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Nuno Barbosa: Comentário a Auto dos Danados


Pano de fundo: pós 25 de Abril, Alentejo, o "avanço comunista".

Situação: uma família em queda livre, a morte do "patriarca", a demanda por uma herança ilusória:

"(...) uma família nojenta de cabras e bois mansos a devorarem-se mutuamente no casarão do Guadiana, a sonegarem-se as heranças, a odiarem-se, a roubarem-se a esmagarem-se, a destruírem-se, e tudo isto debaixo da boquilha e da pálpebra cáustica do avô, derramado na cadeira de baloiço da sala, a assistir, numa alegria formidável à agonia da sua matriz, como se não suportasse que nada de seu sobrevivesse ao seu fim, que nada de seu continuasse insolentemente vivo após a sua morte, como se quisesse arrastar consigo as terras e as pessoas para os desconhecidos pântanos subterrâneos aonde ia, como se quisesse matá-los com ele a gozar a sua lenta dissolução nas desmemoriadas névoas do passado, o velho estendido agora na cama, a observar-nos, com o único olho válido, sem lograr falar, sem lograr mover-se, e no entanto de lábios desconjuntados na risonha crueldade do costume."

Sucedendo-se as personagens encarregues da narração, o leitor é confrontado com uma família que através das sucessivas gerações vem a perder toda a pujança financeira que a caracterizara outrora e chega a um ponto em que vários dos seus membros se encontram totalmente dependentes da presumível herança do "avô" e por ela se degladiam, esperando-os a recompensa de múltiplas dívidas acumuladas.

A decadência económica é no entanto o ponto de partida para se penetrar numa teia de relações em que a infidelidade, a desconfiança, a carência, a violência e o ódio são tónicas constantes.

Assemelhando-se, inevitavelmente, a uma película de Woody Allen, o livro é um desfile de personagens insatisfeitas e frustradas que se voltam para todo o lado em busca de um eco reconfortante, de alguém diferente daquele com quem vivem ("a tua mãe que dorme com o marido da irmã do teu pai, o qual marido, por seu turno, dorme com as mulheres todas da família, mesmo a anormal, mesmo a doente a quem fez uma filha de quem há cinco ou seis anos teve um filho"), sentindo, no entanto, ainda assim, o logro das relações humanas, condenadas ao fracasso, e mesmo o desprezo pelos "parceiros de outrora" ("Como é que eu pude e como é que a minha mãe pôde, mesmo sem falar, mesmo mongolóide, como é que podemos ambas parir dele, como é que a mulher do meu tio pôde, como é que a minha tia pode ainda?").

Cada vez mais amargos e secos, são indivíduos para quem a sobrevivência é a palavra-chave, capazes das maiores mentiras, sacanices e crueldades para com os outros, na busca da sua satisfação egocentrista e em que os outros só parecem contar em função da sua utilidade - "O ferroviário disse Deita, de uma forma tão neutra que principiei a chorar e os sobreiros e a paisagem e o seu rosto se desfocaram pela lente das lágrimas, exactamente assim, Deita, após tantos anos de dormir ao meu lado sem me tocar sequer, nem num desses casuais e inexplicáveis movimentos do sono, arregaçou-me a roupa, Deita, quebrou-me o elástico das cuecas, Deita, acabou por crucificar-me os ombros contra os limos, Deita, à medida que remexia na braguilha das próprias calças, à procura, e três meses depois abortei, no hospital, um ano antes do Francisco nascer, uma dolorosa pasta escura num balde, e acho que o meu marido nem sonhou, ocupado como andava com carruagens e furgões, a soprar a corneta a meio do almoço ou a saudar com a bandeira vermelha nos ofertórios das missas, uma pasta num balde (...)"

De resto, a capacidade de amar parece evaporar-se, volatilizar-se na repetição incessante de gestos e palavras desapaixonadas, a-significantes e até agressivas, verificando-se um círculo vicioso (cfr. Capítulo transcrito e a educação à chibata), de geração para geração, já que os pais, vendo-os com desconfiança como acidentes e estranhos, não são capazes de amar os filhos - "(...) e a barriga cresceu-me misteriosamente a seguir a uma noite de sangue e comboios e dores, a ouvir grasnidos de corneta na estação dos lençóis, e meses depois os meus ossos quebraram-se no Hospital de Reguengos e trouxeram-me a Ana, vermelhíssima e eu a olhá-la sem forças e a pensar Quem é, quem será, porque me trazem ao quarto esta larva horrorosa. Uma enfermeira de óculos disse Vamos experimentar o leite, desabotoou-me a camisa, girou o mecanismo aos pés da cama, colocou contra mim a repugnante criatura enrugada e empurrou-lhe cabeça contra o bico do meu peito, e senti que me mordiam a carne com um par de ferozes pinças cartilagíneas de lagosta."

Para mais à raiva destes seres danados devemos somar o terror que o espectro do comunismo lhes desperta:

- "preferes os comunistas, minha santa, queres que nos fuzilem amanhã contra a parede da igreja?";

- "não percebeste que nos dividem às rodelas se não passarmos a fronteira depressa?, e eu imaginei um cortejo de bandeiras vermelhas a correr para nós";

- "Não vês que querem matar as pessoas como nós (...) não se te mete nessa cabeça dura que quero salvar a tua mãe de ser violada dias a fio por uma bicha de ganhões?";

- "Todos defuntos, num banho de sangue, com forquilhas espetadas na barriga, com os braços decepados, com as partes cortadas";

- "os comunistas estão aí, não lhes sentes o cheiro?".

E assim chegamos à compreensão de que acabam por assassinar o velho, que se matam uns ao outros, que se matam a si próprios, sendo os seus instrumentos os mais cruéis - a indiferença, a ausência de afecto, o desprezo no tratamento - e as suas técnicas as mais perversas - a corrosão gradativa, o desgaste continuado, a rotina do ódio.



Nuno Barbosa
citado daqui
[não datado]

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