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Folha de São Paulo: «Catador de Memória»

«Principal autor português vivo, Lobo Antunes fala de literatura e de seu romance com traços autobiográficos»

[notícia da Folha de São Paulo a propósito da edição brasileira de Sôbolos Rios Que Vão]

foto de Marta Perez

O texto transborda lirismo e é um turbilhão de memórias entrelaçadas em vários tempos. No leito de um hospital, um homem com "cancro" lembra sua trajectória, projectando um transe.
Assim é "Sôbolos Rios que Vão", livro do premiado escritor português António Lobo Antunes, lançado agora no Brasil pela Alfaguara. O título vem de um verso de Luís de Camões (1524-1580).
Sôbolos é uma antiga contração de "sobre" com "o"; significa em cima. No poema e no livro o leitor navega pelas turbulências da vida.
Ligo para Lisboa e pergunto a Lobo Antunes se o livro é autobiográfico, já que ele também teve um câncer anos atrás e o narrador aparece como sendo "Antoninho".
"Não, mas tem tudo a ver com a minha experiência, porque nós só falamos de nós mesmos. A imaginação não é mais do que a forma como você arranja os materiais da memória. Não há imaginação. Há memória", pontifica.
E explica: "Foram os neurocientistas que descobriram isso. Se uma pessoa tem um acidente vascular cerebral e fica privada de memória, não consegue escrever. Fica sem imaginação".
Câncer, tuberculose, guerra - o escritor já viveu fortes experiências. Mas, para ele, "o que marca profundamente uma pessoa são coisas nas quais não reparamos quando vivemos; coisas pequeninas, um olhar ocasional na rua. O problema é transfigurar isso".
Lobo Antunes acha que o seu trabalho é como o das pessoas que vagam pelas ruas remexendo latas de lixo. Naquilo que os outros jogam fora é que ele diz buscar material para escrever.
E o que ele escreve? "Tenho dúvida se se pode chamar de romance o que escrevo. Não me interessa contar uma história. Não me interessam personagens. A única coisa que me interessa é tentar colocar a vida inteira dentro das capas de um livro."
Ele rejeita a crítica de que seus livros são difíceis. "O problema é que o leitor normalmente abre o livro com sua chave, feita das suas experiências. Um livro bom tem a chave dele. Então é preciso abrir o livro com a chave do livro, não com a sua."
Lobo Antunes conta que a primeira vez que leu Joseph Conrad (1857-1924) não percebeu nada. "O livro não é uma coisa que fala, é uma coisa que ouve. É a orelha que você encosta na terra para ouvir o mundo. Você tem que ficar doente do livro."
Para ele, "normalmente o livro começa a caminhar dentro de você quando a leitura acaba. Os livros bons são os que têm insónias. Você se levanta à noite para beber água e passa na biblioteca às escuras. Os livros estão a dormir. Mas 'Os Irmãos Karamázov' estão a olhar para você".


19.07.2012

texto de Eleonora de Lucena
foto de Marta Pérez / EFE

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