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Ente Lectual: opinião sobre Ontem Não Te Vi Em Babilónia


Um ensaio a duas partes sobre um livro que escrevi e me recuso a ler

1ª parte - o que não diria

“Perante uma obra destas, difícil delinear um início, esboçar uma continuação, entabular em duas linhas que sejam um diálogo entre personagens. Impossíveis resumos” - um dos mais velhos e vis truques de quem tenta resumir ou criticar um pedaço de arte, de literatura. Tudo mentira, não fosse o caso da sua indubitável aplicabilidade neste caso concreto.

(Ah, os casos concretos, outro truque da cartilha...)

Saltando aquela parte em que o crítico critica os outros menos sagazes críticos, contar-te-ei de um livro que um dia escrevi. Ontem não te vi em Babilónia.

Se, leitor, procuras uma obra de agradável, de cabeceira ou canto da secretária, lenitiva ou narcotizante, própria para insónias e descargos de consciência, tardes ou noites bem passadas de pés para a lareira, gato no colo, fá-lo noutro lado. Esta não é uma história agradável. Não é uma história. (Ponto). É triste, mas verdade.

Poder-lhe-ia dar um ar intrigante, uma trama que se move, narradores e personagens, aspectos cativantes. Poder-te-ia falar de Ana Emília, habitante de Lisboa, viúva, trespassada pelo suicídio da filha, recorrentemente visitada por um antigo agente da PIDE. Poder-te-ia falar das alusões subtis a espaços geográficos concretos como Évora, Lisboa ou aquele quarto que associo ao da minha avó

(também tu, se um dia escreveres este livro, o associarás a um remoto lugar que nebulosamente conheces)

à situação política de um Portugal de cicatrizes ainda mal fechadas, de uma guerra lá longe, de ideias revolucionárias, de uma - crítica de costumes’, retratos de personagens que em todas as ruas encontramos.

Explicar-te-ia também, fosse esta uma crítica séria e lavada que este livro é composto por cinco capítulos – cinco horas da noite. Da meia-noite às 5 da manhã, quatro narradores se vão revezando, fazendo turnos ao longo dos quais uma meada se desfia: o resultado, diria, de uma insónia impossível e um sono improvável.

Mencionaria ainda, já vestido o chapéu de apreciador de recursos estilísticos, uma a uma, as aliterações, personificações, passando por metáforas, comparações, oxímoros, hipálages. Das metáforas geniais através das quais se torna desnecessário nomear Aborto, Democracia, Comunismo, etc. E mesmo da ironia, não aquela que conheces do teu Eça, a ironia de um velho combatente, vagamente médico e erudito, que te controla há mais de trezentas páginas. Que te ridiculariza, a ti e à tua linguagem de origens jornalística.

Usaria uma das expressões da moda: sobre ‘a polifonia desta obra’, ‘riqueza dos personagens’ e outras que se não me escarrapacharam na lembradura (para usar uma também na moda, lá para freixo d’espada à cinta).

Tudo o que nunca diria sobre ontem não te vi em Babilónia.

1. (“Na telha que falta não há céu”)

Só o título forneceria matéria-prima para numerosas prelecções de carácter literário ou extra-literário, muita tinta correria, mãos e gargantas a trabalharem energeticamente, botões de punho, gravatas coloridas, na análise de cada um dos elementos e aventaçãode cada uma das possíveis interpretações resultantes da sua combinação. Não o faço, o título desta obra é o fim e não o início, é a conclusão, constringência com a qual se deparam tantos quantos construíram o texto, o livro se preferirem, num esforço quase épico. Bom, comecemos antes por um princípio.

Só me recordo de um ‘fio condutor’ da trama (caso tal coisa exista): a noite — o céu que não existe para lá da telha que falta; uma insónia prolongada em cima de um colchão e uma barriga que voltada para cima e uns olhos que abertos nada vêem e, por sobre a noite, a noite interminável. Cinco horas, cinco vidas que vão passando, confrontando um pretenso actor principal, mero espectador — o leitor. O fio condutor é a vigília insone, viagem impertinente, desautorizada, através de pretéritos sem dono.

“O céu faz economia de estrelas”, diz o narrador de Machado de Assis num dos seus contos, também neste Ontem de Lobo Antunes, não se lobriga uma estrela para amostra, apenas azul mortiço e indecifrável, cúmplice com um silêncio tortuoso, que ninguém se atreve a quebrar, que ninguém consegue interromper.

Há, nesta obra, uma intromissão constante do leitor no dever do escritor, vice-versa, em que ambos se servem da inépcia narrativa de uns, a dificuldade em ler correctamente de outros – e é assim que se desfia uma meada perdida que conduz a um novelo, a um tumor. A um temor. É esta a história do livro, a minha ou a tua história, uma história como qualquer outra, contada numa hipócrita 1ª pessoa, não a história passada — amontoado de traumas e infortúnios que deixaram, mais que pegadas, cadáveres nas enseadas do que somos, lambidos pelo salgado do mar —, não a história do que foi, a história do que é: desta sonolência que prende como que com tenazes e força o passado a uma continuidade pelo presente dentro.

2. (A história do hoje, antes de se tornar ontem quando já é amanhã.)

Menti.
Em ontem não te vi em Babilónia há de facto um ontem: há de facto a luta interior com espectros antigos, imagens que ora deslizam em slide, ora se perpetuam num sffumatovagaroso e sofrido e impelem o personagem a pedir auxílio, a desejar que sido não tivesse. Outra constante: o desejo de anular o passado, ou, pelo menos, anular a sua vinda esporádica ao presente, o que vai dar no mesmo.

(Maria Emília, exemplo, a páginas tantas confessa ’A quantidade de episódios que gostava de deitar fora’, essa mesmo que adiante revela uma cicatriz, antes úlcera?, provocado por ‘Nunca ter beijado o meu pai’).

Caso tenha utilizado o substantivo personagens, peço permissão para o substituir. Por pessoas. Personagem alguma neste livro, pois que é escrito por mim que o leio, pois que é erguido a força de lágrimas, suor, intermitências e cobardias, tão humanas quanto eu, quanto as formas que avultam nos 4 sujeitos noctívagos.

3. A fragilidade sujeitos vestidos de personagens

(“Se soubesses quanto dói a chuva…”)

Tudo nas pessoas disfarçadas de personagens é indubitavelmente humano, titubeante, frágil e diáfano — a Maria Emília basta a recordação das alturas em que o mar tão sereno, basta o mar em Agosto e emociona-se logo; ao antigo oficial da PIDE, que insiste em visitar o cemitério dos choupos, onde jazem vivos os caprichos da memória inclinada à celebração de alegrias idas, que aborrecem, que magoam, resta o lamento de não ter tido alguém em quem confiar. Noutros casos, o leitor-escritor penetra na intimidade

(que outra prova maior da veracidade dos ‘personagens’ senão terem intimidade?)

e depara-se com a belicosidade interior de Alice, o 3º sujeito, por oposição ao “corpo em paz para quem visse de fora”, na qual a amargura pela não existência de Deus, cuja prova, diz, é o céu desabitado.

4. Explicação do título

Como referido, o título desta obra não será nunca um início, antes uma verdade que vem crescendo de encontro ao leitor, como indicação no fundo da estrada que aumenta progressivamente as suas dimensões, e que chega sem concessões ou fugas fáceis. Ontem não te vi em Babilónia significa para um leitor atento, (em Lobo Antunes não existe outro tipo de leitor) mais do que um curioso artefacto que comprova uma coloquialidade surpreendente em tempos tão distantes, a injunção de uma ausência.

Injunção de ausência? Ora bolas. Explicando melhor: é a prova material de que o difícil confronto com cada uma das muitas páginas reporta, remonta e remete a uma ou várias ausências. A chave para a compreensão dos personagens que são pessoas é a falta, a supressão natural ou forçada de alguém, alguma coisa e a sua reacção perante esse silêncio e essa noite. Perante esse ontem onde não o ou a vimos. Não (te) ter visto ontem em Babilónia, acrescento, implica ainda um outro factor ou característica da ausência: ela ser prolongada, de segunda geração, por assim não dizer, por se referir a um pretérito anterior à “imediatidade” do ontem.

A Babilónia de Antunes, a do leitor, é portanto mais distante do que um ontem. É, talvez, um anteontem?

por Ente Lectual
07.09.2007

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