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Bruno Silva: opinião sobre Exortação Aos Crocodilos


A "Exortação aos Crocodilos" de António Lobo Antunes é um dos mais expoentes trabalhos na carreira deste escritor. O tipo de narração fragmentada é a marca distinta de um livro nada fácil de absorver, e que valeu a António Lobo Antunes a nomeação para Prémio Nobel da Literatura.

Atordoante, pelas múltiplas vozes narrativas, cria um texto delirante mas ao mesmo tempo belo, com uma assombrosa autenticidade estilística. A narração é feita exclusivamente por quatro mulheres que vivem engajadas no mundo de antigos polícias da PIDE que torturam comunistas e organizam atentados de direita movidos por um saudosismo do regime de Salazar. Mimi é surda e só consegue ouvir o som das coisas e não das pessoas, despojada de interesse é escolhida por um milionário para casar. Celina vê-se obrigada a casar ainda cedo com um homem mais velho, como vingança torna-se amante de um milionário (justamente o marido de Mimi). Fátima é sobrinha de um bispo conspirador. Simone, gorda e complexada, encontra alívio para a sua vida miserável no namoro com o motorista de Mimi.

Este trabalho, de Lobo Antunes, possui uma leitura ofegante, a qual nos permite o ingresso na estrutura psíquica das quatro mulheres. Poderíamos dizer, que inspira-se em cada signo o ar irrespirável daquele mundo execrável dos homens, que as mulheres habitam com uma sofreguidão pautada por cada pensamento, cada impulso, cada emoção ou uma mescla organizada e não gratuita de todas essas pulsões, ao mesmo tempo que consegue construir esses "imaginários femininos" com uma ternura e sensibilidade ímpares. Um estilo possuído por uma mestria soberba e que vicia. Um bom exemplo da literatura contemporânea portuguesa que revela domínio da linguagem e na construção romanesca.

A formação de psiquiatra de António Lobo Antunes tem papel preponderante nesta sua obra, que é um lampejo esquizofrénico, um surto de êxtase resultado de uma técnica espantosa. No final, ficamos com a impressão que de o livro não será igual numa segunda leitura e uma segunda leitura recomenda-se.


Bruno Silva
13.07.2006

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