Avançar para o conteúdo principal

Fernando Mendonça: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 125/126 de Julho de 1992 – pp. 296 e 297

O veio da paródia e a sua mais utilizada vertente, a carnavalização, têm ocupado páginas episódicas na literatura portuguesa, geralmente para sublinhar tipos ou lugares de um universo social em que a burguesia, decadente ou ascendente, confessa até onde pode ir a vacuidade das relações humanas. No século passado, Eça parodiou as instituições românticas, e as críticas de Camilo foram o paraíso do sarcasmo. Em tempos mais recentes, podemos seleccionar uma meia dúzia de bem sucedidas realizações, voltadas para obras e figuras que, por razões justas ou injustas, se tornaram alvos favoritos da sátira. Tudo isso, porém, nunca se apresentou como um projecto global de produção.

Mas agora estamos diante de um livro que utiliza, como procedimento incansável de produção, a paródia: trata-se do romance de António Lobo Antunes Tratado das Paixões da Alma.

É conveniente esclarecer que, quando se fala aqui de paródia, é no remoto significado grego da palavra – canto ou discurso paralelo a outro. No caso do romance de Lobo Antunes, assinalamos, além do exercício da paródia, o da sua sofisticada escrava, a carnavalização. A paródia e a carnavalização interpenetram-se ali, porque os acontecimentos parodiados, transpostos de maneira ridícula ou grotesca, utilizam a linguagem paralela que materializa a degradação. Não são só as coisas que constituem a paródia, mas o modo como as coisas se constituem. E assim se vai da paródia à carnavalização. Exemplificando, a partir do título, pode-se dizer que as «paixões da alma», narradas no livro, se mostram fielmente especulares do seu modelo, mas o modo como se exercitam (ou descrevem) é exemplarmente caricatural. No traço caricatural se espelha, com justeza, a realidade do mundo circunstante. Mas o que é que se parodia e carnavaliza neste romance de Lobo Antunes? Faça-se um breve resumo do que acontece no livro.

Num tempo recentíssimo, o Estado precisa de capturar um grupo de terrorista que vinha praticando atentados contra alvos e personalidades importantes. Um dos componentes do grupo é preso e um Juiz de Instrução é escolhido (a dedo) para conduzir o interrogatório do prisioneiro. Acontece que os dois foram amigos de infância e praticamente criados juntos. A partir desta relação Juiz de Instrução/Homem (terrorista) se instaura o universo romanesco, com os protagonistas e os acontecimentos surgindo das reminiscências que inevitavelmente os dois acordam durante os interrogatórios. A infância, a adolescência, a idade adulta se recriam com os seus conflitos, as suas paixões que, agora, aos poucos, vão de novo imperceptivelmente aproximando as duas personagens.

O tempo da acção é breve, mas as ramificações da mesma se tornam múltiplas e complexas, o discurso narrativo flui num movimento pendular constante entre o passado e o presente, produzindo uma narrativa fracturada mas tranquila, apesar das refracções bruscas que obrigam a uma leitura extremamente atenta e memorizada. Nesse ritmo apropriado da leitura jamais se perde o fio da meada e, no momento exacto, tudo se vai revelando e encaixando – os factos, as pessoas, os nomes. Salvo melhor juízo, é uma das mais complexas estruturas narrativas que o romance português produziu nos últimos tempos, mas é igualmente uma das mais sedutoras leituras que um texto moderno nos pode propor. E, apesar da sua modernidade, é um romance que se lê à velha maneira (leitura aliás a que todos os romances aspiram mas nem sempre conseguem), isto é, quando o leitor subitamente se enreda no texto, como se dele participasse, assim se instalando como narratário obrigatório.

Tem-se falado aqui de paródia e carnavalização como principal carpintaria deste romance. Seria interessante dar alguns exemplos dessa prática, ao mesmo tempo cómica e documental. Dois momentos do livro seriam suficientes: quando os terroristas decidem atacar a sede da Polícia Judiciária; quando a Polícia Judiciária resolve atacar os terroristas. A imitação da realidade é insuperavelmente cómica, pelo ridículo e incompetência dos terroristas, dos seus gestos, do seu linguajar, o mesmo acontecendo com os agentes e a tropa que organizam o cerco aos terroristas – a melhor maneira de carnavalizar o cerco foi fazer acreditar aos populares presentes que se tratava de um filme.

Para se dar uma ideia aproximada do que é este romance de Lobo Antunes seria preciso um espaço bem maior do que aquele de que aqui naturalmente se dispõe. É um romance no qual o tempo da narrativa é longo e abrangente, e, se a acção é breve, como se disse atrás, as recorrências onde se instalam todos os intervenientes que, de uma forma ou de outra, fala da história recente (e menos recente) da vida portuguesa, as recorrências, repita-se, são a máquina que produz o universo fundamentalmente inquisitivo do romance.

Sim. Não é só o Homem (terrorista) que é interrogado. É a vida, com as suas paixões, rudimentares ou complexas, que se interroga e questiona. A lição final é a mesma para o Juiz e para o terrorista: ambos serão assassinados pelos órgãos de segurança.

Não é a primeira vez que o Autor se arroga o direito da paródia, mas nunca ela foi tão intensa nem tão relevante a carnavalização como neste Tratado das Paixões da Alma. Mas há algo ainda que é preciso dizer e com certa urgência. António Lobo Antunes acena-nos, neste romance, com uma conclusão, à qual chegamos sem muita dificuldade. Por detrás do rosto da paródia e do seu corolário, desvela-se um outro que não é caricaturável, antes carrega nos olhos e na boca uma notícia tão aforística quanto desoladora, e isso ao longo das centenas de páginas do livro: que quanto mais as coisas mudam, mais são a mesma coisa.


Fernando Mendonça
Colóquio Letras 125/126
Fundação Calouste Gulbenkian
Julho de 1992

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia
– Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar
mas muito pouco tempo antes de morrer veio ter comigo e passámos a tarde juntos, sentados lado a lado no sofá. Foi ele quem falou quase sempre, eu pouco abri a boca.
Mostrou-me os braços, o corpo
– Estou miserável
sabia que ia morrer dali a nada e comportou-se com a extraordinária coragem do costume. Coragem, dignidade e pudor. A certa altura
– Para onde queres ir quando morreres?
respondi
– Para os Jerónimos, naturalmente.
Ficou uns minutos calado e depois
– Tu acreditas na eternidade.
Disse-lhe
– Tu também.
Novo silêncio.
– Eu quero ser cremado e que ponham as cinzas na serra, voltado para a Praia das Maçãs.
Novo silêncio. A seguir
– Vou morrer primeiro que tu. Vou morrer agora.
Mais silêncio. Eu
– Ganhei-te outra vez.
ele
– É.
Ele
Ganhamos sempre os dois.
Eu
– Porque é que a gente gosta tanto um do outro?
Ele silêncio antes de
– Se me voltas a falar de amo…

«Até que as pedras se tornem mais leves que a água»

O meu trabalho é escrever até que as pedras se tornem mais leves que a água. Não são romances o que faço, não conto histórias, não pretendo entreter, nem ser divertido, nem ser interessante: só quero que as pedras se tornem mais leves que a água. Em pequeno, à noite, no verão, de luz apagada, ouvia o mar na cama: a mesma onda sempre, ainda hoje a mesma onda a trazer a praia e a levar a praia e, ao levar a praia, eu suspenso do nada sem tocar nos lençóis. A cómoda do quarto estalava de vez em quando, perto do vidro da janela um pinheiro sem fim. Durante o dia tornava-se outra árvore mas conhecia melhor a do escuro, que me interrogava, interrogava
– Tu
até a primeira nuvem cor de laranja do nascimento do dia lhe selar os lábios. Nenhum melro ainda, nem um passo lá fora, o mundo desabitado de gente, o primeiro cão daqui a nada, rente ao muro, a tossir, com um fio de saliva pendurado do queixo. Um desses pobres cães que comem restos de bichos mortos, coçam uma orelha com a pata, vão-se em…

Bia Couto sobre Da Natureza Dos Deuses

Da natureza humana e das suas misérias. Uma leitura das nossas vidas tão desencantada e triste que impressiona.
A vida dos ricos e a vida dos pobres. Em comum, as mesmas angústias e a falta de alegria. Tudo cru, com as cores que se vêem nos talhos. Ninguém é feliz.
No mundo dos ricos, que tudo podem comprar, incluindo homens e mulheres que os servem submissos ou com a astúcia de lhes sacar o máximo possível, falta-lhes ter paz. Não têm. Tentam ajustar contas com o passado mas nunca as acertam porque não dominam a ganância que sentem nem as memórias que lhes criaram essa dureza implacável.
Nos pobres, a mesma miséria. As mulheres novas, ambiciosas, a desperdiçarem a exuberância e a energia dos vinte anos com velhos com dinheiro, a troco de uns fios, sapatos, brincos, vestidos, jantares e carros que lhes podem ser retirados em qualquer altura, porque eles fazem questão de lhes mostrar quem é que manda. Tudo se passa com a bênção dos pais e restante família, aproveitando também eles alg…