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«Um escritor não se faz aos trinta»


Janeiro de 2007


António Lobo Antunes passou pela região para apresentar o seu último romance, «Ontem não te vi na Babilónia». Oportunidade para o «OvarNews» o ouvir sobre a sua vida e obra 


Como é que define «Ontem não te vi na Babilónia»?
Se eu pudesse falar dele em cinco minutos, não ia passar dois anos a escrevê-lo. Não é fácil resumir em meia dúzia de palavras aquilo que me levou dois anos de vida a fazer. É um livro que vem na sequência dos outros. Será destinado a ter as habituais controvérsias que, não sei bem por que carga de água, provoco no meu país. Agora, penso que é um livro que tem de ser lido sem qualquer pretensão ou ideia prévia. Eu costumo dizer que um livro é um cofre que tem de ser lido com uma chave e nós temos sempre tendência a abri-lo com a nossa própria chave e a nossa experiência de vida e de leitores, dos nossos sonhos, do nosso passado. E, normalmente, quando um livro é bom, ele traz a sua própria chave e deve ser lido sem ideias pré-concebidas. Não vou resumi-lo porque não é possível. Como todos os livros, ele foi um trabalho que me deu, ao mesmo tempo, algum sofrimento e alguma dificuldade, sobretudo a primeira parte. Na segunda metade, como sempre me acontece, o livro já anda sozinho, sem a minha intervenção, parece que alguém mo está a ditar. E é isto... Eu quando começo um livro, nunca tenho nada na cabeça. Aliás, nos últimos dez livros, não tenho plano, não tenho ideias, nada. Diz-se que um livro é um acto de inspiração, mas não é nada disso.
Uma pessoa escreve um livro porque decide começar um livro, nada mais. A inspiração, por vezes, chega quando nos levantamos da mesa depois de estar um dia inteiro a escrever.
Às vezes questiono-me porque é que passei estes anos todos a escrever e ainda não encontrei resposta. A verdade é que, quando não escrevo, sinto-me desconfortável, como se estivesse vestido sem ter tomado banho.

Quais são as suas maiores referências literárias? O que é que o emociona mais quando lê?
De facto, quando se faz essa pergunta a um escritor, todos têm tendência em responder Cervantes, Tolstoi, por aí fora. É mentira. Eu comecei a escrever por causa do «Mandrake», «Flash Gordon» e dos livros para as crianças que era o que lia quando era miúdo. As pessoas tendem sempre a compor um perfil de intelectual quando na realidade um escritor não começa aos trinta anos, são os livros para crianças que acordam em si o desejo de escrever. Eu não quero escrever «odisseias» nem «Ilíadas», quero escrever livros como os livros que lia quando era criança. Se eu tiver que falar nas grandes referências, terei de falar nessas, porque sem eles nunca escreveria nada. E depois tinha a sorte de ter um pai que gostava muito de livros e tinha uma biblioteca muito grande e eu comecei a ler os livros dele. Aliás, nós éramos muitos irmãos e quando estávamos doentes, ele sentava-se na beira da cama e lia-nos os autores de que gostava. Foi incutindo o gosto da leitura nos filhos. Mas o meu gosto por ler já vinha de trás, dos livros para crianças e das «Selecções do Reader’s Digest» que a minha avó coleccionava. Eu gostava muito porque tinha artigos interessantes, como por exemplo «O nosso amor começou na leprosaria», «Perdi a vista mas ganhei uma fortuna», «Confissões de uma estudante católica». Era o que eu gostava de ler (risos).
Eu nasci na Beira Alta, onde chove muito e quando estava a chover eu não podia sair e então ficava em casa a ler. Foram estes livros que sempre achei interessantes. Sabe, aquilo a que chamam romances, não me interessam muito. O que leio agora é poesia. Como a minha família veio do Brasil, em casa do meu avô só havia livros brasileiros e então lia os autores do Pará: Raul Pompéia, Monteiro Lobato, José de Alencar, Machado de Assis, Aluísio de Azevedo e por aí fora. Fui muito influenciado por eles. Em especial por poetas, como Drummond ou João Cabral de Melo Neto, este último sem antecedentes e sem continuadores, o grande, grande poeta da língua portuguesa do século XX. Ainda conheci, quer um quer outro. Depois com o tempo, é claro, que a gente vai descobrindo outros autores, no meu caso os russos do século XIX, como Tolstoi, e os ingleses e norte-americanos, dos princípios do século XX. Mas sem o Pato Donald ou as Selecções do «Reader’s Digest», eu nunca teria escrito nada. O que eu me pergunto é porque é que os meus irmãos, que tiveram a mesma formação que eu, nunca escreveram nada, felizmente... São pessoas normais, saudáveis e com empregos como deve ser.

E chegou a ser jogador profissional de hóquei em patins…
Sim, eu joguei hóquei em patins no Benfica e ganhava bem. Entre o liceu, os treinos e os jogos, restava-me pouco tempo e isso assustava muito os meus pais. Porque eu, em vez de estudar, ou estava nos treinos e nos jogos ou a ler e a escrever. Para o meu pai e para a minha mãe, isso era muito complicado. E eu adorava aquilo dos campeonatos da Europa, andar com o equipamento da selecção e do Benfica. E para um miúdo de 16 ou 17 anos, isso era muito importante. Os meus pais diziam-me que quando acabasse o hóquei eu ia andar a pedir esmola.
Para os meus colegas do Benfica era muito estranho eu chegar a um estágio com livros. Para eles, que liam o «Record» e «A Bola», era esquisitíssimo. Eles perguntavam-me o que estava a fazer e eu tinha vergonha, porque aquilo de ler e escrever era uma actividade mais ou menos secreta…

A relação do título com as suas obras é uma relação complexa?
Os títulos são sempre uma confusão. É como dar um nome a um filho, não é? Há pessoas que quando começam um livro já têm um título, mas eu quando começo nunca tenho título nenhum. Não sei se vai sair rapaz ou rapariga, imaginemos que dou o nome de Vanessa e depois sai um matulão qualquer… Não sei o que vai sair, não sei como o livro vai ficar e, normalmente, até ao fim do livro não há titulo nenhum. E depois começo a ficar a preocupado à procura dos títulos. Eles acabam por aparecer, mais tarde ou mais cedo. É como na vida. Fazemos planos disto e daquilo, mas a vida encarrega-se de furar os planos tudo e a acaba por ser diferente daquilo que imaginávamos. Quem nunca pensou que ia ser feliz ao lado deste homem ou daquela mulher e ao fim de algum tempo, começamos a dormir num canto da cama na esperança que não nos toquem? Isso já aconteceu com muita gente. E tudo nos irrita, até a maneira de cruzar a perna, ou de atender o telefone ou os tiques verbais que toda a gente tem, e aquilo que para nós era matéria de encantamento, torna-se… só queremos que nos deixem em paz e não nos toquem. Beijos que demorem um segundo parece que nunca mais acabam e os lábios parecem bifes. Isto acontece também com os livros e os títulos aparecem sempre no fim do livro. Bem, nem sempre. Isso não aconteceu num livro chamado «Fado Alexandrino», que foi mais cedo. Nessa altura, o Diniz Machado estava a viver comigo após ter enviuvado, o que foi muito doloroso para ele, e eu e ele estávamos a escrever na mesma mesa para darmos coragem um ao outro. Ele estava a escrever um livro que se chamava «Fado Alexandrino» - o meu não tinha título nenhum. E eu disse-lhe que aquele título ficava bem no meu livro. E ele disse que estava bem e concordou. Os títulos às vezes aparecem de maneira surpreendente e, sobretudo, quando menos se espera.

Então, não há mesmo relação entre título e obra?Existe uma relação, mas não tem nexo lógico, no sentido aristotélico-cartesiano da palavra, há, sim, um nexo afectivo qualquer que por vezes nos escapa. É como tudo na vida. Porque é que eu gosto de A e não gosto de B, porque é que sou amigo desta pessoa e não sou amigo daquela? A amizade, tal como o amor é uma coisa instantânea, absoluta. A gente conhece uma pessoa e de repente até ficamos amigos de infância, seja qual a for altura da nossa vida. Há uma lógica dos afectos e das emoções e que nada tem a ver com a lógica da filosofia que nos ensinaram na escola. É como os livros e os poemas, obedece a um outro tipo de lógica, uma meta-lógica e são máquinas de mover, no fundo. É impossível racionalizar sobre as emoções. Ou melhor, é possível fazê-lo à posteriori: uma pessoa tem esta ou aquela qualidade, mas não é por nada disso que se gosta de outra pessoa. É por algo que nos escapa. Os neurologistas dizem que é por causa dos cheiros, que é algo de inconsciente, como os animais, não sei… Tenho dois irmãos que são neurologistas e tenho lido muito sobre isso. Está provado que nós, humanos, somos atraídos por cheiros que nos são inconscientes, isso é que é o «sex-appeal»… Com os livros, provavelmente, é a mesma coisa, é também uma questão de cheiro.

Porque é que acha que devemos ler o seu último livro?
Eu não acho nada porque não sou propagandista de mim mesmo, não sou caixeiro-viajante. Ler dá muito trabalho e é muito difícil para os portugueses e os meus livros são muito caros para o nosso poder de compra. Há pessoas que se gastarem 20 euros num livro depois ficam aflitas. Os livros são caros. As pessoas perdem muito tempo a irem para o trabalho, a virem do trabalho, depois em casa, o marido, a mulher, filhos, Internet, os jornais, tudo puxa para não lerem. E ao fim-de-semana, têm o centro comercial. Eu não posso deixar de ser grato a quem compra os meus livros. E depois, nunca nenhum governo teve uma política cultural, nunca se ensinou verdadeiramente a ler e mesmo assim eu acho que em Portugal se lê imenso. A quantidade de portugueses que lêem e compram livros é extraordinária para um país como o nosso, a viver como nós vivemos, com a vida miserável que nós temos, com as dificuldades que sobram, os salários que não sobem, os impostos, as preocupações constantes, o quotidiano penoso, enfim. Não acho nada que os portugueses lêem pouco e também não acho nada que os adolescentes lêem pouco. Eu quando vou dar autógrafos, há sempre uma fila enorme e a maioria são miúdos, mas miúdos mesmo, de 16 ou 17 anos, o que me faz ter alguma esperança. Então, era o que faltava dizer para me lerem. É um acto de liberdade ler se se quiser.

Mas será que os portugueses lêem bem, quer dizer, os portugueses lêem em qualidade?
As editoras existem para vender livros, não são entidades de beneficência e muitas vezes têm que sacrificar a qualidade a outros livros de qualidade duvidosa, como por exemplo, o «Kama Sutra: 120 maneiras de levar a mulher ao êxtase» ou as «120 maneiras de levar o homem ao êxtase». Eu acho que basta uma maneira de levar um homem ao êxtase... 120 maneiras matam um homem ou fica tubérculos (risos)… São estes livros que vendem e que as pessoas acabam por comprar. E aqueles livros de auto-ajuda, do tipo «Psicanalise-se a si mesmo», ou então aqueles livros meio esotéricos ou relacionados com a religião, que é um filão que sempre existiu antes do Dan Brown, sempre existiu e sempre existirá, ou então os livros daquelas senhoras que gostavam de fazer amor com campeões de «body-board» nas salas de prova da Zara. A sério. É muito mais fácil ler isto. Se nós em casa tivermos a revista «Caras» ao lado da Bíblia, começamos por ler a «Caras». As pessoas não resistem, gostam de ver a vida dos outros.
Eu tenho três filhas e no início elas não liam. Isso de início não me preocupava, achava que era o percurso delas, nem queriam ouvir falar em escritores, porque eram as pessoas com quem eu me dava. Mas depois começaram a ler por iniciativa delas, livros que eu nem sequer gostava. Eu nem tentei que elas lessem o que eu gostava. Até porque a principal função de um pai e de uma mãe é servir para que eles não gostem de nós. O nosso amor por eles é sempre estável, mas o deles por nós é muito ambivalente e mesmo depois de mortos – o meu pai morreu há dois anos e continua a mudar dentro de mim. O julgamento que um filho faz do pai na adolescência é normalmente pautado por uma crueldade e injustiça enormes. Normalmente, começamos a conhecer melhor os nossos pais quando temos filhos.

Este título - «Ontem não te vi na Babilónia» - dá a sensação de que se está a «meter» com os potenciais leitores…
É engraçado, não tinha pensado nisso. Mas já aconteceu a mim próprio… Havia um grande escritor americano que dizia que lia o primeiro parágrafo e a última linha. Eu, normalmente, faço isso e se me interessa leio o resto. Sabe, mandam-me muitos livros. Acho que não há português que não tenha um manuscrito. E quando me perguntam se acho realmente se devem escrever eu digo sempre sim, porque enquanto escrevem não se drogam. Estão ali sentados, não chateiam a família… Mas o pior é que alguns escrevem mesmo bem. Escrever é barato, o papel e as canetas são baratos…
Mas é verdade, às vezes os títulos apelam. No outro dia comprei uma peça de um dramaturgo americano chamada «A pele dos nossos dentes» e só a comprei porque gostei do título.

O facto de ser licenciado em medicina ajudou-o a escrever da maneira que o faz?
Não, acho que até é uma complicação. Eu nem quis ser médico, porque já havia vários na minha família. Eu queria era ser jogador e trabalhar numa livraria. Mas o meu pai veio com uma conversa que eu ia ser um desgraçado toda a vida e tinha de tirar um curso. E eu respondi-lhe que estava bem mas ia para letras. Ele também não gostou, respondendo que assim estaria condenado a ser professor de Liceu. Lembrei-me de ir para medicina, até porque já havia um esqueleto lá em casa. Mas depois foi horrível, porque a cadeira de anatomia tinha quatro calhamaços e quando os pesei na balança da minha mãe aquilo tinha 5,400 kg e eu recusei-me a meter aquilo tudo na cabeça. Então não ia às aulas, nem aos exames, o que deixava o meu pai e os professores, que eram amigos do meu pai, muito preocupados. Então a minha mãe prometeu que me dava a carta de condução se eu fizesse as cadeiras todas e tirei o curso assim.
Foi difícil porque eu nunca tinha visto ninguém morto. E foi difícil porque eu gostava dos doentes, mas o sofrimento sempre foi incompreensível para mim. Aquelas urgências cheias de doentes apavorados, com os olhos cheios de medo, por quem os médicos passam sem um sorriso, sem um olhar. Nunca me habituei. No estágio, colocaram-me numa pediatria de miúdos com cancros terminais, a quem se calavam os gritos com injecções de morfina. Tornei-me amigo de um miúdo com leucemia terminal, o José Francisco. A maneira como as crianças encaram a morte é extraordinária, porque elas sabem que vão morrer. E um dia o José Francisco morreu. Veio o empregado da morgue, embrulhou-o num pano e levou-o. Eu estava na enfermaria, ao fundo, e vi o empregado a afastar-se com a criança ao colo e um pé do José Francisco sobrava e baloiçava à medida que ele se afastava. Esse pé nunca me abandonou até hoje, eu tinha 22 anos, e muitas vezes penso que é para esse pé que escrevo.


citado do sítio OvarNews
não datado

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