30/12/2015

Leonardo Gandolfi - opinião sobre Não É Meia Noite Quem Quer

António Lobo Antunes demonstra até onde vai a velha e boa arte de narrar

António Lobo Antunes tem chamado a atenção ao disparar duvidosas frases de efeito por aí. A última foi em setembro passado. Em entrevista ao jornal "El País", o autor questionou a qualidade da obra de Fernando Pessoa, criticando o fato de o poeta supostamente nunca ter feito sexo.

Seus livros, no entanto, costumam passar longe dessa duvidosa atenção. A prova é «Não É Meia-Noite Quem Quer». O romance traz como narradora uma mulher - dona de algumas cicatrizes - que volta à casa de praia da infância. Entre lembranças e fantasmas, lá também estão mãe, pai, a amiga, irmãos, avós e ela mesma, com 11 anos.

As personagens importantes da história não têm nome próprio e essa ausência é um dos recursos que ajudam a dar o tom da narrativa. Justamente na intimidade da vida doméstica é que as vozes se confundem. Tal fusão é uma das marcas do estilo de Lobo Antunes. Os diálogos atravessam a história, cortam e compõem a narrativa, ajudando a criar as feridas desta família.

Num livro em que quase todos não têm nome, mas têm voz, a atenção pode se voltar para aqueles que não falam, mas têm nome. É o caso de Ernesto, hipopótamo de pelúcia, que, em seu silêncio de objeto, é testemunha do cotidiano comezinho nesse ambiente onde se inscrevem as marcas de perdas irreparáveis.

O espaço arruinado da casa se confunde com a decadência de um país assombrado, entre outras coisas, pela guerra colonial na África. Aliás, Lobo Antunes - desde os primeiros livros, nos anos 1970 - tem dado voz ao sentimento de desencanto político e cultural em Portugal, que tem a ver com alguns desdobramentos nada eufóricos da Revolução dos Cravos (1974).

«Não É Meia-Noite Quem Quer» está dividido em três partes, cada uma sobre um dia do fim de semana em que a professora se despede de sua velha casa. Este é o único elemento da narrativa em que a ordem cronológica mais convencional se faz ver.

Em cada um dos três dias, a história vai e volta continuamente no intervalo de 40 anos, como se criasse um tempo verbal próprio. Esse ir e vir de épocas acaba por produzir uma estrutura musical com seus movimentos, repetições e variações de frases.

Há também um caráter trágico que dialoga com tal estrutura. Em determinado trecho, a voz infantil - ao entrar numa pastelaria chamada Tebas - pergunta o que significa essa palavra. A voz da mãe diz que se trata de uma cidade grega. A menção a esse cenário das tragédias –que continua ecoando na história - não é gratuita.

Um dos clientes da pastelaria é o irmão surdo da narradora principal. Sendo surdo, ele tem voz e fala, mas sua fala é uma espécie de gaguez que reaparece diversas vezes ao longo do livro. Funciona como refrão dissonante ou como sentença ruidosa que um coro de tragédia anuncia, tragédia que já aconteceu, ou melhor, que está por acontecer.

Certo formato oitocentista de narrativa ainda é o principal modelo do que chamamos, hoje em dia, de romance. Lobo Antunes procura se distanciar desse modelo, dizendo-nos até onde pode ir a velha e boa arte de narrar.


por Leonardo Gandolfi
em Folha Ilustrada
28.12.2015

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