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Do leitor Artur Carvalho: «Olá Mestre»

Olá Mestre:

Deixando passar a torrente incómoda de toda a situação crítica e muito íntima que deve ter sido a sua saúde nos últimos tempos, venho mais uma vez, porque já o fiz em ocasião anterior, expressar-lhe o meu mais profundo agradecimento (e de toda a minha geração) pelo que nos ensinou, pelo que nos acarinhou e pelo que nos fez crescer com um conforto mínimo que é o das histórias.

Um amigo meu diz que um romance só está concluído quando encontramos a sua voz. E essa pode ser um personagem ou um pensamento. No seu caso, faltava-me dizer-lhe que admiro a sua coragem na tentativa de encontrar o verbo, a voz da literatura, aquele princípio onde tudo começou. O verbo a partir do qual tudo começa a fazer sentido. Descobri isso ao ler Eu Hei-de Amar uma Pedra. Demorei meses a digeri-lo e só lá para a página 300 e tal é que acabei por ouvir a voz do romance. Mais vale tarde que nunca.

Despeço-me não fugindo ao lugar comum mas sincero de lhe desejar rápidas melhoras, que tudo corra bem na perseguição ao verbo e, quando o encontrar… deixe-nos espreitar um bocadinho. Um grande abraço do seu sempre leitor

Artur Guilherme Carvalho.


Artur Carvalho
e-mail de 07.05.2007

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