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João de Melo: Recensão crítica na Colóquio Letras nº 82 de Novembro de 1984 – pp. 104 a 106


Concebido como plano de cobertura dum período de cerca de dez anos da realidade portuguesa [pós 25 de Abril]*, e hipoteticamente confinado, no tempo, à década de 70,Fado Alexandrino assenta num estrutura de três painéis, a que correspondem as epígrafes de «Antes», «A» e «Depois da Revolução». Três painéis que se constituem, cada um deles, em 12 capítulos de acção, de micro e macro-histórias, discursos cruzados e vivências mais ou menos protagonizadas pelos cinco personagens principais da obra. Nesta aparente simetria estrutural, com tudo o que possa ser rigoroso e calculado, procura implicar-se uma ordem de tempo(s), pessoas, factos e análises, de forma a que (a)pareça problematizada a junção da História, no seu sentido positivo, com a verosimilhança da ficção narrativa. Daí que a primeira questão acerca deste romance possa ser suscitada pela forma seguinte: será que a sua ficção é susceptível de catalogar-se, prontamente, como «histórica»? Se for certo dizer-se que podem existir romances «históricos» que da História colham uma visão precária, algo condicionada e até esmorecida, então Fado Alexandrino pode perfeitamente perfilar-se como exemplo de uma obra literária que tem por si as margens de ambiguidade suficientes para ser duplamente interpretada: é «histórica», no ponto em que observa referências e os limites dum período bem determinado da nossa vivência colectiva; mas não é «histórica», se a sua finalidade literária e sobretudo o acervo das suas análises subjectivas puderem suscitar discordâncias de fundo ou se subsistirem factos objectivos que a contraditem. O levantamento destas duas hipóteses não tem de considerar-se gratuito, já porque se trata de um autor cuja obra, no seu conjunto, se centra nalguma tradição da nossa prosa historicista, já porque me parece ser esse um dos problemas que mais frequentemente vêm sendo introduzidos nos debates acerca da nova escrita lusitana. E se a escrita do Autor possui a noção prática do novo e o pendor poético e metafórico (por vezes mesmo barroco) que muitos lhe reconhecem; se o seu êxito editorial radica, acima de tudo, no reconhecimento duma competência específica, duma voz ou mesmo dum idiolecto de literatura, parece-me a mim que é mais problemática, neste Fado, a concepção do que avisão justa da História da nossa Revolução.

Não tanto por razões ideológicas objectivas, mas sobretudo ao nível duma avaliação sintomática do período histórico, político e social a que este romance se reporta, sou levado a considerar que a visão do Autor sobre as transformações operadas se ressente de um excessivo pessimismo, acabando até por desembocar numa espécie de delta da dissolução sem remédio, aliás antevista desde a primeira página do livro. Neste ponto, teria eu preferido vislumbrar um outro clima de variações periodológicas que melhor se coadunasse com os desesperos, euforias, ilusões e desilusões do «Antes», «A» e do «Depois» dessa Revolução. Preferia também  ter visto um mais intenso cromatismo de situações que dessem ao fundo romanesco uma melhor sucessão dos tempos específicos. Ao contrário disso, o Autor parece incorrer num tom quase unívoco, arrastando sob o mesmo discurso períodos tão distintos como o estertor final da ditadura marcelista, o sucesso do golpe de Estado e o que se lhe seguiu. Curiosamente, a mole humana que apoiou e pressionou, nas ruas, as transformações operadas neste país passa quase despercebida às expectativas do leitor. Bem sei que teria sido fácil ao Autor envolver o universo relativamente fechado do seu romance com alguns garridos episódios de rua, que infelizmente se constituíram já em péssima literatura, pela mão de outros escritores; mas nem por isso a aparente omissão desse barómetro temporal, que é o fervor fecundo das multidões, me parece ter sido uma alternativa feliz. Ou só o será, no ponto em que a aposta do Autor é seria, pela recusa do fácil e a escolha do caminho mais longo.

A perspectiva escolhida é, se assim se pode dizer, a do tabuleiro de xadrez cujas peças maiores são constituídas por um grupo de ex-militares que se reúnem num jantar com o ex-comandante dum Batalhão expedicionário em Moçambique e à mesa procedem ao exercício duma memória de 10 anos sobre si mesmos e sobre o Portugal de «antes», «durante» e «após» Abril. E são peças secundárias desse jogo vivencial as relações multi-multiplicadas dos 5 (um Tenente-Coronel, um Comandante de Companhia, um Tenente, um Alferes e um Soldado), com uma série de segundos-planos familiares, profissionais e outros. À medida que o leitor progride na organização desta memória, infunde-se nele a sensação do crepúsculo, do tempo parado, das ilusões traídas, e finda tudo num ambiente de dissolução caótica, onde o cometimento dum crime, na pessoa do Tenente, é quase um acto de antropofagia (começa na cumplicidade dos assassinos e acaba na combina da ocultação do cadáver e no regresso de todos os outros ao marasmo dos dias). Não está implícito em tudo isto que a vida, a solidão sem fundo e as amarguras dos personagens não sejam tão verosímeis como as alegrias ausentes ou as euforias passageiras. A minha especial reserva centra no ponto em que terei de considerar Fado Alexandrino muito mais o romance dos seus personagens do que a visão exemplar, representativa e diversa, de toda uma sociedade que subjaz, em fundo, à montagem dos percursos dos cinco. Se a isto juntarmos os compromissos lógicos dos narradores sucessivos, fica completa a ideia de que este livro se desvia deliberadamente duma sociologia tipológica e portuguesa e acaba por enfocar num universo mais particular do que geral (ou social). É quase umrequiem sobre o tempo. Nenhuma especial vibração sobre palavras e conceitos como, por exemplo, liberdade e justiça. Nenhuma hipótese de futuro, até.

O próprio narrador dominante comunga deste mar de cumplicidades e recusas, a ponto de o seu olhar ser tão ou mais impiedoso e cáustico do que o dos personagens. Lisboa, a cidade-cemitério, é, por isso, um lugar onde sempre quase chove; a fisionomia das coisas é baça e fria; os materiais e os seres longínquos têm, quase sempre, um referente condicionado - o complexo do plástico. Mesmo o humor é violento, ácido e muito macho. Um desgraçado Tenente-Coronel, personagem principal, atravessa todo o calvário das solidões familiares, amorosas e profissionais, e é varrido, como um monte de ossos, de cargo para cargo e de posto em posto, até chegar a general - e tudo para nada. O seu envolvimento no golpe militar é aleatório e indiferente, porém cheio de equívocos e traçados descontínuos. Ele e os outros mostram-se, de facto, incapazes dum ideal, duma relação duradoura e duma firmeza de princípios. Até mesmo o trabalho político de alguns acaba por os conotar com uma espécie de «trânsfugas», com a rasura teórica e com o insucesso total.

Escritos assim, todos estes senãos talvez possam ser tomados como processo de intenção contra uma obra que, além de ter desconcertado alguns, acabou por ganhar quase todas as apostas junto do público. Gostaria, por isso, de deixar ressalvada a ideia de que é forçoso separar a análise anterior do que se me oferece dizer agora acerca de um processo de escrita que está longe de ser vulgar. Em primeiro lugar, Fado Alexandrinoé uma obra onde se acentua uma tessitura de escritas e uma arte combinatória muito segura de experiências narrativas por vezes muito diversas. Depois, a unidade, o fulgor da palavra e da imagem, o poder de escrita que se contém nesta prosa, cifram-se em páginas de inesquecível claridade. Digo mesmo que, se se tratasse de situar este livro no conjunto das anteriores quatro obras do Autor, parecer-me-ia elementar deixar escrito que o considero como o «livro dos seus livros», com tudo o que isso implica de palpável e de convicto. E não apenas porque este processo de melhoria e de maturidade deva ser imputado a um escritor que soma as virtudes do métier a um trabalho dos mais produtivos da actual cena literária portuguesa; mas sobretudo porque alia a exigência a um capital de pesquisas que, estando longe de considerar-se esgotado, é um caso típico de inquietação e daquele húmus criativo que nos torna solitários e nos remete para uma relação sofrida com a vida e com as pessoas. Além do mais, Fado Alexandrino tem tão seguras as aquisições de Explicação dos Pássaros, como acaba por envolver-se também dos mundos e traumas que fizeram de Os Cus de Judas um livro singular. Livro dos livros, também, porque é a retoma subtil dos grandes temas que vêm inspirando quase toda a obra do Autor. O tema da guerra colonial, p. ex., que colocou o escritor num lugar de referência sem precedentes. O inferno dos outros, a solidão punida e punitiva, o espaço do memorizado e do sofrido (visto e experimentado em Memória de Elefante e emConhecimento do Inferno), são outros tantos caminhos recobertos por este livro. Algumas da suas melhores páginas, de resto, bem podem aceitar-se como o refrão ou o coro trágico de todos os percursos, seja nos momentos em que África e o seus cães-de-quartel são reinvocados, seja nas novas solidões dos outros-com-os-outros. O penúltimo capítulo do livro é, por sua vez, um texto de tal intensidade poética, que compensa, por si só, os excessos metafóricos, as espirais de linguagem e as imagens menos felizes que de quando em quando pontuam uma escrita de quase 700 páginas, onde raras são as falhas de gosto e quase nulos os efeitos menores. Fiquem os leitores com a ideia de que a «monumentalidade» deste romance reside tanto nas suas dimensões físicas como na sua estrutura e na sua actualidade. Num país de literatura (quase sempre) apócrifa, e onde os grandes temas sofrem toda a sorte de acidentes e atrasos, até chegarem ao estatuto de ficção distanciada, escrever sobre o Portugal de hoje, como António Lobo Antunes o vem fazendo, é significativo dos muitos méritos e do êxito que os seus livros têm conhecido, aqui e no estrangeiro. Mas lá que a nossa superestrutura crítica não faça esse reconhecimento ou não se tenha apercebido ainda que há um novo conceito de literatura neste país de hoje [1984], é bem outra questão. A História, porém, também ensina que alguns dos nossos vivos serão sempre antepassados nossos.


* no texto original está "mais recente"

João de Melo
Colóquio Letras 82
Fundação Calouste Gulbenkian
Novembro de 1984

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