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Francisco Solano: Primeiros abalos


Aos 37 anos, António Lobo Antunes publicou o seu primeiro romance e deixou clara a sua intenção de renovar a maneira de contar. Memória de Elefante é uma indagação à alma humana.

O estilo não é um dom, mas sim fruto de muitíssimas horas de trabalho, de escrever constantemente, de emendar e cortar páginas, de não encontrar nunca satisfação. E, não obstante, há que chegar à máxima exigência e precisão, até que seja a mão quem escreva - a mão -, não a vontade. Lobo Antunes tem insistido, mais que uma vez, em que escrever é deixar que a mão busque as palavras: "Os livros já estão escritos, e tu apenas os descobres porque estendes a mão". Surpreende tanta humildade, tanta cuidadosa paciência. Não há nesta opinião qualquer vaidade sobre a qualidade do escritor, nem auréola de distinção de uma tarefa que se reduz a imenso trabalho. E isto disse um escritor que, na última década, tem vindo a publicar romances perturbadores, no limite do prodígio verbal, carregados de emoção e calamidade, que imprimem o processo de desconstrução da memória, revelam as maranhas dos sentimentos e nos hipnotizam com a expressão do indizível. Porém se os últimos livros do escritor português, empenhado em alargar ao limite o território do romance, subvertem o rito conciliador da leitura, na sua primeira obra já se aprecia o embrião do que viria a ser o seu estilo, a forma rebelde do seu talento, o seu fastio perante a convenção narrativa e, pode dizer-se, o pesar de ter que se dobrar numa composição de índole autobiográfica. Publicado em 1979, quando contava com 37 anos - Lobo Antunes poupou-se antes de aparecer em público -,Memória de Elefante anuncia um escritor perplexo, cuja introspecção da sua própria crise matrimonial se transforma na matéria efervescente e delirante de um homem cuja única garantia de estar vivo é a omissão do seu nome na página de necrologia dos jornais e que deve sobrepor-se, contra todos os prognósticos, à "vontade de se vomitar a si mesmo".

O protagonista é um psiquiatra na agonia da mudança, que não sabe que vai ser de si, em que se vai converter, depois de ter decidido separar-se da mulher que ama. Perdido em Lisboa, que se configura como uma cidade de estímulos tão mórbidos como inúteis, rival de si mesmo ("detestava cada vez mais emocionar-se"), ressentido contra a sua profissão ("o psiquiatra assemelha-se aos vendedores de automóveis na sua loquacidade demasiado delicada e bem vestida") e raivoso contra todos ("que se defendiam melhor do polvo gelatinoso da depressão"), assistimos à emergência dos atributos mais inextrincáveis do ser humano, aos impulsos mais desesperados e à suspicácia existencial de que não há saída, de que "é realmente muito fodido ser homem, não é?". Contada por uma voz só aparentemente externa, já que surge das entranhas da personagem, a narrativa desenvolve-se à maneira de uma confissão mortificante que, ao pôr-se por escrito, permite suportar a angústia de uma solidão aborrecida e desejada, único lugar de onde se reconhece e mitiga, paradoxalmente, a angústia da autodestruição.

Assim o tormento do psiquiatra, causa da sua depressão, não radica na sua crise conjugal, nem na sua beligerância contra o homem comum, mas tem origem na sua vocação radical pela escrita, uma paixão que antecipa o fracasso ao comprovar que "os romances e poemas que perpetrava sem escrever formavam como que uma prolongação narcisista sem conexão com a vida, arquitectura oca de palavras, desenho de frases vazias de emoção". Contra essa separação entre escrita e vida se estenderá depois toda a obra posterior de Lobo Antunes. Mas em Memória de Elefante essa ruptura, como o divórcio dolorosamente assumido do psiquiatra, está bem apetrechada de belas imagens, metáforas engenhosas e piruetas verbais - tudo temperado, ainda, com nutridas menções culturais - , que se acumulam para decorar o texto de "efeitos literários" e povoar a narrativa com um barroquismo falseado. Não obstante, incluindo esses mimetismos e excessos, o romance alcança um nível e intensidade admiráveis, e se impõe com tal convicção na análise da alma humana que invejariam Camus ou Dostoievsky. Primeiro abalo de uma novelística excepcional, poder-se-ia dizer sem presunção que aqui está já Lobo Antunes por inteiro.


por Francisco Solano
01.10.2005
(traduzido do espanhol por José Alexandre Ramos)

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