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José Romero P. Seguín: Impressões sobre o romance «El Resplandor de Portugal»


Ler o romance de António Lobo Antunes, "O Esplendor de Portugal", é como ler espelhos inquietos. Mas não num lugar asséptico, cómodo e decente para tão plácida tarefa, mas sim lê-los de pé ou de cócoras lá onde eles apodrecem já esquecidos e também lá onde mal vivem não menos esquecidos.

Luanda e Lisboa, Lisboa e Luanda, África e Europa definitivamente, malditas ambas na sombria e decadente imagem da memória ao menor fulgor de esperança. Assim são as personagens. Sente-se que as imagens entram e saem em si confundidas como na forja do espelho corrompido as silhuetas que não sabem onde começa a sombra que são e a sombra que foram. Para ir dotando de sentido o que não tem sentido, das vidas derrotadas para lá da culpa. Vidas atadas a um esplendor urdido sobre a miséria dos outros e como tal miserável.

África ofereceu-lhes para além da ambiciosa oportunidade de medrar economicamente, a possibilidade de serem um grotesco arremedo desse estatuto de dignidade que na orgulhosa e decrépita Europa lhes era negado. Procuravam, e assim o exprimem, em África, algo mais que riqueza, a estima social, a necessária reafirmação pessoal da sua singular condição, e um dia descobrem nos fracos e humilhados olhos dos negros que os servem e que não são senão os negros dos brancos filhos da metrópole. E o que é mais terrível, é que em tão pobre viagem tenham dilapidado não só as suas vidas como também a de milhares de homens. Mas como compreendê-lo, simplesmente não podem permitir-se a tal, devem-se à legítima vontade de sobreviver, e que melhor para eles que viver através da memória para recordar sem outra culpa que a de não permitir nunca que a imagem os mostre terríveis e completos no espelho de sua alma.

Os povos derrotam-se homem a homem, e uma vez derrotados, tudo quanto nasce das suas mãos é feito sob este terrível desígnio, até que homem a homem se levantam como povo, para um esplendor fugaz mas capaz de dotá-los da dignidade que como povo merecem. A colonização junto com a ditadura sufocou e derrotou Portugal, a revolução dos cravos elevou-o à mais digna das vitórias. Essa é uma flor oculta que Antunes não define, mas sobre a qual cimenta a magnífica catedral dos seus sonhos.


por José Romero P. Seguín, escritor
enviado por e-mail em 29.08.2006
[traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos]

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