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Evelyn Blaut Fernandes: Por um inferno histórico


Resumo: Por um inferno histórico trata do romance Conhecimento do Inferno (1980), do escritor português António Lobo Antunes. O livro encerra a primeira trilogia do autor e privilegia as temáticas da Guerra Colonial em África (1961-1975) e do hospital psiquiátrico em Lisboa como topos do locus horrendus clássico. A partir de uma possível comparação entre a Guerra e a Psiquiatria como experiências atrozes, pretende-se estudar o hospital psiquiátrico, na narrativa, como metáfora do inferno e metonímia do país. Palavras-chave: Romance Português Contemporâneo; Inferno; História.
 

Estamos debaixo da terra, sabe? Isto aqui é o
purgatório dos vivos, cheio de gente a arder.

(António Lobo Antunes. Conhecimento do Inferno).
 

O que fazer quando se está diante de um autor que não privilegia o espaço da casa – ideia tão cara aos portugueses – como um simulacro do seu texto, mas elege um hospício para simbolizar o seu país? É o que faz António Lobo Antunes, no seu Conhecimento do Inferno, romance que aborda, de uma forma geral, o Portugal pós-colonial como espaço, a viagem e a linguagem como conhecimento e o inferno como metáfora.

Fialho de Almeida, escritor do Decadentismo português, médico por formação e escritor por vocação, acabou como crítico por exercer o papel do médico que traça o diagnóstico das doenças, não dos indivíduos, mas da sociedade portuguesa finissecular. Habituado desde a adolescência aos preparos farmacêuticos, Fialho trazia seu conhecimento de medicina para aplicar, pelas letras, no corpo doente do país. A sua formação médica contribuiu para que o escritor oitocentista visse os indivíduos, sobretudo, como casos clínicos e o mundo como um grande hospital.

Do mesmo modo, Lobo Antunes, que também fez da medicina a sua formação profissional, privilegia, neste romance, o espaço de um hospício e, neste sentido, talvez, a crítica seja mais grave, mas indubitavelmente lúcida e pertinente, já que não se está mais a perceber, pela crítica do escritor, um país de doentes, mas de doentes mentais: uma “nação decrépita e louca” , pelas palavras de Oliveira Martins, historiador do século XIX.

António Lobo Antunes, que esteve em Angola entre 1971 e 1973, como clínico de um batalhão operacional, regressando de África, especializou-se em Psiquiatria e exerceu funções no Hospital Miguel Bombarda. O próprio escritor, ou melhor, o narrador-personagem de Conhecimento do Inferno , também psiquiatra, justifica a sua escolha por essa especialidade médica:

ao observar a sua estranha naturalidade e a estupefacção entre o riso e o alarme dos outros, decidira ser psiquiatra para entender melhor (..) a esquisita forma de viver dos adultos (...) resolveu ser psiquiatra a fim de morar entre homens distorcidos como os que nos visitam nos sonhos e compreender as suas falas lunares e os comovidos ou rancorosos aquários dos seus cérebros, em que andam, moribundos, os peixes do pavor(CI, p. 17-18).

A presença da medicina, neste romance de Lobo Antunes, parece ser, para além de um dado autobiográfico, uma forma de contestação pela constatação. Sendo escritor, ele é, sobretudo, um observador das relações humanas e, por isso, o Conhecimento do Infernoaponta, de algum modo, para a necessidade de reconstituição de uma pátria falida. Porque o escritor do século XX não se esquece da existência de uma imagética organicista da nação doente, apodrecida e espectral, abordada, principalmente, no século XIX português, e, portanto, descreve a nação não só como um corpo doente, mas, de certa forma na esteira de Antero de Quental, como um espírito bloqueado.

É assim que o escritor português constrói, do seu modo, uma representação para um inferno histórico. António Lobo Antunes, em 1980, a partir da sua experiência vivida em campos de batalha em África e no Hospital Miguel Bombarda em Lisboa, traça o contorno de um inferno relacionado ao topos do locus horrendus clássico, ao trazer para as suas páginas o frio e a sujeira, o sofrimento e a desolação.

Conhecimento do Inferno é o nome do livro que encerra a primeira trilogia de António Lobo Antunes, cuja proposta central talvez seja a da reflexão sobre o poder e o seu exercício fascista. De índole autobiográfica, os três primeiros romances compõem uma espécie de “trilogia da memória”, memória que perpassa dois lugares fulcrais da existência do narrador-personagem. Angola e Lisboa são, pois, espaços que suscitam os dois planos da memória do narrador-personagem – o da guerra e o do hospital, respectivamente. Assim, os três primeiros livros de António Lobo Antunes – Memória de Elefante (1979), Os Cus de Judas (1979) e Conhecimento do Inferno (1980) – ocupam-se das temáticas por ele experienciadas: a guerra colonial, o exercício da psiquiatria, os laços familiares, a perturbada e problemática relação do ser com o mundo após o regresso da guerra e, também, a questão da crise de identidade causada pela guerra colonial e pelas práticas do colonialismo.

O último romance desta trilogia dá conta da trajetória solitária de um médico psiquiatra que traz à tona, durante a sua viagem da Balaia, no Algarve à Praia das Maças, em Lisboa, pensamentos e lembranças que condensam sua atividade clínica num hospital psiquiátrico e a sua estadia em África, na época da guerra colonial portuguesa. Todo narrado como um monólogo interior, o protagonista do romance é, pois, um ex-combatente, aspirante a escritor e em ruptura com o seu casamento. O percurso, que dura parte da tarde e parte da noite de um único dia, empreendido por este personagem, sozinho, de carro, por Portugal, é uma viagem de retorno à casa dos pais: “Devia ir à Praia das Maçãs buscar os meus livros, a minha roupa, os meus papéis, e regressar no dia seguinte ao hospital e ao meu trabalho de carcereiro, monótono e inútil” (CI, p.262-263).

Condensando memórias e relatos referentes às experiências da guerra e do exercício da psiquiatria, em algum momento do romance, o narrador-personagem se dá conta de que o hospital psiquiátrico, como principal ponto de convergência das linhas de construção ficcional, funciona como microcosmo sombrio e negativo do país e assume a condição de lugar infernal, local de aprisionamento e “acumulação grotesca de corpos em ruína” (Oliveira, 2004:212). Esta experiência, segundo o narrador-personagem, supera em horror e desumanidade, a experiência da guerra em África:

E só em 1973, quando cheguei ao Hospital Miguel Bombarda para iniciar a longa travessia do inferno, verifiquei que a noite desaparece de facto da cidade, das praças, das ruas, dos jardins e dos cemitérios da cidade, para se refugiar nos ângulos das enfermarias, como os morcegos, nos globos do texto das enfermarias e nos velhos e esbeiçados armários de medicamentos, nos aparelhos de electrochoque, nos baldes de pensos nas caixas de seringas, até os internados regressarem em silêncio do refeitório e ocuparem as camas de ferro por pintar, o servente rodar o comutador da luz e ela desdobrar o feltro nojento das asas, o feltro nojento e pegajoso das asas sobre os homens deitados que a fitam de entre os lençóis numa irreprimível náusea. A noite que desaparece da cidade estava no rosto inclinado para o ombro do doente que se enforcou por detrás das garagens e cujas sapatilhas rotas oscilavam de leve à altura do meu queixo, estava nos óbitos que verificava nas horas de serviço, passando o diafragma gelado do estetoscópio por peitos imóveis como barcos finalmente ancorados, estava nas feições atónitas dos vivos encerrados nos muros e nas grades do asilo, na poeira dos pátios de Verão, nas fachadas das casas em volta. Em 1973, eu regressara da guerra e sabia de feridos, do latir de gemidos na picada, de explosões, de tiros, de minas, de ventres esquartejados pela explosão das armadilhas, sabia de prisioneiros e de bebés assassinados, sabia do sangue derramado e da saudade, mas fora-me poupado o conhecimento do inferno. (CI, p.27-28).

Considerado pela crítica como um dos livros mais atrozes de António Lobo Antunes, cujas cenas de carnificina constituem a paisagem da violência vivida na guerra e no hospital, oConhecimento do Inferno traz imagens insuportáveis. O que parece ser peculiarmente fascinante, em António Lobo Antunes , é que, no seu romance, todos, colonizadores e colonizados, médicos e pacientes invariavelmente sofrem, vivem (n)o inferno. Por isso, todo discurso sobre a violência é ambivalente, como explica Jacques Leenhardt, no Prefácio ao Violência e Literatura, de Ronaldo Lima Lins: “Daí que todo discurso sobre a violência é dela necessariamente uma representação e não uma descrição, mostrando-se, por essência, da ordem da ficção. É por essa via, enfim, que violência e literatura se acham tão intimamente ligadas” (1990:15).

É, portanto, possível afirmar que o Conhecimento do Inferno pode ser lido pelo viés da atrocidade , uma vez que o seu autor fez refletir na sua literatura a realidade insuportável da segunda metade do século XX português, concentrando-se nas temáticas da guerra colonial e da psiquiatria. Reconstruindo um universo de violência, este romance de Lobo Antunes constitui um espaço literário que abriga o horror e o sofrimento e aborda, de forma cáustica e humana, o que, para Ronaldo Lima Lins, consiste na grande temática do nosso tempo: a violência. Por tratar de temas que fazem parte da memória cultural de um país, mas questionando, também, conceitos que perpassam e interessam a toda a humanidade, como a violência, a destruição humana, a alteridade e a morte, oConhecimento do Inferno “reflete a vida e reflete sobre a vida” (Lins, 1990:31):

O século da bomba atómica é também, como não poderia deixar de ser, o século dos temas e das narrativas explosivas. É o século em que nos indignamos contra a opressão e endereçamos nosso pensamento no sentido de solucioná-la mesmo que para tanto tenhamos de enfrentar a dor. Que outra literatura esperar da nossa força criativa? (Lins, 1990:26).

Mas, unido ao viés da atrocidade, António Lobo Antunes constrói uma ficção de tratamento poético. Para um autor que entende os seus romances como possíveis “textos poemáticos” , o Conhecimento do Inferno pode ser lido, deste modo, como um romance de carga lírica e fisionomia saturnina. Segundo João Barrento, o “astro baço”, “este ‘estranho estado de alma' da poesia portuguesa em tempo de mal-estar, terá aberto o caminho a essa forte presença da melancolia como disposição e dispositivo poético” (1995:159). A escrita de Lobo Antunes dá conta, portanto, de um estado de alma e de um estado político melancólico e de temperamento sombrio. O seu romance nada mais é que a representação dessa linha de tristeza pessoal e coletiva que transforma, de maneira poética, a apoteose da decadência em espetáculo risível do sofrimento humano:

Há médicos, Joana, cruéis e trágicos como anões, como aleijados, como corcundas, como músicos soprando trombone de varas na cauda dos cortejos, entre anjos que choram e feios Cristos de pastas. Cruéis, trágicos e comedidos voam com as rémiges das batas brancas em torno do balão de soro do sol. Sempre que uma pessoa vai morrer agrupam-se, guiados por qualquer estranho instinto de insectos, à volta de um doente emagrecido e pálido, compulsando alegremente radiografias, análises, relatórios de biopsia, prontos a discutir aquilo que denominam eufemisticamente um caso bonito: cancros complicados, leucemias esquisitas, infecções incuráveis, farejando radiantes a iminência de um cadáver (CI, p. 213).

Mas o que possa mais nos interessar nesta narrativa de Lobo Antunes é, talvez, a sua proposta que vai na contramão de um pensamento filosófico a partir das relações de poder. Roberto Machado, no Prefácio ao Microfísica do Poder , de Michel Foucault, no que tange às relações entre saber e poder, assegura:

Não há relação de poder sem constituição de um campo de saber, como também, reciprocamente, todo saber constitui novas relações de poder. Todo ponto de exercício do poder é, ao mesmo tempo, um lugar de formação de saber. É assim que o hospital não é apenas local de cura, ‘máquina de curar', mas também instrumento de produção, acúmulo e transmissão do saber. Do mesmo modo que a escola está na origem da pedagogia, a prisão da criminologia, o hospício da psiquiatria. E, em contrapartida, todo saber assegura o exercício de um poder (1986: XXI-XXII).

Deste modo, se o hospital psiquiátrico é, segundo uma tradição filosófica que passa por Michel Foucault, lugar onde uma relação específica de poder mantém indivíduos enclausurados e detidos com uma tecnologia própria de controle, Lobo Antunes, atenciosamente humano, mostra uma outra forma de saber, ou antes, inverte as posições canônicas e bilaterais em que se encontram médicos e pacientes, poderosos e sem poder, saudáveis e ensandecidos. Como bem observa Ronaldo lima Lins, “impedir que o outro saiba significa impedir que o outro tenha acesso, algum dia, ao poder” (1990:171). Lobo Antunes, portanto, inverte tal situação hierárquica de um modo, a meu ver, particularmente, terno e poético:

Nas reuniões do hospital, de dia, assaltava-o a impressão esquisita de que eram os doentes quem tratavam os psiquiatras com a delicadeza que a aprendizagem da dor lhes traz, que os doentes fingiam ser doentes para ajudar os psiquiatras, iludir um pouco a sua triste condição de cadáveres que se ignoram, de mortos que se supõem vivos e cirandam lentamente pelos corredores na gravidade comedida dos espectros, não os espectros autênticos, os que às varandas das casas abandonadas espiam o movimento da rua ocultos pela renda das cortinas, mas espectros falsos, de suíças de estopa e narizes de cartão, espectros ridículos opados de sabedoria inútil (CI, p. 64).

A experiência colonial faz parte da História Portuguesa e da história pessoal de António Lobo Antunes. De importância determinante na obra deste autor, principalmente, dos seus três primeiros livros, a questão colonial aparece como o sofrimento daquele que não quer se destruir nem destruir o outro, o confronto com a morte, a separação da família e da pátria, o abandono irremissível a que são relegados os retornados da guerra colonial em África e o provável não-lugar ocupado pelos que dela regressam, já que o olhar sobre África define uma distância suficientemente estrangeira, enquanto a impressão que se tem quando da volta a Portugal, é a da dúvida com relação ao sentimento de pertença. Neste sentido, a obra de António Lobo Antunes pode ser considerada um espaço literário privilegiado para o estudo dessas relações humanas.

A guerra colonial em África durou quinze anos e foi mobilizada por um país economicamente desfasado, politicamente falido e industrialmente atrasado. Demasiado longa, violenta e sem vencedores, a guerra colonial portuguesa foi silenciada e ignorada tematicamente pelo resto do mundo, abafada pela Guerra do Vietname, mundialmente mais importante, já que lideravam esta batalha China e Vietname, de um lado, e Estados Unidos, de outro. A guerra colonial portuguesa foi uma guerra histórica e simbolizou o fim de cinco séculos de ocupação. Ficcionalizar uma guerra de opressão e nunca de pacificação não deve ser, portanto, uma fácil tarefa, porque terá que fazer da escrita um reflexo da experiência vivida. Nas narrativas de António Lobo Antunes, de um modo geral, a ficcionalização da guerra colonial revela uma nova visão de um país desejado e criticado. Se o distanciamento possibilita uma crítica ferrenha, só um imenso amor pela sua pátria pode permitir uma visão tão clara e intensa do seu país.

O retorno de África foi vivido pelos portugueses que estiveram na guerra de forma extremamente traumática, uma vez que o espaço metropolitano tornou-os cidadãos marginalizados e relegados ao sentimento de perda da pátria pela experiência colonial vivida em outra terra. Mas o que Lobo Antunes parece querer mostrar, e no Conhecimento do Inferno isto está, de algum modo, claro, é que se viver meses de guerra em África provoca uma sensação de não pertencimento da pátria, retornar a Portugal acaba sendo, pelas suas letras, uma experiência muito mais violenta.

No Conhecimento do Inferno, a experiência colonial surge como um dos espaços revisitados pela memória do narrador-protagonista. Pode-se dizer que este romance condensa, sobretudo, três temas que, de algum modo, se cruzam com a vivência do seu autor. São eles: a guerra de África, o hospital psiquiátrico como “universo concentracionário” e “exemplo de uma realidade esquizofrénica” e, ainda, a incapacidade de amar. Este texto pode ser um exemplo emblemático da problemática da literatura pós-colonial, mas o que mais pode nos interessar, nesta narrativa, talvez seja uma outra guerra, mais brutal, mais sofrida, constantemente comparada, pelo narrador, aos campos de concentração nazista. E viver o inferno do hospital leva o protagonista a voltar-se para Angola com olhar reminiscente:

tenho quase saudades da guerra porque na guerra, ao menos, as coisas são simples: trata-se de tentar não morrer, de tentar durar, e achamo-nos de tal modo ocupados por essa enorme, desesperante, trágica tarefa, que nos não sobra tempo para perversidades e pulhices (CI, p.96-97).

Em Conhecimento do Inferno, cruas cenas de carnificina se cruzam com a loucura dos que adoeceram, com a loucura dos médicos que, assim como os pides na guerra, não passam de carrascos, “carrascos de cadáveres, carrascos destes cadáveres inertes e moles, destes cadáveres calados, abstractos, indefesos, imóveis nos quartos na leveza das estátuas” (CI, p. 102).

O hospital é-nos apresentado, bem como o espaço da guerra, como lugar onde o poder é concebido como violência legalizada. “O poder”, ensina Roberto Machado (1986:XV), “é luta, afrontamento, relação de força, situação estratégica. (...) Ele se exerce, se disputa. E não é uma relação unívoca, unilateral; nessa disputa ou se ganha ou se perde”. E, no caso português, irremediavelmente, seja no hospício, seja na guerra sofrida em outro território, não há ganho, ninguém vence. Definitivamente, este não é um livro que elege vencedores e perdedores. Todos, ao contrário, estão humanamente desgraçados e sofrem com a realidade vivenciada.

Conduzido a viver uma experiência de alteridade, o jovem combatente é enviado a África, e foi isso o que aconteceu a António Lobo Antunes e ao narrador-protagonista doConhecimento do Inferno. Lutando, no final de contas, contra si mesmo, contra a sua ideia de independência das colônias, o combatente é enviado a África para guerrear ou cuidar de feridos, alienado do absurdo, de no final do século XX, alguns países africanos ainda serem mantidos como colônias, e de outro absurdo igualmente bizarro, de que Portugal, conseguindo ainda colonizar outras nações, era também ele colonizado, dada a situação político-econômica precária do país, por potências estrangeiras ocidentais.

Deste modo, o jovem combatente parte para África, politicamente alienado, e só depois do regresso à pátria, é que passará por um processo de “sensibilidade pós-colonial” (Seixo, 2002:85), relatando, numa espécie de confessionário interno, as suas atitudes desumanas, tanto na guerra, como no hospital.

Não tinha coragem de me mandar à merda para não me mandar à merda, de mandar à merda a medicina, a psicanálise, os tranquilizantes, os antidepressivos, a psicoterapia, o psicodrama, a puta que os pariu. Recebia o cheque pontualmente todos os meses e fingia acreditar no meu trabalho. Fingia acreditar na insulina, nas curas de sono, na terapêutica ocupacional, fingia acreditar nos psiquiatras e instalava-me atrás da secretária no edifício da Caixa do Montijo, perto da escola e das amoreiras antigas do largo, a fim de receitar pílulas que ajudassem os chacineiros, as operárias da cortiça, os camponeses que aravam em vão o nevoeiro e a humidade, imersos no odor putrefacto, enjoativo, do rio, a durarem sem sonhos até à madrugada seguinte, pálida e gelada como o olhar de vidro cego dos defuntos (CI, p. 168-169).

Com teor autopunitivo, uma espécie de auto-culpabilização, o narrador-personagem arrepende-se, a posteriori , pelas atrocidades cometidas por ele na guerra e no hospital psiquiátrico. Daí porque o narrador-personagem de Conhecimento do Inferno será confundido com um internado, sendo, portanto, igualmente humilhado e torturado pelos médicos. Talvez não seja gratuito que ele tenha sido confundido com um doente no mesmo capítulo em que recorda dos abusos que ele mesmo havia cometido, na guerra e no hospital psiquiátrico. E isto não pode ser lido de outro modo que não seja uma forma de auto-crítica:

De forma que quando o enfermeiro se aproximou de mim de seringa armada e me ordenou
- Ora baixa lá as calcinhas ó artista
desfiz o laço de nastro do pijama e ofereci as nádegas à agulha como se tentasse pagar um pecado inexpiável
 (CI, p. 170).

António Lobo Antunes introduz, neste romance, a imagística do inferno, correlacionando-a com a doença, o sofrimento dos doentes e a indiferença dos médicos, a crueldade e a solidão, sempre relacionada com a guerra colonial, mas, sobretudo, com a experiência do manicómio, que, pior que a guerra, pode ser entendida como o microcosmo de um país doente.

Uma tradição oitocentista, que passa por Oliveira Martins, descreve a nação portuguesa como aquela composta por uma “rainha doida”, por “altas classes ensandecidas”, por um “povo faminto, indiferente e sebastianista”, uma pátria que “nem já era o esqueleto: era apenas o pó de um cadáver” (Martins, 1977:516). Como afirma Ronaldo Lima Lins, “a partir do século XIX, a grande viagem realizada pela criação literária em seu conjunto indicará, ao mesmo tempo, uma descida ao inferno, um inferno que arderá fora e dentro de nós” (Lins, 1990:211).

Conhecimento do Inferno apresenta, pois, uma importante lateralidade: se a história da Literatura Portuguesa ergueu, com mestria, a imagem de Portugal como um país de viajantes, Lobo Antunes, seguindo uma linhagem, especialmente do decadentismo português, reafirma a imagem de um país de doentes, o que não deixa de ser uma forma de inserir no seu texto ficcional algum discurso histórico.

Se a linhagem existencialista de Sartre e o pensamento psicanalítico de Freud consideram ser o outro o inferno, Lobo Antunes acaba por lançar, em ficção, a teoria de que, talvez, a relação mais difícil de ser mantida pelo ser humano é consigo mesmo, reconhecendo que “o pior caos se esconde no interior da alma” (Lins, 1990:204). É como se o Conhecimento do Inferno anunciasse que o inferno não são os outros, somos “nós”: “nós” portugueses, numa dimensão nacional, e nós humanos, numa dimensão ontológica. Neste sentido, Lobo Antunes apresenta, na sua narrativa, um inferno historicamente datado vivido pelo Portugal dos anos 60 e 70 que foi a guerra colonial em África, mas também acaba por afirmar que, sendo o hospital em Lisboa o núcleo central do romance, a pior relação que pode haver, não é a do eu com o outro (no caso, portugueses e africanos, colonizadores e colonizados, médicos e pacientes), mas do homem consigo mesmo e, neste sentido, não é privilégio dos portugueses estar detido ou ser detentor de um inferno, já que cada ser humano abriga em si o seu inferno: “o inferno, afinal, não se situava no além. Estava nas ruas, em casa, nas pessoas, em toda parte” (Lins, 1990:210):

talvez que a guerra continue, de uma outra forma, dentro de nós, talvez que eu prossiga unicamente ocupado com a enorme, desesperante, trágica tarefa de durar, de durar sem protestos, sem revolta, de durar a medo como os doentes da 5ª enfermaria do Hospital Miguel Bombarda, fitando os psiquiatras num estranho misto de esperança e terror (CI, p.97).

Lobo Antunes fala, em seu livro, de homens doentes que representam, metonimicamente, uma nação e um mundo doentes. Contudo, não se trata de qualquer doença, já que o fio condutor do romance está atado a um espaço sintomático que é o hospício. Deste modo, o romance de Lobo Antunes está a tratar de “homens distorcidos” (CI, 1983:17), e, por extensão, de uma nação doida. Procurando responder a pergunta “O que é Psiquiatria”, o professor e ensaísta Emmanuel Carneiro Leão acaba por encontrar possíveis caminhos e algumas definições:

umas são demasiado idealistas: reduzem candidamente o esforço da Psiquiatria apenas à busca desinteressada da saúde bio-psico-social dos homens. Então a Psiquiatria é a brancura e limpidez do jaleco dos psiquiatras. Outras são demasiado materialistas: a Psiquiatria não passa de um extraordinário instrumento de dominação a serviço das diversas instâncias de poder. O hospital psiquiátrico é o cárcere de todos os marginais que a repressão dos sistemas ideológicos já não consegue manter marginalizados (2002:76).

A pátria não está doente nem precisa de cura psiquiátrica. Parece que é isto que nos diz o narrador de Conhecimento do Inferno , até porque, para ele, o inferno “são os tratados de Psiquiatria, o inferno é a invenção da loucura pelos médicos, o inferno é esta estupidez de comprimidos, esta incapacidade de amar, esta ausência de esperança” (CI, p.65). E é com um humor ácido, que o narrador faz críticas à Psiquiatria, à Psicanálise, à Psicologia, enfim, aos meios de investigação e de pretensão de cura dos processos mentais humanos.

Sorria da nossa ingenuidade, da nossa inexperiência: há maneiras de se fazer as coisas sem se deixar marcas. Um electrochoque, por exemplo, não deixa marcas. Um coma de insulina não deixa marcas. Dez anos de psicanálise não deixam marcas: são formas educadas de matar as pessoas, formas decentes aceitáveis. Nem uma cicatriz e os cadáveres continuam a falar, a trabalhar, a produzir filhos, definitivamente assassinados mas completamente bons (CI, p. 221-222).

ria dos psicanalistas detentores da verdade a jogarem xadrez na cabeça das pessoas com o seio da mãe e o pénis do pai, e o seio do pai e o pénis da mãe, e o seio do pénis e a mãe do pai, e o peio do seis e o pãe do mai, ria (...) dos que se juntam em círculo para dissertar sobre a angústia e cujas mãos tremem como folhas de olaia, brandidas pela zanga do vento. Ria-me de pensar que éramos os modernos, os sofisticados polícias de agora, e também um pouco os padres, os confessores, o Santo Ofício de agora (...) (CI, p. 131-132).

António Lobo Antunes, com a sua peculiar acidez lírica, inscreve, no Conhecimento do Inferno , o espaço de um hospício que pode ser a metonímia de um país doente e a metáfora de um inferno histórico, numa manifestação estética que privilegia a própria escrita como espaço possível de concentração grotesca e lírica da humanidade. Neste texto ficcional estão inscritas, sobretudo, a “dolorosa aprendizagem da agonia” (Antunes, 2003:43) e a travessia do inferno: “O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos” (Calvino,1990:150).


Referências Bibliográficas

ANTUNES, António Lobo. Conhecimento do Inferno. 6ª edição. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1983.
______. Os Cus de Judas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.
BARRENTO, João. “O astro baço: a poesia portuguesa sob o signo de Saturno”. Colóquio / Letras , nº 135-136, Lisboa, 1995.
CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
LEÃO, Emmanuel Carneiro. “Psiquiatria e Filosofia”. In: Aprendendo a Pensar . 5º edição. Rio de Janeiro: Vozes, 2002, vol. I.
LINS, Ronaldo Lima. Violência e Literatura. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1990.
MACHADO, Roberto. “Por uma genealogia do poder”. In: FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder . 6ª edição. Rio de Janeiro: Graal, 1986.
MARTINS, Oliveira. História de Portugal . Livro Sétimo . Lisboa: Guimarães & C.ª Editores, 1977.
OLIVEIRA, Silvana Maria Pessôa de. “Sob o céu de Lisboa. Espaço e Negatividade na Ficção de António Lobo Antunes”. In: CABRAL, Eunice et alli. (org.). A escrita e o mundo em António Lobo Antunes. Actas do Colóquio Internacional da Universidade de Évora . Lisboa: Dom Quixote, 2004.
RIBEIRO, Margarida Calafate. “Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes: dos ‘Tristes Trópicos' à ‘Feira Cabisbaxa'”. In: Uma história de regressos: império, guerra colonial e pós-colonialismo. Porto: Edições Afrontamento, 2004.
SARTRE, Jean-Paul. Entre quatro paredes. São Paulo: Abril Cultural, 1977.
SEIXO, Maria Alzira. Os romances de António Lobo Antunes. Lisboa: Dom Quixote, 2002.



por Evelyn Blaut Fernandes
da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro
Edição nº 13 vol. II Abril-Junho 2007

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Cartas da Guerra, de Ivo Ferrreira, que tem hoje a antestreia antes de chegar às salas a 1 de Setembro, aventura-se a procurar um corpo, para a personagem António e para si próprio, que esteja num lugar que não aquele a que parecia destinado. Delicado e temerário, cria o seu mundo.

Uma “cena original” luminosa: o realizador Ivo M. Ferreira a entrar em casa de madrugada – como contou -, avançando para o quarto, guiado pela voz da mulher grávida, a actriz Margarida Vila-Nova, que lia à sua barriga uma carta. A futura mãe tinha em mãos as páginas de uma das missivas de D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra, o volume que em 2005 juntou as cartas escritas pelo alferes médico António Lobo Antunes, de 28 anos e destacado logo após a conclusão do curso de Medicina para uma comissão de serviço em Angola (1971-1973), à mulher grávida que deixara em Lisboa, Maria José.
Mesmo correndo o risco de a “cena” se imobilizar como cliché à força de tanto ser “vista” (mas é belíssima, …