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Ellen Wernecke: Knowledge of Hell


Com a primeira publicação inglesa, por via da tradução de Clifford E. Landers, o romance de António Lobo Antunes publicado em 1980, Conhecimento do Inferno, será reunido aos trabalhos de outros realistas de línguas românicas como Gabriel García Márquez. Mas a melhor comparação será com o romancista turco Orhan Pamuk, cujos romances, por todas as suas filosofias, nunca se desligam de uma corrente perpétua de medo que corta qualquer personagem que fale em determinado momento. Mas as imagens inócuas de Pamuk, como a aldeia vítima das intempéries de Neve, não têm par com as investidas de pesadelos multi-sensoriais de Lobo Antunes.

Com a extensão que importa ao romance, o enredo segue um psiquiatra – que partilha o nome do autor – que viaja pelo interior português de regresso ao hospital de Lisboa onde trabalha. O regresso ao seu trabalho enche-o de medo; enquanto avança, cada paragem na sua viagem inunda-o de memórias do seu trabalho com os soldados e as baixas na guerra de Portugal em Angola, bem como dos doentes com que lida agora. A narrativa alterna com fluidez da priemira para a terceira pessoa, mas nunca abandona a perspectiva do médico: «Ele examinou-se ao espelho, assegurando-se da sua gravata, do seu casaco, do risco no cabelo, e pensou “Sou um médico” tal como uma criança repete “Sou crescido”... Vou finalmente ser uma pessoa respeitável inclinado sobre um bloco de receitas numa nobreza abstraída e apressada». (Honra seja feita à tradução de Lander, que faz estas transições sem aumentar a confusão inerente à história do médico).

O inferno do médico está presente mesmo em memórias que deveriam ser calmantes, como imagens da sua mulher durante a lua-de-mel há muito passada e visões momentâneas de paisagens marítimas ao longo da estrada, e a curiosa abertura da sua cabeça para que os leitores possam experienciar esta cadeia de imagens cada vez mais horríveis faz Conhecimento do Inferno agarrar o leitor do princípio ao fim das páginas. Nos pesadelos elaborados do médico, também, está sentido de que a sua história é demasiado terrível para ser directamente comprometida. Ele tem uma recusa de Jean Rhysian em aceitar o valor normal das coisas por que passa; elas podem apenas recordar-lhe choques passados. A cumplicidade do médico faz parte da onda nauseante que o empurra para o seu odioso trabalho, construído no sentido de responsabilidade que ele nunca poderá representar completamente. Apenas a entrega lírica destas memórias, camada sobre camada, faz os leitores avançarem através dos seus sonhos sonâmbulos delirantes.

 
Ellen Wernecke
27.03.2007
[traduzido do inglês por Gonçalo Figueiredo Augusto]

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