Avançar para o conteúdo principal

Le Monde Diplomatique (Brasil): sobre Exortação Aos Crocodilos


Um romance sobre a revolução portuguesa

Quando o Prêmio Nobel de Literatura foi atribuído a José Saramago, algumas vozes levantaram-se para lamentar que o júri não tivesse preferido Antonio Lobo Antunes. Sem querer entrar numa polêmica inútil, dada a dificuldade de comparar os méritos dos dois autores, diríamos que seu Exortação aos crocodilos prova mais uma vez que ele é um grande escritor, um daqueles que os séculos contam nos dedos das mãos. O romance é composto de um coro a quatro vozes que intervêm sucessivamente oito vezes, um pouco sob a forma de um padrão: trinta e dois capítulos de uma extraordinária profusão de imagens poéticas, sustentadas por uma escrita de extrema tensão — falou-se a seu respeito de um estilo modelado pelo de Céline  — e por uma construção de impecável rigor, que evoca para o leitor lembranças da música barroca e da pintura cubista.

Emília (que todos chamam de "Mimi" e que é surda), Fátima (afilhada de um bispo lascivo), Celina (preocupada com os primeiros estragos do tempo em sua beleza congelada) e Simone (obesa, mas gostaria de se chamar Cintia) recitam, uma de cada vez, monólogos sobre seus pais, sua juventude perdida, seus maridos, seus amantes, suas preocupações, seus sonhos e lembranças, a morte que as oprime cada vez de mais perto. A própria morte e a morte dos outros, esses comunistas e democratas que seus homens decidiram exterminar acreditando fazer desaparecer a Revolução dos Cravos graças a sua miserável conspiração apoiada por militares espanhóis (Franco ainda estava vivo), pelo embaixador americano e por agentes secretos da África do Sul (Mandela ainda estava preso).

 

Sensível, mas empolgante como um thriller


Esta conjuração realmente existiu, agrupada em torno do general Spínola, e realmente custou a vida de comunistas, democratas e do primeiro ministro Sá Carneiro. A genialidade de Lobo Antunes é falar dela apenas indiretamente, através do envolvimento mais ou menos definido dessas quatro mulheres. Essa mistura de emoções íntimas, de delírios oníricos, de reflexões irônicas ou desiludidas e de cenas de massacres, de torturas e de atentados, coloca de uma forma inteiramente nova uma das questões mais antigas que a humanidade enfrenta: o mal. Nenhuma resposta é proposta, muito menos uma "compreensão" qualquer.

O romance é também um espantoso thriller. Pouco a pouco acreditamos entrever, por meio das lembranças das narradoras, em que trauma profundo se insere a anomia que lhes permite não apenas tolerar como participar de todos esses crimes. As quatro pertencem a uma outra época, à de um Portugal paralisado no passado, aterrorizado pela Igreja e seu inferno prometido às almas pecadoras, povoado de famílias de camponeses e comerciantes destruídas por incestos, tudo isso adormecido sob um regime político ditatorial. Tendo como exemplo os homens a sua volta, as quatro estão profundamente desajustadas à modernidade que acaba de irromper, ao mesmo tempo que os militares revolucionários voltam da África em um certo 25 de abril, o que, evidentemente não justifica nada.

Seja como for, não se sai ileso desta leitura: é próprio da arte impor-se ao mesmo tempo como fonte de admiração, reflexão e emoções intrincadamente emaranhadas.


artigo citado do site
Março de 2000

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia
– Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar
mas muito pouco tempo antes de morrer veio ter comigo e passámos a tarde juntos, sentados lado a lado no sofá. Foi ele quem falou quase sempre, eu pouco abri a boca.
Mostrou-me os braços, o corpo
– Estou miserável
sabia que ia morrer dali a nada e comportou-se com a extraordinária coragem do costume. Coragem, dignidade e pudor. A certa altura
– Para onde queres ir quando morreres?
respondi
– Para os Jerónimos, naturalmente.
Ficou uns minutos calado e depois
– Tu acreditas na eternidade.
Disse-lhe
– Tu também.
Novo silêncio.
– Eu quero ser cremado e que ponham as cinzas na serra, voltado para a Praia das Maçãs.
Novo silêncio. A seguir
– Vou morrer primeiro que tu. Vou morrer agora.
Mais silêncio. Eu
– Ganhei-te outra vez.
ele
– É.
Ele
Ganhamos sempre os dois.
Eu
– Porque é que a gente gosta tanto um do outro?
Ele silêncio antes de
– Se me voltas a falar de amo…

Bia Couto sobre Da Natureza Dos Deuses

Da natureza humana e das suas misérias. Uma leitura das nossas vidas tão desencantada e triste que impressiona.
A vida dos ricos e a vida dos pobres. Em comum, as mesmas angústias e a falta de alegria. Tudo cru, com as cores que se vêem nos talhos. Ninguém é feliz.
No mundo dos ricos, que tudo podem comprar, incluindo homens e mulheres que os servem submissos ou com a astúcia de lhes sacar o máximo possível, falta-lhes ter paz. Não têm. Tentam ajustar contas com o passado mas nunca as acertam porque não dominam a ganância que sentem nem as memórias que lhes criaram essa dureza implacável.
Nos pobres, a mesma miséria. As mulheres novas, ambiciosas, a desperdiçarem a exuberância e a energia dos vinte anos com velhos com dinheiro, a troco de uns fios, sapatos, brincos, vestidos, jantares e carros que lhes podem ser retirados em qualquer altura, porque eles fazem questão de lhes mostrar quem é que manda. Tudo se passa com a bênção dos pais e restante família, aproveitando também eles alg…

Público: «Cartas da Guerra: um filme que se ergue»

Cartas da Guerra, de Ivo Ferrreira, que tem hoje a antestreia antes de chegar às salas a 1 de Setembro, aventura-se a procurar um corpo, para a personagem António e para si próprio, que esteja num lugar que não aquele a que parecia destinado. Delicado e temerário, cria o seu mundo.

Uma “cena original” luminosa: o realizador Ivo M. Ferreira a entrar em casa de madrugada – como contou -, avançando para o quarto, guiado pela voz da mulher grávida, a actriz Margarida Vila-Nova, que lia à sua barriga uma carta. A futura mãe tinha em mãos as páginas de uma das missivas de D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra, o volume que em 2005 juntou as cartas escritas pelo alferes médico António Lobo Antunes, de 28 anos e destacado logo após a conclusão do curso de Medicina para uma comissão de serviço em Angola (1971-1973), à mulher grávida que deixara em Lisboa, Maria José.
Mesmo correndo o risco de a “cena” se imobilizar como cliché à força de tanto ser “vista” (mas é belíssima, …