seu invólucro de sono na direcção do emprego.” As pessoas seguem a vida apáticas enquanto os soldados estão “defendendo” a pátria. A falta do valor dos enviados fica mais evidente, “porque uma camioneta era mais necessária e mais cara do que um homem um filho faz-se em cinco minutos e de graça não é verdade uma viatura demora semanas ou meses a atarraxar parafusos.”

Há quem prefira as alegorias e o onírico de Saramago, há quem prefira a crueza do mundo e os profundos mergulhos na psique humana que Lobo Antunes proporciona. Depois de passar pelos Cus de Judas, percebe-se que a vida segue e um profundo desprezo, uma falta de sensibilidade, atinge aqueles que entraram forçados nessa guerra. Assim como aqueles que nem pisaram naquela terra vermelha.


por Denis Araki
13.07.2009

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia
– Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar
mas muito pouco tempo antes de morrer veio ter comigo e passámos a tarde juntos, sentados lado a lado no sofá. Foi ele quem falou quase sempre, eu pouco abri a boca.
Mostrou-me os braços, o corpo
– Estou miserável
sabia que ia morrer dali a nada e comportou-se com a extraordinária coragem do costume. Coragem, dignidade e pudor. A certa altura
– Para onde queres ir quando morreres?
respondi
– Para os Jerónimos, naturalmente.
Ficou uns minutos calado e depois
– Tu acreditas na eternidade.
Disse-lhe
– Tu também.
Novo silêncio.
– Eu quero ser cremado e que ponham as cinzas na serra, voltado para a Praia das Maçãs.
Novo silêncio. A seguir
– Vou morrer primeiro que tu. Vou morrer agora.
Mais silêncio. Eu
– Ganhei-te outra vez.
ele
– É.
Ele
Ganhamos sempre os dois.
Eu
– Porque é que a gente gosta tanto um do outro?
Ele silêncio antes de
– Se me voltas a falar de amo…

Público: «Cartas da Guerra: um filme que se ergue»

Cartas da Guerra, de Ivo Ferrreira, que tem hoje a antestreia antes de chegar às salas a 1 de Setembro, aventura-se a procurar um corpo, para a personagem António e para si próprio, que esteja num lugar que não aquele a que parecia destinado. Delicado e temerário, cria o seu mundo.

Uma “cena original” luminosa: o realizador Ivo M. Ferreira a entrar em casa de madrugada – como contou -, avançando para o quarto, guiado pela voz da mulher grávida, a actriz Margarida Vila-Nova, que lia à sua barriga uma carta. A futura mãe tinha em mãos as páginas de uma das missivas de D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra, o volume que em 2005 juntou as cartas escritas pelo alferes médico António Lobo Antunes, de 28 anos e destacado logo após a conclusão do curso de Medicina para uma comissão de serviço em Angola (1971-1973), à mulher grávida que deixara em Lisboa, Maria José.
Mesmo correndo o risco de a “cena” se imobilizar como cliché à força de tanto ser “vista” (mas é belíssima, …

Bia Couto sobre Da Natureza Dos Deuses

Da natureza humana e das suas misérias. Uma leitura das nossas vidas tão desencantada e triste que impressiona.
A vida dos ricos e a vida dos pobres. Em comum, as mesmas angústias e a falta de alegria. Tudo cru, com as cores que se vêem nos talhos. Ninguém é feliz.
No mundo dos ricos, que tudo podem comprar, incluindo homens e mulheres que os servem submissos ou com a astúcia de lhes sacar o máximo possível, falta-lhes ter paz. Não têm. Tentam ajustar contas com o passado mas nunca as acertam porque não dominam a ganância que sentem nem as memórias que lhes criaram essa dureza implacável.
Nos pobres, a mesma miséria. As mulheres novas, ambiciosas, a desperdiçarem a exuberância e a energia dos vinte anos com velhos com dinheiro, a troco de uns fios, sapatos, brincos, vestidos, jantares e carros que lhes podem ser retirados em qualquer altura, porque eles fazem questão de lhes mostrar quem é que manda. Tudo se passa com a bênção dos pais e restante família, aproveitando também eles alg…