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"Os livros em Portugal são indecentemente caros"


O escritor António Lobo Antunes considerou ontem à noite, no Porto, que os livros em Portugal são "indecentemente caros", referindo que "há países com maior poder de compra onde são muito mais baratos", como Alemanha, Holanda e Noruega. 

O autor de "Arquipélago da Insónia", publicado este ano e que já vai na sétima edição, falou durante a cerimónia em que recebeu o Prémio Clube Literário do Porto, com um valor pecuniário de 25.000 euros.

Lobo Antunes, de 68 anos, foi apresentado pelo jornalista, comentador e professor Carlos Magno como um autor que "escreve sobre a contemporaneidade como poucos o fazem neste país", fazendo uso de uma "ironia absolutamente a toda a prova". 

O escritor disse que não podia deixar de estar no Porto para receber o prémio, por ter "uma dívida de gratidão muito grande para com a cidade", que vem do tempo em que esteve internado num hospital lisboeta, a lutar contra um cancro. 

"Quando há dois anos estive muito doente, recebi sete, oito mil cartas e a maior parte eram do Porto. Isso é uma coisa que nunca poderei pagar", explicou. 

O autor falou sobre a sua doença, a morte, a escrita, a cultura, a guerra, o preço dos livros, entre outros temas. 

Os portugueses vivem mal e os livros são indecentemente caros

Disse por exemplo que os governos pouco têm feito pela cultura desde o 25 de Abril de 1974.

"Quem tem trabalhado com a cultura são as autarquias e são fundações" como aquela a que está ligado o Clube Literário do Porto, a Fundação Dr. Luís de Araújo, defendeu. 

Como autor, o que o move é "tentar colocar em palavras o que por definição é impossível contar em palavras, como as emoções ou os impulsos". 

Lobo Antunes evocou Ernesto Melo Antunes, que foi um dos ideólogos do 25 de Abril e morreu há nove anos, tendo mantido com ele uma grande amizade. 

"A morte de um amigo é uma coisa irreparável", resumiu, para depois acrescentar que "o que aparece nos livros são estas coisas todas, ou seja, a vida". 

"Os portugueses vivem tão mal e os livros são tão indecentemente caros!", criticou, em seguida, frisando que "que quem lê não são as classes altas, é a classe média baixa, como se pode observar nas feiras do livro". 

O presidente da Fundação Dr. Luís de Araújo, Augusto Morais, ofereceu a Lobo Antunes um elefante prateado, que definiu como sendo "uma provocação à memória" do escritor. 

O autor de "Memória de Elefante", o seu primeiro livro, lançado em 1979, recordou que ninguém, na altura, queria publicar este livro, que acabou por ser um êxito editorial. 

Perante uma plateia constituída por várias dezenas de pessoas, entre elas muitos jovens, Lobo Antunes falou sobre a sua experiência enquanto doente com um cancro, dizendo que viveu então "uma mistura de sentimentos" e que passou depois "dois meses sentado numa cadeira, completamente vazio". 

Segundo Lobo Antunes, a doença deu-lhe outra perspectiva sobre a vida. 

"A gente passa a jogar com as cartas para cima; não há nada para esconder", sustentou. 

António Lobo Antunes revelou à comunicação social que poderá haver um novo livro seu "talvez para o fim do ano que vem". 

"Não depende só de mim, penso que sim, se for capaz de o acabar", completou. 

O Prémio Clube Literário do Porto tem "um significado muito maior do que um prémio no estrangeiro, por maior nome que o prémio tenha". 

"É para as pessoas do meu país que eu escrevo", justificou. 

Esta é a quarta edição do Prémio Clube Literário do Porto, que nos anos anteriores distinguiu os escritores Mário Cláudio, Armando Baptista Bastos, e Miguel Sousa Tavares.

fonte: Público
28.12.2008

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