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Patrícia Camargo disserta sobre O Manual dos Inquisidores


Ascensão e queda: a questão da traição na obra O Manual dos Inquisidores de António Lobo Antunes

"O autor é o que dá à inquietante linguagem da ficção, as suas unidades, os seus nós de coerência, a sua inserção no real".
(Michel Foucault, A ordem do discurso, 1999) 1


O significado do texto literário é algo construído ou produzido, em um processo de interação entre duas partes: o texto e o leitor. O papel do leitor é seguir as instruções ou orientações do texto e produzir o seu sentido que não representa algo, mas possui o caráter do acontecimento. O leitor percebe o texto de uma maneira global. A experiência da leitura não se dá apenas pelo texto em si, nem só pela subjetividade do leitor. Trata-se da junção destes dois fatores, o que inicia o processo de construção de sentido, no texto. Segundo Barthes(apud COMPAGNON, 1996), o leitor deveria encarar o ato da leitura como uma investigação, uma busca por pistas para desvendar o texto, já Iser(apud COMPAGNON, 1996) procura pensar a leitura como uma viagem, ou seja, cada nova leitura possibilita o leitor verificar novos detalhes até então despercebidos, pois a cada viagem podemos mudar nosso modo de construir nossa visão sobre o objeto estético.

Tendo em mente as abordagens teóricas acima citadas, podemos notar que os procedimentos de escrita utilizados por António Lobo Antunes apontam para uma estrutura fragmentada, estilhaçada, numa construção de base contemporânea, possibilitando assim uma grande gama de leituras, pois o autor procura construir seus personagens em estado de relato, por meio de representações mnemônicas dos discursos, articulados como texto, com a finalidade de interrogar/denunciar a ficções públicas portuguesas.

Nesse sentido, o tema central dessa obra aponta para a questão do poder, seja a manutenção do poder, o desejo de poder, todas as nuances referentes à microfísica do poder, sempre numa dupla perspectiva: no plano das questões "emocionais" das personagens, bem como, no plano da retrospectiva histórica portuguesa (denúncia das ficções públicas construídas no período ditatorial do salazarismo).

Os personagens ao longo da trama procuram relatar suas imagens mentais rememorando o tempo passado e mesclando os vários momentos de suas vidas, tanto em relação aos momentos de ascensão como os de queda em relação ao poder, criando assim imagens sobrepostas que formam uma estrutura caledoscópica. Nessa teia de discursos que ao longo da trama se adensam cada vez mais, podemos elaborar um número vasto de análises partindo dos relatos de qualquer um desses personagens. Uma possível leitura da obra é aquela que se refere à questão da traição ao poder, ficando bastante evidenciada em relação aos relatos referentes à personagem Isabel e dos relatos que fazem referencia ao caso do General Humberto Delgado.

Na perspectiva da denúncia da ficção pública do período ditatorial salazarista, Lobo Antunes articula os discursos das personagens sempre com um olhar retrospectivo sobre os acontecimentos históricos entrelaçados em suas próprias memórias afetivas. Logo, o caso ocorrido com o General Humberto Delgado é apresentado ao leitor por meio de um jogo entre elementos do real (fatos históricos) e uma construção ficcional, ou seja, através do relato do personagem Tomás, o motorista do ministro Francisco, que indagado por um suposto "interrogador", conta como esse episódio ocorreu.

De início Tomás se coloca numa postura de desconfiança procurando levar seus relatos para fatos mais corriqueiros, demonstrando o profundo medo de falar sobre questões políticas, que ainda pairava em Portugal, tempos depois da derrocada do governo salazarista. Mas o desejo de expurgar as dores sobre o fato ocorrido leva o personagem a narrar todo o horror promovido contra Humberto Delgado naquela noite fatídica.

Observa-se que Lobo Antunes ao criar esse jogo entre ficção e história, aborda um ponto crucial quando se pensa nas relações de poder, a questão do respeito ao poder, e a falta dele sendo encarada como traição. É notório que o General Humberto Delgado numa famosa entrevista realizada em maio de 1958 no café Chave de Ouro, quando lhe foi perguntado que postura tomaria face ao primeiro-ministro (Presidente do Conselho dos Ministros) António de Oliveira Salazar, respondeu com a célebre frase "Obviamente, demito-o", logo, esta frase incendiou os espíritos dos agitadores comunistas de então que o apoiaram e o aclamaram durante a campanha.

Salazar viu na pessoa de Humberto Delgado uma ameaça ao regime ditatorial, e com o caso do paquete "Santa Maria", que chamou a atenção do mundo para os problemas da ditadura portuguesa, Delgado enfureceu ainda mais o primeiro-ministro que primava por lançar mão de que a pátria portuguesa era um império do Minho ao Timor, buscando assim inculcar na mente do povo português ideias que não correspondiam à realidade por eles vivenciada.

Para Salazar, o ato de descredenciar os valores por ele estabelecido na sociedade portuguesa de então, realizado por Humberto Delgado, era algo encarado como uma traição máxima, pois não só primava por causar uma ameaça ao poder, mas também por desqualificar a pátria, uma humilhação ímpar, para um ditador que tinha no discurso de império sua máxima. Sendo assim, Delgado representava uma ameaça a ser extirpada, pois desmistificou os valores falidos do governo, causando na figura de Salazar uma profunda humilhação frente ao mundo. Logo, a sentença de morte veio apenas concretizar algo que já era de se esperar. Na narrativa, especificamente no XXIII relato, o da personagem Milá, há a descrição de um encontro entre o ministro Francisco e Salazar, onde os dois tramam o que fazer com o General Delgado:

major de torrada na mão, que mal o senhor ministro se afastou a combinar com o professor
Salazar o destino do general
(- Mata-se prende-se mata-se é melhor matar-se mata-se)
 2

Na maioria dos casos, das traições políticas, a punição para o traidor é a morte, não foi diferente no caso de Humberto Delgado, em fevereiro de 1965, na fronteira espanhola em Villanueva del Fresno, o general foi executado em uma emboscada a mando de Salazar. Porém, esse foi um momento decisivo para a derrocada do governo ditatorial português.

No transcorrer da trama de Lobo Antunes, vem à tona uma outra história de traição, no caso a traição conjugal da personagem Isabel em relação ao ministro Francisco. O leitor tem contato com os fatos ocorridos através das vozes de vários personagens que de alguma forma entraram em contato com esse caso de traição conjugal. E podemos observar como essas duas traições guardam muitas coisas em comum.

Em relação à traição executada pela personagem Isabel, temos de um lado a presença obscura da imagem da mãe nos relatos do personagem João, já que ela o abandou ainda muito pequeno, de outro vemos o discurso da governanta Titina que observava a questão de uma outra ótica, pois presenciou o transcorrer dos acontecimentos com uma certa proximidade. Porém, é preciso levar em consideração que Titina tinha uma motivação amorosa para com Francisco, logo, suas observações sobre Isabel deixam transparecer essas emoções, não são palavras de modo algum inocentes, esses relatos estão contaminados pelos desejos de Titina, ou seja, é a visão da personagem sobre o assunto.
No relato X, do veterinário Luís, há algumas pistas esclarecedoras sobre a questão da humilhação pela qual Francisco passou depois da traição de Isabel, vejamos:

E ainda que os matasse a todos os desenhos e as palavras lá estavam a gritarem de troça furando a camada de cal
O MINISTRO É CORNUDO
E como é que se faz para apagar a humilhação, o ultraje, 
(...) proibiu todos de conversarem fosse com quem fosse. 3
 
Para uma pessoa importante, um ministro do governo, amigo próximo do primeiro-ministro Salazar, passar por uma humilhação desse porte era algo extremo. Se no momento em que casou com Isabel, Francisco julgou estar vivendo seu momento de apogeu, tendo um cargo de confiança junto ao governo, uma família feliz, uma quinta bem cuidada, ou seja, um prenúncio de uma vida cada vez mais próspera e bem sucedida, com a traição de Isabel sua derrocada começa a se delinear. Tanto assim, que é justamente a partir desse momento que Francisco começa a exercer toda sua tirania em relação aos seus subordinados (os constantes abusos sexuais da empregada e a da filha do caseiro, por exemplo, sempre permeados da frase: "Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu para que saiba quem é o patrão" 4) sugere a forte necessidade de auto-afirmação por parte do personagem.

Na tentativa de sanar a dor da ausência da esposa, Francisco tenta criar uma "outra" Isabel através de Milá, e a moça por uma questão financeira se vê obrigada a ficar subordinada aos caprichos do ministro. Milá segue num processo de despersonalização, de perda de identidade, pois Francisco procurava estabelecer um sistema de manutenção do poder, obrigando a moça a vestir-se e agir tal qual Isabel. Quanto a essas formas de organização do poder, Michel Foucault nos diz:

Mas quando penso na mecânica do poder, penso em sua forma capilar de existir, no ponto em que o poder encontra o nível dos indivíduos, atinge seus corpos, vem se inserir em seus gestos, suas atitudes, seus discursos, sua aprendizagem, sua vida quotidiana. 5

Nessa luta pela manutenção do poder Francisco não poupou esforços, ocorre que a vergonha e a humilhação acarretada pela traição fizeram com que ele partisse em uma luta incessante por encontrar Isabel, a fim de entender o motivo da traição. Observamos que ao encontrar a esposa vivendo em uma condição social bem inferior aquela proporcionada por ele, Francisco se desespera, pois não entende os reais motivos daquela situação. Ele só consegue pensar que ela jamais o amou, e que foi um amor por outro homem que a fez se sujeitar àquela situação.

Esse caso só fica de fato esclarecido no relato de Isabel, onde ela mostra claramente porque resolveu abandonar o lar e partir. As circunstancias que uniram Isabel a Francisco foram as mais conturbadas possíveis, por conta disso ela nunca se sentiu inserida numa relação familiar bem estabelecida, jamais sentiu um afeto maior por seu marido, recebia por parte dele uma cobrança excessiva em relação aos seus sentimentos. Francisco repetia exaustivamente: "Gostas de mim não gostas Isabel?" 6. E essa cobrança extrema, doentia, essa exigência de amor era algo insuportável para personagem.

Isabel não compreendia essa insistência, pois seu pai e seu filho jamais cobraram isso dela, por isso tinha uma enorme vontade de perguntar: "A que chamas gostar Francisco?"7, porque o conceito de amor de ambos era bem divergente. Tanto assim, que no relato de Isabel percebemos que as intenções em relação a Pedro não foram motivadas por um "amor maior", o abandono do lar se deu por conta de uma busca por um modo de sentir-se livre. Ela sabia que seu relacionamento com Pedro também não passava de uma farsa tal qual o casamento com Francisco. Podemos observar isso na seguinte passagem: "Eu que não lhe pedira nada, que não queria nada, a quem não apetecia nada salvo estar sozinha sem homens a perseguirem-me com seus interrogatórios sem sentido" 8. Ela afirma também:

Foi para ficar sozinha que aceitei o apartamento em Lisboa, uma sala, uma marquise onde não me inquietavam, não me aborreciam, não me visitavam nem me tocavam nem me faziam perguntas, onde me deixavam em paz. 9

O desejo de Isabel era ser livre, ser dona de sua própria vida, não ter de dar satisfações de seus sentimentos. Em tempo algum ela demonstrou querer ferir os sentimentos de Francisco, mas como não havia diálogo entre as partes, ele acreditava na traição pura e simples e a punição para os traidores, assim como no caso do General Humberto Delgado, Isabel também é punida com a morte.

Pensando no sentido dicionarizado do conceito traição, que vem do latim "traditione", significando conduta ou defeito de quem, perfidamente, entrega, denuncia ou vende alguém ou alguma coisa ao inimigo, consubstanciando-se em infidelidade, perfídia, deslealdade. Traidor, por outro lado, vem do latim "traditore", ou seja, aquele que atraiçoa, sendo perigoso com aparência de seguro. O traidor, assim, é sempre insidioso, disfarçando o seu escopo através da perfídia, do estratagema. Nesse caso, os dois casos guardam enormes semelhanças: tanto Isabel, quanto General Delgado ambos tinham um desejo de liberdade frente a formas opressoras de poder. Nessa busca por serem livres enfrentaram o poder sem medo, sendo por isso considerados traidores.

Observamos então que depois dessas "traições" de Isabel e Humberto Delgado, eles também sofreram uma forma de "traição mortal" por parte de seus algozes, e em muito pouco tempo depois tanto Francisco como Salazar passaram da ascensão à queda total por conta desses atos.

Ou seja, António Lobo Antunes consegue criar uma construção literária que integra perfeitamente essa dupla perspectiva, tanto no plano das questões emocionais das personagens, como na retrospectiva histórica portuguesa, trabalhando a questão da memória de um modo singular, assim como afirma Andréas Huyssen:

Não requer muita sofisticação teórica ver que todas as representações - sejam na linguagem, na narrativa, na imagem ou no som gravado - estão baseadas na memória. Representação sempre vem depois, embora alguns meios de comunicação tentem nos fornecer a ilusão da "pura presença". Mas ao invés de nos guiar até alguma origem supostamente autêntica, ou nos dar um acesso verificável ao real, a memória, até mesmo, ou especialmente, por vir sempre depois, é em si baseada na representação. O passado não está simplesmente ali na memória, mas tem de ser articulado para se transformar em memória. 10
 
E assim, podemos constatar que esse processo de transformação/articulação do passado em memória é algo muito explorado por Lobo Antunes em sua construção ficcional. Sendo suas obras construções contemporâneas que obrigam o leitor a empreitar sempre novas "investigações", como prega Barthes, e sair de sua condição de leitor passivo, como advoga Iser , ou seja, estimulando o leitor a embarcar nessa "viagem" que nos faz mudar de visão a cada nova leitura.


Notas
1 FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1996, p. 97.
2 ANTUNES, António Lobo.O Manual dos Inquisidores. Lisboa: Dom Quixote, 1997, p.336/337.
3 Op. cit., p. 163.
4 Op. cit., p. 13.
5 FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder, 3 ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1982, p. 108.
6 ANTUNES, António Lobo.O Manual dos Inquisidores. Lisboa: Dom Quixote, 1997, p.396.
7 Op. cit., p. 397.
8 Op. cit., p. 400. (Grifo próprio)
9 Op. cit., p. 400.
10 HUYSSEN, Andréas. Memórias do Modernismo. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1997, p. 14.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANTUNES, António Lobo.O Manual dos Inquisidores. Lisboa: Dom Quixote, 1997.
COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria: literatura e senso comum. Belo Horizonte: UFMG, 2003.
FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola, 1996.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder, 3 ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1982.
HUYSSEN, Andréas. Memórias do Modernismo. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1997.


por Patrícia Camargo
[não datado]

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