Avançar para o conteúdo principal

almaro: opinião sobre Ontem Não Te Vi Em Babilónia


Curiosamente (e ironicamente, uma vez que são autores que nutrem antipatias mutuas) a empatia para com António Lobo Antunes foi idêntica com a que tive com Saramago. O primeiro livro que me ofereceram de Saramago foi o “Ano da Morte de Ricardo Reis”, […]. Não o consegui ler, julgo que na altura não passei da primeira página, e quando assim é, quando me arrasto nas letras, perdido nas frases, esqueço o livro […]. Lembro-me que na altura o coloquei na prateleira, algures junto aos livros não prioritários, que para se ler um livro é preciso afinidade, e na altura não estava afim. Não me recordo como o livro saiu da prateleira e viajou para a mala de trabalho, que nessa altura viajava muito. Fiquei de tal maneira preso às páginas de Saramago que dei comigo a ter pena de as virar e ficava a saboreá-las como quem degusta um vinho do Porto velho de xistos e de sol. Com António Lobo Antunes o processo foi idêntico, mas levou mais tempo a entrar no seu universo literário, culpa minha que tentei ler livros da sua ultima fase ( que farei quando tudo arde?) sem passar pelas notáveis fases intermédias.

“Ontem não te vi em Babilónia” acaba por ter sido o primeiro livro que li desta sua última fase, (que segundo o próprio deveria ter sido única), por inteiro, com o prazer de ler e de me deixar ir no movimento da caneta e da insónia relatada a várias vozes, com diversos sentires.

Na verdade não é um romance, ou melhor, não é um romance na sua forma tradicional de contar uma história e essa história ter personagens que a vivem. Neste livro o processo foi ao contrário, é o livro que cria as personagens. O livro é na verdade o cenário (protagonista) principal, que se escreve na noite e que vive na noite. As personagens escrevem-se, as personagens são a ponta da caneta, a insónia é a do autor, que provavelmente incomodado com o latir de cães desacordou no livro, a na necessidade do livro. Uma insónia (sabe quem a já teve), alonga o tempo, tudo se arrasta numa lentidão como quem gira á volta de um vazio. “Ontem não te vi na Babilónia” gira à volta de uma criança que se pendura em corda de enforcado numa macieira e deixa em repouso (caída, morta) uma boneca na relva, que a mãe corta doentiamente. As personagens têm o ritmo, a insónia permite e repetem-se numa lengalenga que nos envolve (vezes, em angustia) de tal forma que sentimos o tempo nas páginas que se lêem com o prazer de descobrir o António e a sua mestria de traçar imagens literárias únicas. O livro nasce já com morte anunciada (que sabemos no fim que anunciada hora e tudo).

(cinco da manhã e acabou-se, a única coisa que me dizem é que: cinco da manhã e acabou-se sem que eu compreenda o que se acabou, contem-me, cinco da manhã e então, no caso de não precisarem de mim, posso dormir, não posso?)

desabafa a personagem…

Sabe-se que é um livro que só tem uma noite, e as personagens também o sabem e apressam-se a partir das quatro da manhã (aliás, o capitulo mais conseguido do livro-romance) a acelerar a sua própria escrita. É um livro que se constrói, como se as personagens escorregassem na tinta e tomassem forma (como fantasmas das páginas).

-Não se vai embora você?
impaciente comigo, o seu livro quase no fim visto que dia, guarde os papéis, a caneta e levante as sobrancelhas da mesa onde desenha as letras torcido na cadeira, quatro da manhã graças a Deus, quase cinco, acabou-se, na janela diante da sua uma senhora numa cadeira de baloiço que há-de cobri-lo com o xaile, você não imaginando que a morte uma pessoa real, sem mistério a defender-se do frio, o seu nome
- António
ao mesmo, tempo que um barulhinho no vestíbulo, cochichos que o procuram na casa, espreitam o corredor, não o acham, os homens de casaco e gravata junto a si e um martelo, uma pistola, uma lâmina
(quatro horas da manhã graças a Deus, quase cinco)
e não tem importância visto que o seu livro no fim, tantos meses para chegar aqui e duvidando se chegaria de maneira que alegre-se, olhe a janela onde a senhora da cadeira de baloiço
-António

O António (o Antunes, o Próprio) revela-se aqui e ali, como maestro, obrigando as personagens a escrever, aparecendo várias vezes no auge da insónia “(continua a escrever)“ como que obrigando-se à escravatura da escrita, esquecendo-se por vezes que é ele e não a personagem que escreve, relevando ao leitor o seu processo criativo, a forma como experimenta as palavras, como lhes tira o som e a imagem, como as apaga, ou como escrevendo com a pressa de não deixar fugir uma ideia que se sobrepôs à cena, a sobrepõe para não se esquecer dela, para mais tarde a rever e a colocar em sitio certo. Sitio esse que acaba por não ser encontrado ficando tudo como está, para gozo do autor e nosso, que entendemos o seu divertimento e damos connosco a sorrir e a pensar no silêncio (grande sacana, a gozar comigo!)

Há momentos, palavra de honra, não se compreende o motivo mas pesa, sente-se dentro o
(ia escrever incómodo e não incómodo conforme não incómodo conforme não tristeza, não dor, como se traduz isto, não sei)
deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito e há momentos palavra de honra que pesa

De tudo ficou-me gravada a imagem do silêncio, escrita desta forma que só Lobo Antunes consegue:

Isto porque no outono ninguém consegue dormir, vamo-nos tornando amarelos da cor do mundo que principia em setembro debaixo do mundo vermelho, o silêncio deixa de afirmar, escuta, demora-se nos objectos insignificantes, não em arcas e armários, em bibelots, cofrezinhos, não somos a gente a ouvi-lo, é ele a ouvir-nos a nós, esconde-se na nossa mão que se fecha, numa dobra de tecido, nas gavetas onde nada cabe salvo alfinetes, botões, pensamos
- Vou tirar o silêncio dali
e ao abrir as gavetas o outono no lugar do silêncio e o amarelo a tingir-nos, as janelas soltas da fachada vão tombar e não tombam, deslizam um centímetro ou dois e permanecem, na rua os gestos distraídos da noite transformam-se num fragmento de muralha ou na doente que faleceu hoje no hospital abraçada à irmã de chapelinho de pena quebrada na cabeça, estremeceram em uníssono, a cama ou uma garganta um som qualquer
(como descrevê-lo?)

por almaro
23.11.2006

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia
– Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar
mas muito pouco tempo antes de morrer veio ter comigo e passámos a tarde juntos, sentados lado a lado no sofá. Foi ele quem falou quase sempre, eu pouco abri a boca.
Mostrou-me os braços, o corpo
– Estou miserável
sabia que ia morrer dali a nada e comportou-se com a extraordinária coragem do costume. Coragem, dignidade e pudor. A certa altura
– Para onde queres ir quando morreres?
respondi
– Para os Jerónimos, naturalmente.
Ficou uns minutos calado e depois
– Tu acreditas na eternidade.
Disse-lhe
– Tu também.
Novo silêncio.
– Eu quero ser cremado e que ponham as cinzas na serra, voltado para a Praia das Maçãs.
Novo silêncio. A seguir
– Vou morrer primeiro que tu. Vou morrer agora.
Mais silêncio. Eu
– Ganhei-te outra vez.
ele
– É.
Ele
Ganhamos sempre os dois.
Eu
– Porque é que a gente gosta tanto um do outro?
Ele silêncio antes de
– Se me voltas a falar de amo…

Público: «Cartas da Guerra: um filme que se ergue»

Cartas da Guerra, de Ivo Ferrreira, que tem hoje a antestreia antes de chegar às salas a 1 de Setembro, aventura-se a procurar um corpo, para a personagem António e para si próprio, que esteja num lugar que não aquele a que parecia destinado. Delicado e temerário, cria o seu mundo.

Uma “cena original” luminosa: o realizador Ivo M. Ferreira a entrar em casa de madrugada – como contou -, avançando para o quarto, guiado pela voz da mulher grávida, a actriz Margarida Vila-Nova, que lia à sua barriga uma carta. A futura mãe tinha em mãos as páginas de uma das missivas de D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra, o volume que em 2005 juntou as cartas escritas pelo alferes médico António Lobo Antunes, de 28 anos e destacado logo após a conclusão do curso de Medicina para uma comissão de serviço em Angola (1971-1973), à mulher grávida que deixara em Lisboa, Maria José.
Mesmo correndo o risco de a “cena” se imobilizar como cliché à força de tanto ser “vista” (mas é belíssima, …

Bia Couto sobre Da Natureza Dos Deuses

Da natureza humana e das suas misérias. Uma leitura das nossas vidas tão desencantada e triste que impressiona.
A vida dos ricos e a vida dos pobres. Em comum, as mesmas angústias e a falta de alegria. Tudo cru, com as cores que se vêem nos talhos. Ninguém é feliz.
No mundo dos ricos, que tudo podem comprar, incluindo homens e mulheres que os servem submissos ou com a astúcia de lhes sacar o máximo possível, falta-lhes ter paz. Não têm. Tentam ajustar contas com o passado mas nunca as acertam porque não dominam a ganância que sentem nem as memórias que lhes criaram essa dureza implacável.
Nos pobres, a mesma miséria. As mulheres novas, ambiciosas, a desperdiçarem a exuberância e a energia dos vinte anos com velhos com dinheiro, a troco de uns fios, sapatos, brincos, vestidos, jantares e carros que lhes podem ser retirados em qualquer altura, porque eles fazem questão de lhes mostrar quem é que manda. Tudo se passa com a bênção dos pais e restante família, aproveitando também eles alg…