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Peter Ephross: crítica a A Ordem Natural das Coisas


Na primeira metade do século XX, escritores como Viriginia Woolf, William Faulkner e James Joyce elaboraram difíceis obras-primas com narradores à deriva e mudando as sequências temporais. Depois da Segunda Guerra Mundial, este método de escrita caiu em desuso, mas um romance português recentemente traduzido para inglês faz homenagem a essa mesma técnica – e insere uma boa dose de um realismo mágico.

Em A Ordem Natural das Coisas, António Lobo Antunes traça o complexo fado multi-geracional de duas famílias que são assombradas pelos seus passados. O livro abre com as divagações nocturnas de um homem de meia-idade quando se deita na cama ao lado de uma mulher diabética, mais nova. Torna-se claro que não se trata de uma relação fácil entre ambos. Como pateticamente o homem diz, “sempre que falo de mim, encolhes os ombros, a boca torce-se, as pálpebras prolongam-se de desdém, rugas escarninhas surgem por detrás da franja do cabelo loiro, de modo que acabo por me calar”.

Nos capítulos seguintes, a narração é tomada por alternadas falas de um homem amargurado que envelhece, e um oficial do exército que é preso e torturado. E isto tudo na primeira parte. Os capítulos posteriores apresentam-nos uma prostituta e o seu chulo, e uma menina, filha ilegítima de um pai que a mantém trancada. O escritor não narra exactamente assim, não é fácil encontrar o trilho à intriga no meio de um emaranhado de narrativas. Quando o interlocutor salta, abruptamente, a meio de um parágrafo, o tempo também se desloca, levando o leitor através de várias décadas e desde a Lisboa actual até à África colonizada (a relativa obscuridade da história portuguesa é um obstáculo adicional). Apenas nas cerca de 50 páginas finais poderá o leitor mais atento capaz de reunir as peças do puzzle e construir a teia que apanha as principais personagens.

Porém este romance não se faz pela intriga, pela trama, pelo menos no sentido tradicional; e os leitores não preparados para esta luta não se sentirão com vontade de ir além das primeiras 75 páginas. Então porque vale este livro o esforço? Porque tal como nos clássicos modernistas, as ideias e a linguagem – sim, mesmo numa tradução! – fazem deste percurso surreal uma viagem pelos labirintos da mente humana. Antunes possui uma habilidade excepcional de descrição, tal como quando comenta a sensação de espera que uma dose de Valium surta efeito: “sinto um ornato de sepultura magoar-me a perna, oiço a erva das campas no lençol, vejo os serafins e os Cristos de gesso que me ameaçam com as mãos quebradas”. De igual modo descreve com muito à vontade as futilidades do dia-a-dia quotidiano, o despropósito das idas às consultas com o médico, em que se esquece de pagar a viagem do táxi, ou os concelhos do médico incoerentes, e os momentos distintos das nossas vidas que nos define – ou na verdade nos surpreende.

Como as criações atormentadas de Faulkner, as personagens são oprimidas pelo seu próprio passado – seja o fardo de uma falácia pessoal, como relações extra-conjugais, seja a opressão da crueldade política e a vida na prisão. Como diz uma das suas personagens, “Não, não proteste, não me censure, palavra de honra que faço os possíveis e contudo, é assim mesmo, a memória tem o seu mecanismo próprio, o seu ritmo, as suas leis, os seus caprichos”. O que sobra às pessoas depois do resultado das suas batalhas com o destino, argumenta Antunes, é uma história que elas devem tentar aceitar, mesmo que isso seja, em última análise, impossível.

(opinião escrita por ocasião da tradução para o inglês do livro, The Natural Order  of Things, edição Grove/Atlantic, 2000, EUA)

por Peter Ephross
05.04.2000
[traduzido do inglês por José Alexandre Ramos]

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