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Claudio Magris disserta sobre a obra de António Lobo Antunes (Il Corriere della Sera)

António Lobo Antunes: o Minotauro no seu labirinto

Claudio Magris, ensaísta e escritor italiano
sugerido para o Prémio Nobel
As grandes ficções do séc. XX, escreveu Raffaele La Capria, são "obras falhadas". Não por culpa dos seus autores, certamente - em que se encontram o maiores escritores de cada época - Musil, Kafka, Faulkner, Joyce, Svevo e muitos outros mais, entre eles alguns latino-americanos -, mas precisamente pela grandeza e verdade de tais obras. São essas grandes narrativas que têm enfrentado, narrado e assumido, na sua própria estrutura, a verdade da sua época e da nossa, a degradação do mundo, o eclipse de um signo central capaz de dar unidade e racionalidade às vicissitudes individuais e colectivas, a desconstrução linear do tempo. O romance da nossa vida é um vasto oceano conradiano; um redemoinho que absorve, separa e dispersa as histórias e do eu que as vive. Abriu-se um abismo entre a História e escrever histórias. O historiador e as pessoas comuns, quando se trata de entender o que lhes sucedeu e vai-lhes sucedendo, mais não pode fazer que tentar ordenar os factos e o seu significado; mas quando se narra como o faz o sujeito individual - de acordo com as palavras de Manzoni -, o eu vive esses acontecimentos e acaba ou integrado ou desagragado por eles. O narrador não é capaz por narrar a História vivida senão através desse pesadelo a que Joyce se refereria ou como na inconexa série de acontecimentos de O Tambor [de Günter Grass].

A linguagem racional com que devemos tentar falar, por exemplo, da crise económica, não pode ser a mesma com a que se narra a história de um indivíduo aniquilado por tal crise, tendo em conta a sua angústia e os seus delírios. No romance do séc. XIX, maior ou menor, a acção do indivíduo era narrada numa história difícil mas não absurda; e o escritor novecentista, quando criava as suas histórias, confiava numa escrita semelhante à que com a qual travava as suas batalhas políticas. A escrita de Victor Hugo em Os Miseráveis não é muito diferente da que usava nas suas querelas com Napoleão III. Contrariamente, Kafka não teria escrito A Metamorfose ou O Processo com o mesmo estilo de uma comunicação quotidiana ou de qualquer declaração política. A história de Elsa Morante é apenas a grande e irrepetível excepção. Este contraste é, ainda hoje, e até cada vez mais, a nossa verdade, que reencontramos, não obstante a distância de quase um século, em O Homem Sem Qualidades [Musil] ou em Absalão, Absalão! [Faulkner], e certamente não a vemos na retrógada restauração do romance bem feito, que tende ir ao encontro do leitor em vez de desafiá-lo, em pé de igualdade, no conflito com o mundo. Actualmente, citando, num outro sentido, o título de um livro de Corrado Stajano, os mestres só podem ser mestres do dilúvio, esse dilúvio universal no qual, observava perspicazmente Santo António de Pádua, unicamente os peixes estão a salvo da morte. António Lobo Antunes é, na actualidade, um desses prodigiosos e fascinantes mestres.

Psiquiatra nascido em Lisboa no ano de 1942, Lobo Antunes conheceu, viveu, e da sua própria experiência, das suas reacções sentimentais conscientes e inconscientes, e, por fim, da sua escrita, o coração das tenebrosas últimas guerras coloniais portuguesas em África, redemoinho de uma História como uma artéria obstruída pelo seu próprio sangue, proliferação cancerígena de tragédias, violências, dores, doces sentimentos perdidos, personagens, paixões e pensamentos narrados com uma poderosa força fantástica, que emergem de uma confusa noite à qual se voltam a fundir. A guerra em África influi numa trilogia que vai desde Memória de Elefante (1979) a Conhecimento do Inferno (1980) e várias outras obras posteriores como Boa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo (2003), sendo um pano de fundo obscuro sempre presente mesmo não sendo formalmente evocada. Como um antigo clássico, Lobo Antunes reune e dita a memória histórica do seu país, Portugal: Explicação dos Pássaros (1981) e O Esplendor de Portugal (1997) ilustram, num outro registo, os anos entre a queda da ditadura de Salazar e uma nova realidade ainda por se valorizar. Na História se fundem também as histórias das personagens de As Naus (1988) ou de O Manual dos Inquisidores (1996). Porém, esta memória, total e por sua vez dispersa num pó composto de detalhes, ferozes e dolorosamente insensatos, é como que areia movediça, ou quase como uma monstruosa planta carnívora, engolindo acontecimentos, homens e palavras.

Entusiasta comunista durante algum tempo, Lobo Antunes conheceu o protesto desperado, não a esperança da redenção. História e sociedade tragam os indivíduos, empuram-nos para a inexistência ou para um delírio autista como sucede ao protagonista de Explicação dos Pássaros; a denúncia dos maus tratos nos hospitais psiquiátricos é, sem dúvida, uma implacável denúnica politico-social mas também a denúnica do viver. Para Lobo Antunes, a escrita é um rio que transborda, uma agitação de tantas obras que é quase impossível enumerá-las ao lado da lista de todos os seus tradutores. Memória de Elefante, a par da sua obra-prima O Arquipélago da Insónia (2008), é uma surrealista e perturbadora abolição do tempo. As personagens não se distinguem dos seus retratos; as gerações convivem, para além da casualidade da vida e da morte, numa co-presença atemporal: todas as palavras proferidas ao longo de anos e décadas, as acções e as violências cometidas por um patriarca e por demais senhores contra os oprmidos, irrepetíveis na sua dor mas idênticas como que folhas caídas e putrefactas, eternamente presentes como se contam os anos pelos círculos dos troncos das árvores.

Lobo Antunes leva quase ao extremo a dilatação e a contracção do tempo, foice inexorável e oxidada, o redemoinho do monólogo interior e do fluxo de consciência que tudo absorve e avassala. A perspectiva narrativa, a pontuação, a unidade da frase, a sintaxe, o mesmo espaço gráfico, tudo colocado numa diferente ordem dessa nova argamassa que é a vida inteira. Tudo é uma aglomeração de fragmentos nos quais está sempre presente o todo; não existe diferença entre vivos e mortos, como no romance Pedro Páramos do grande mexicano Juan Rulfo e, quem sabe, na mente de Deus, na qual não há diferença entre ontem e amanhã. Antunes é um grande épico uma vez que apanha o pleno, a totalidade. Sejam dadas graças a tradutores como Vittoria Martinero e Rita Desti, sempre culpavel e ignorantemente esquecidos - como acontece com todos os tradutores da nossa incultura -, que nos permitem ler em toda a sua força um grande escritor visionário; tradutores que demosntram uma criatividade linguística tão digna como a do escritor.

ALA, duque de Crocodilos
do Reino de Rendonda
Apenas por uma vez, em Barcelona, me encontrei fugazmente com Lobo Antunes, apesar de sermos ambos duques do fantástico Reino de Redonda em cujo trono se senta Javier Marías; [Lobo Antunes] o duque de Crocodilos, e eu duque de Segunda Mão. Creio que para ele, viver é escrever, só escrever, sempre escrever, tecer uma enorme teia de palavras esperando nunca poder sair dela; viver para escrever e escrever para não viver, construir labirintos sem necessidade de um minotauro no centro, já que a vida está cheia de minotauros; estão por todos os lados prontos a devorar as suas vítimas. Talvez o escritor, dentro do labirinto das suas palavras, seja, precisamente, o Minotauro.


artigo de Claudio Magris
22.01.2014

traduzido do italiano para castelhano por María Teresa Meneses
traduzido do castelhano para português por Joana de Paulo Diniz

ligações e fotos resultantes da tradução para português


Agradecemos a Cristina Ferreira de Almeida e Maria da Piedade Ferreira pela notificação a este artigo na versão em castelhano de Maria Teresa Meneses no site Milenio

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