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Júlio Conrado: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 157/158 de Julho de 2000 – pp. 411 a 413


A popularidade e a ressonância dos romances de António Lobo Antunes terão hoje de ser procuradas à margem das coordenadas do bem escrever, pois vários são os sinais da existência de certo «problema» da escrita na oficina de um autor que admira Céline, gostaria de se rever no estilo de Cardoso Pires e tem «inveja», neste particular, de Mário Cláudio. Num pequeno exercício de leitura crítica de Exortação aos Crocodilos, procurarei isolar duas ou três linhas de força que ilustrem sumariamente o que precede. Pelo volume da obra, a sua penetração num vasto público, o seu renome, ambos, obra e Autor, merecem a observação, de perto, do modo como um produto manifestamente não encantatório e de escassa ludicidade consegue, em todo o caso, ganhos de sociabilidade só ao alcance de textos em que o prazer da cumplicidade estética na partilha da leitura do mundo por via escritural é uso atingir-se a partir de outros padrões de realização. Enigmático? Vamos por partes.

Talvez como em nenhum dos anteriores romances de Lobo Antunes da fase mais recente[o recenseador estava em 2000] - aquela em que o Autor se compraz em executar alguns exercícios «formais». supostamente irreverentes, que marcam a diferença em relação à compostura sintáctica dos primeiros livros - seja tão evidente a aposta num efeito de pulverização do discurso como em Exortação aos Crocodilos. Esse efeito é obtido através do dispositivo verbal que estimula o levitar de pequenas fracções do texto num espaço narrativo restrito onde concorrem sobretudo para a criação de atmosferas em detrimento de fluxos contínuos de sentido lógico. A demonstração desta «técnica» nas primeiras páginas deixa perceber uma premeditação de caos ao arrepio de nexos gramaticais e linguísticos conservadores que a lenta evolução da intriga acabará por naturalizar, graças a procedimentos de recorte iterativo-redundante a que o narrador recorre sem qualquer embaraço. Desde logo dá nas vistas a personagem surda e isso explicará, quando em intervenção mediúnica o narrador «por ela» discorre na primeira pessoa, o corte abrupto das palavras, a incompletude das representações, o défice de associações e equivalências correspondentes ao que no campo visual vai captando. Surpreendentemente, porém, essa personagem - a mulher de um «patrão» terrorista - , em lapsos fulgurantes de lucidez, consegue contextualizar, racionalizando, o que se passa à beira dela, de tal modo que as suas intermitentes reflexões se tornam, desde cedo, um dos traços credenciadores do recado que se pretende fazer passar, a «voz» de que o narrador se serve para, em apoio dos próprios desígnios, estabelecer na desordem vocabular e de conteúdos um princípio de organização espacio-temporal.

A partir desta linguagem «surda» de retalho, dinamitada por fracturas, interrupções bruscas, cortes, elipses, silêncios e falas sibilinas de conspiração, ganha gradualmente nitidez a ligação do operacional terrorista à hierarquia da Igreja Católica (não por acaso a acção tem por centro geográfico o Patriarcado), empenhada numa guerra santa, ao lado de generais inconformados com o estado das coisas e do embaixador norte-americano - guerra santa cujo aparato rapidamente coloca o receptor no miolo de um esquema do tipo de rede bombista. Outros comparsas entretanto se intrometem, outros elementos de distúrbio atrapalham, outros cenários alternam com miúdos relatos de odisseias pessoais, como por exemplo a vida conjugal de Celina e seu epílogo violento. De sublinhar que a maioria dos eus da história se expressa do ponto de vista do feminino - Mimi, Simone, Celina ou Fátima (o que revela uma tendência de Lobo Antunes já visível noutros escritos, veja-se O Esplendor de Portugal). A leitura terá de continuar em esforço porque a clareza expositiva no vermelho deriva do que tende a consolidar-se como «estilo». Se o Autor não é capaz de escrever bem e claro embora os temas o reclamem, porque não fazer da falta de estilo «o estilo»? Ou será o instinto de autodefesa a impor o não estilo como medida de precaução, não vá o diabo tecê-las?

À medida que o romance avança, afrouxa ligeiramente o ritmo da fragmentação. As atmosferas adensam-se com o correr da intriga, mas percebe-se que, a dado passo, o Autor sente a necessidade de começar a explicar-se ao leitor - aligeirando certos truques de mistério, suspense, obstrução lexical. Essa explicação passa por um discurso já não tão prolixo e pelo acumular de informações que remetem para um tempo específico da história portuguesa recente («um levantamento de católicos ao norte, o roubo de armas numa caserna, uma bomba na moradia de um deputado de Souzel», p. 147) e para uma definição mais precisa do relacionamento das personagens entre si e do que lhes vai acontecendo ou daquilo que os seus comportamentos vão determinando.

O tom é de disforia. Não sobra um nico de optimismo, uns laivos de amor ou de ternura aliviando a pressão de quotidianos sem luz, sufocantes de medos e de casos clínicos sem o colorido das perspectivas de cura. O clima é de guerra santa vivida em espaços interiores, frequentados por gente marcada, altos dignitários, antigos polícias, mulheres que colaboram, na sombra, nas acções, mas cujo testemunho é crucial na configuração da trama. A tónica no inventário minucioso de mobiliário, adereços, bibelôs, naperons, reposteiros, talheres, salvas de prata, argolas de guardanapo, abajures, contadores, loiças chinesas, jarras de porcelana, arcas japonesas, etc., numa obsessão pelas coisas que vem do Novo Romance e é recorrente na prosa do Autor, ajuda a situar socialmente todos aqueles nostálgicos de um regime que caiu de podre e que agora encontram nova razão para se sentirem vivos - a cruzada contra os comunistas, com algumas variantes: a relação de Fátima com o «padrinho» no capítulo dezoito é dada com requintes de crueldade, a que não escapa a forte carga simbólica do nome, em episódio que se inscreve como dos melhores instantes no livro de horrores que é Exortação aos Crocodilos.

Sempre com as mulheres conduzindo os fios da intriga numa «fala» segmentada por recordações da infância, reminiscências da fase adolescente, memória de relações familiares conturbadas, identificadas às vezes por frases sobreviventes ou de choque (este é um romance sem diálogos e de precária vocação coloquial, ainda que verbalmente chão), tais como «Livra-te de te coçares agora», «Pára com a choradeira rapariga», «Se o teu pai coitadinho sonhasse...», «Voar Celina voar», «Deslarguem-me», etc., chega-se à consumação do atentado para que a subjectividade do texto vinha apelando. Assim se consagra uma estratégia romanesca de condenação da guerra santa que todavia não chega a ser guerra suja (talvez por falta de condições concretas para tal), mas sem a tendência da escrita se inverter por forma a que o sentido se encaminhe para uma síntese de conto moral capaz de criar empatia e colocar o leitor a favor ou contra o que a história, não obstante, propõe, dificuldade resultante dos níveis de ambiguidade em que essa proposta é literariamente objectivada.

Como «justificação» do sucesso de livros como este, excluindo as campanhas demarketing e promocionais que pouco têm a ver com a literatura, só encontro, por um lado, as fidelidades de leitura que vêm dos tempos de Memória de ElefanteOs Cus de JudasConhecimento do Inferno e Explicação dos Pássaros, e por outro a coragem com que António Lobo Antunes aborda os temas social e politicamente explosivos do nosso tempo e que insolitamente tão pouco eco encontram na produção da esmagadora maioria dos ficcionistas portugueses. Eram tempos, aqueles, em que Lobo Antunes escrevia por prazer e muitos sentiam prazer em lê-lo. Depois, tornou-se escritor profissional, estrito senso, com a obrigação de pôr cá fora uma ficção «genial» de doze em doze meses, mais coisa menos coisa. Exortação aos Crocodilos é sem dúvida o romance mais exuberantemente depressivo, no seu tricô exasperado de ódios, sombras e desastres, desta segunda, estranhíssima, fase.


Júlio Conrado
Colóquio Letras 157/158
Fundação Calouste Gulbenkian
Julho de 2000

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