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Norberto do Vale Cardoso disserta sobre Da Natureza Dos Deuses

[texto publicado originalmente na Colóquio de Letras nº 190 de Setembro de 2015 e citado integralmente aqui por cortesia de Norberto do Vale Cardoso]

E a Obra de António Lobo Antunes move-se: Breves notas sobre o romance Da Natureza dos Deuses


O espectro da continuidade 
Tecnicamente sabe-se que a Terra gira, mas de facto não damos por isso, o chão que pisamos parece que não se mexe e vivemos tranquilos. É o que se passa com o tempo na vida.
(Marcel Proust, À Sombra das Raparigas Em Flor, p. 59, Volume II de À Procura do Tempo Perdido.) 
Essa passagem pode muito bem aplicar-se à Obra de António Lobo Antunes, não apenas porque, nela, o tempo é, desde os primeiros romances, um vector fulcral (conectado com a construção e escrita da memória, cf. Cammaert, 2009:203), mas, sobretudo, porque a opus antuniana se revela ao leitor como um mundo novo, repleto de emaranhados, obnubilamentos e indecidíveis. O leitor desta Obra não se limita a ter consciência de que, nela, “a Terra se move”. Ele sente esse movimento com espanto, o que lhe exige uma atitude de indagação do mundo. É isso que sucede com a leitura de Da Natureza dos Deuses, 26º sexto romance de António Lobo Antunes, que gera no leitor sentimentos ambivalentes, entre a sedução e a perturbação.

Neste romance o tempo parece suspenso, sujeito ao poder opressivo da política e do capitalismo dominantes. Esse tempo, que se assegura necessário para o estabelecimento de uma suposta ordem natural das coisas (sempre invertida na obra antuniana) é, na verdade, um constructo que visa criar uma inamovilidade aristotélicado mundo. Assim, os novos deuses exercem um domínio tacitamente aceite sobre quem os serve, por um lado porque os detentores do poder se julgam acima dos seus iguais e incólumes à passagem do tempo, e, por outro lado, porque os que carecem de poder, de recursos e de mecanismos para colocar em causa a ordem estabelecida, são impulsionados a aceitá-la e a ela se juntarem, abdicando, sem razão válida, dos seus sonhos: “porque motivo aceitamos ser palhaços dos homens, a rirmo-nos do que não tem graça e a acharmos fascinante, […]” (ND, 147). 

Neste romance não parece, pois, desenhar-se qualquer saída revolucionária (aliás in-existente na obra antuniana), vislumbrando-se, antes um espectro de continuidade.

II
O epicentro da mudança

Baseado no título homónimo da obra de Cícero, De natura deorum (45 a.C.), algumas das acções deste novo romance de António Lobo Antunes decorrem numa casa “empoleirada” num “alto”, onde se destaca a estátua de Vénus (símbolo do perene e do poder). O dono da casa, conhecido como “o senhor doutor”, vai “degolando gente pela vida fora”, o que o dota de um poder incontestável. A partir desse olimpo, “o senhor doutor” vai “dirigindo os palhaços e os maridos dos palhaços, o duque inglês, os alemães cada vez mais numerosos” (ND, 156). Aí se reúne com os seus “súbditos” (assessores, amantes e gente influente, que formam “ramalhetes sociais” (Proust, 2003: 99), ou seja, gente heterogénea) em torno de um jogo de ténis (que, como o campo de tourada em Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, representa a arena moderna, onde a força não se liga à “raça”, mas àquele que tem o dinheiro para ter a força ou que tem a força para ter o dinheiro: veja-se a chantagem sobre o parceiro de jogo, que é ameaçado com o desterro para a província). Estes encontros provam que não há, neste tempo (as acções centrais decorrem durante o Estado Novo), ninguém livre, e que o Estado resulta da confluência dos poderes político e económico (Deleuze e Guattari, 2004: 276).

Dono de bancos, quintas, casas com piscinas e minas de volfrâmio, colecionador de automóveis, com contas em offshores, o “sevandija” (ND, 320) visita, aos domingos, “o senhor presidente” (alusão aos encontros entre o líder do clã Espírito Santo e Salazar), num colóquio entre aqueles que “mandam em Portugal” (ND, 207). Esse (geo)poder, indiferente à História porque se considera a si próprio «a História», representa as forças que se movem para, afinal, nada se alterar: 
eu dono de quase tudo e ele dono do resto, do que a gente chama Pátria ignorando o que é a Pátria, chama História ignorando o que é a História, ou chama egrégios avós ignorando o que são egrégios e avós […] (ND, 418) 
Recorde-se, a este propósito, o descrédito e a caoticidade em que é colocada a revolução de Abril em Fado Alexandrino. Nesse romance, como em As Naus, a revolução é vista como um naufrágio (cf. Carvalho, 2014:99). A mudança é, pois, aparente ou, como se diz em À la Recherche du Temps Perdu, “A única coisa que não muda é que parece sempre que existe «alguma coisa que mudou em França»”. (Proust, 2003: 95) Este nihil novi sub sole (Eclesiastes, 1, 10), que faz parte da mundividência antuniana, torna difícil discernir como pode o mundo mover-se de facto, pois se o mundo devia ser feito da natureza ou da matéria dos sonhos, não é somenos verdade que é nos meandros do poder que se decide o curso dos acontecimentos. No romance de Lobo Antunes, a casa de Cascais é o epicentro dessas decisões (lugar a partir do qual todos os negócios se movem para que nada se mova), tendo na livraria situada no centro da vila (e que pode encontrar na “Livraria Galileu” um elemento referencial, onde a cave se destaca como lugar imagético, tão relevante quanto o sótão na obra deste autor) o seu contraponto, precisamente por nela nada se decidir.

A discussão sobre os deuses, levada a cabo em Da Natureza dos Deuses, de Túlio Cícero, perspectiva-se eterna. Se Balbo acredita que tudo tem uma ordem precisa, que nada há de fortuito, porque tudo depende dos deuses (Cícero, 2004:85), a discussão prossegue em Lobo Antunes, dado que, hoje, o lugar dos deuses mortos é ocupado por novos deuses: os homens que, tendo o governo dos seus iguais, não se julgam feitos da natureza humana (mesmo que esta seja a natureza do que muda). Todavia, a assunção de que nada muda não é definitiva na obra de António Lobo Antunes. Efectivamente, mesmo que o poder se estabeleça e perdure, o romance antuniano vem garantindo que (recordando a frase atribuída a Galileu no século XVII) «eppur si muove».

Ora no romance Da Natureza dos Deuses a mudança principia precisamente no lugar mais improvável, a livraria, pois esta representa a apologia do hermético, quer devido às chaves “misteriosas, secretas” (que, no capítulo inicial, abrem a porta desse lugar, ND, 13), quer fruto das coisas, aparentemente proibidas, que aí se passam na cave. Essas chaves serão, mutatis mutandis, as “chaves” de que necessita o leitor do romance antuniano para decifrar o romance (SLC, 113), e que vêm com o próprio texto, significando este aspecto que o leitor tem de recusar a “sua chave”. Aqui, como na filosofia, o ponto de partida será a ignorância (Cícero, 2004: 19). 

A livraria será, em suma, um lugar compatível com a “magia da palavra” (é nela que Fátima se apercebe que o eixo da terra se move) que deveria mudar o mundo. A cave (lugar oposto ao topo onde se situa a casa do “dono do país”) representa o «conhecimento do inferno», um conhecimento para o qual parece já não existir lugar num mundo desencantado, dado que o saber (que reside nos livros) foi suplantado pelo poder.


III
A natureza da Obra 

Os livros são feitos da verdadeira matéria humana: os sonhos. Aqueles que sonham podem não mudar a História, sendo, não raras vezes, os que dela são vítimas (vítimas do poder másculo - como a empregada da livraria, que é violada, ou a Senhora, que é aprisionada no alto da casa -, do poder político - como o adjunto do senhor doutor -, da doença - como a cantora -, ou do desespero – como Marçal, o servente e, por vezes, duplo do senhor doutor porque este o obrigava a cumprir as suas obrigações conjugais com a Senhora). Essas dramatis personae não são as que participam da História, mas, antes, “da pequena história do dia-a-dia” (Seixo, 2002: 126), que é a que mais interessa na obra antuniana, de entre as quais se destaca o “sem abrigo”, que vemos errar incessantemente.

Ainda que não se dilucide a identidade desta personagem enigmática, que mantém um silêncio indecifrável, a sua indiferença para com todos os movimentos sociais torna-se numa ameaça ao estilo de vida dos deuses. Como um corte para com a narrativa, o misterioso é o incontrolável, pois a passividade dessa personagem parece ter laivos do transcendentalismo norte-americano, que encontramos em Thoreau. De resto, essa personagem que, na obra de Lobo Antunes, a par de outras marginalizadas (consubstanciadas na figura do palhaço pobre, cf. Carvalho, 2014: 174-176), adquire a predilecção dos narradores, surge logo no incipit do romance a dormir no degrau da livraria.

Esta personagem marginal liga-se à paródia, que é, em suma, a subversão imposta pelo próprio romance. Tecida de mistérios, a obra de arte tem um carácter enigmático, e por isso ela “macaqueia à maneira de um clown” (Adorno, 2008: 186). Como palhaço pobre, o “sem abrigo” toma banho nos chuveiros da praia e faz malabarismos com bolas. Desprovido de todo o tipo de bens materiais, sem acesso ao poder, circula em silêncio num mundo tenebroso de homens poderosos cujo único propósito parece ser enriquecer para ter poder e ter poder para enriquecer. Descomprometido e livre, sem desejos inconscientes de grupo (Deleuze e Guattari, 2004: 268), o “sem abrigo” recusa-se a aceitar o desejo de desejar ter poder. Ele não será um Deus ex machina, mas um homem que, não podendo intervir no curso da História, vai sendo mais humano. Esta expressão significará, de outro modo, mais próximo da natureza dos deuses.

Se é um anjo ou um deus, o que não se pode discernir por completo, o errante é (como o romance será) aquele que foge aos cânones estabelecidos (isto é, aos focos do poder). De facto, para além deste “sem abrigo” só o próprio romance (metonimicamente representado pela livraria, que, na cave, contém todos os livros de todos os temas) se move: Fátima, como “caixeira da livraria”, parte para a casa da Senhora carregada de livros, ainda que a Senhora, mais do que ler, procure alguém que a oiça em silêncio contemplativo. São, aliás, tantos os pacotes de livros que Fátima transporta para a casa de Cascais que esta parece ser invadida e ficar “cercada”. Esta situação alude à bibliomaquia que ameaça o poder, como se tudo fosse efémero, menos as grandes obras, que são as que se movem intemporalmente. Portanto, o sem abrigo (que não fala) e os livros (que a Senhora não lê enquanto Fátima não fala), parecem ser feitos de uma outra natureza, “da natureza do silêncio e do mistério”, veios de um texto que se move silenciosamente, ora revelando, ora ocultando-se, criando ruturas aparentemente imperceptíveis e sentidos frequentemente obscurecidos (vejam-se as palavras truncadas), talvez porque o próprio autor seja, tão-só, um mensageiro:
e aguentar o quê se a voz nem a si mesma obedece quanto mais a mim que a não fiz, não passo de um carteiro a entregar encomendas que não escrevi nem recebo, passaram-mas assim […] (ND, 532)  
Para muitos ficará, certamente, a proximidade deste romance de Lobo Antunes a factos conhecidos da vida nacional: referimo-nos, evidentemente, ao ocorrido com o Banco Espírito Santo. Todavia, é de referir que este romance, escrito antes desses acontecimentos, faz parte de uma Obra cuja mundividência tende a privilegiar a concepção do texto em relação ao mundo, pois é com palavras que o mundo se pode verbalizar (cf. Seixo et al., 2008:415 e ss). Assim, mesmo que não rejeite aspectos históricos, e com eles se conecte, anunciando que o sistema financeiro, político e social português faliu (como falira a República no tempo de Cícero), este romance (como parte de uma Obra) pretende, acima de tudo, transcender(-se) enquanto palavra que se move, isto é, que se renova a si mesma. O “romance de páginas de espelhos”, que António Lobo Antunes disse um dia projectar (LC, 52), seria aquele em que o leitor visse o passado, o presente e o futuro. A transcendência de uma Obra resulta, antes de mais, do facto de as grandes Obras serem “antecipação de um em-si que ainda não existe” (Adorno, 2003:124). É isso que as aproxima da natureza dos deuses.


Bibliografia:

ANTUNES, António Lobo, Da Natureza dos Deuses (ND) (provas gentilmente cedidas pelo autor e pela editora), Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2015. 
___________Livro de Crónicas (SLC) 9ª edição/edição ne varietur, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2013 [1998]. 
___________Segundo Livro de Crónicas (SLC) 2ª edição/ 1ª edição ne varietur, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2007 [2002].
ADORNO, Theodor, Teoria Estética (trad. Artur Mourão do original Aesthetische Theorie), Lisboa, Edições 70, 2008.
CAMMAERT, Felipe, L’ Écriture de la Mémoire Dans L’Oeuvre d’António Lobo Antunes et de Claude Simon, Paris, L’Harmattan, 2009.
CARVALHO, Susana João, António Lobo Antunes: A Desordem Natural do Olhar, Lisboa, Texto, 2014.
CÍCERO, Marco Túlio, Da Natureza dos Deuses (trad. e notas Pedro Braga Falcão) Lisboa, Nova Veja, 2004.
DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Félix, O Anti-Édipo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2004 [1972]. PROUST, Marcel, À Sombra das Raparigas Em Flor (Volume II de À Procura do Tempo Perdido), tradução de Pedro Tamen, Lisboa, Relógio D’ Água, 2003.
SEIXO, Maria Alzira, Os Romances de António Lobo Antunes, Lisboa, D. Quixote, 2002.
SEIXO, Maria Alzira, ABREU, Graça, CABRAL, Eunice, AFONSO, Maria Fernanda, SOUSA, Sérgio Guimarães de, e VIEIRA, Agripina Carriço, Dicionário da Obra de António Lobo Antunes(volume II), Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008.


por Norberto do Vale Cardoso
texto publicado na Revista Colóquio/Letras, n.º 190, Set. 2015, p. 131-135

[revisão segundo ortografia antes de AO90 por José Alexandre Ramos]

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