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Gonçalo Mira: opinião sobre Os Cus de Judas


Segundo romance a ser publicado por António Lobo Antunes, no mesmo ano de Memória de Elefante (1979), Os Cus de Judas mantém o cunho marcadamente autobiográfico. Se no primeiro romance se abordava mais a separação do autor da sua mulher e o seu trabalho enquanto psiquiatra, neste segundo romance o tema dominante é a guerra colonial em Angola, na qual António Lobo Antunes participou.
Logo aqui, Os Cus de Judas ganha pontos em relação ao seu antecessor: a guerra colonial é, sem grandes dúvidas, um tema bastante mais forte. Embora o livro principie com um ritmo mais lento, acaba por assumir uma maior velocidade à medida que a guerra vai assumindo o papel principal da narrativa. A história é narrada por um homem (a personagem autobiográfica) que se dirige a uma mulher que este tenta conquistar. Desenrolam-se então em paralelo as duas acções: a do homem com a mulher e a do passado do homem na guerra colonial.

Estilisticamente, Os Cus de Judas difere muito pouco de Memória de Elefante e estão ambos ainda longe do estilo que actualmente caracteriza a escrita deste autor. Eu confesso-me um grande admirador de Lobo Antunes e aprecio bastante o seu estilo dos primeiros romances. No entanto, acredito que os romances mais recentes são livros melhores, se é que se pode classificar livros desta forma.

Neste romance há uma guerra que não faz sentido, há pequenos pormenores que a descrevem muito melhor do que os traços gerais. Lobo Antunes é um pouco isto: o constatar da importância dos pormenores e, acima de tudo, da sua maior importância relativamente aos traços gerais. Resumir uma guerra em meia dúzia de factos pode ser útil, mas dizer quantos milhares ou milhões de mortos houve, nunca causará tanto impacto como os pormenores de determinadas mortes. É que, quer queiramos quer não, um número nunca deixa de ser um número e um pormenor facilmente se transforma numa imagem. E António Lobo Antunes parece sabê-lo muito bem.

Os Cus de Judas é um grande livro de um grande autor da língua portuguesa contemporânea.

por Gonçalo Mira
13.06.2006

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