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Sílvia Andrade: António Lobo Antunes e As Naus – Um olhar autocrítico para o redescobrimento de si mesmo

No romance estão presentes dois posicionamentos: a pátria do tempo dos descobrimentos e a pátria contemporânea. O autor busca no passado explicações para a condição actual de Portugal.

António Lobo Antunes é um escritor lisbonense nascido no ano de 1942. Filho primogênito, advindo de uma família burguesa, foi criticado na juventude pelo pai ao manifestar sua vontade em se graduar em Letras. O pai pensava que a vida do filho seria difícil, pois provavelmente actuaria como mestre, sendo mal remunerado em algum liceu. Assim, Lobo Antunes resolve ingressar no curso de Medicina, especializando-se em psiquiatria.

Durante a Guerra Colonial (período de 1961 a 1974), António vai clinicar em Angola e lá se depara com imagens degradantes da guerra. O médico, então, começa a escrever; a literatura surge como um modo de o escritor se distanciar de uma possível depressão. Em 1979, publica dois livros: Memória de Elefante e Os Cus de Judas. Após esses lançamentos, o autor não parou de escrever, totalizando mais de 20 títulos publicados. António Lobo Antunes é vencedor de vários prêmios literários, entre eles estão: Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores; Prêmio de Literatura Europeia do Estado Austríaco, Prêmio Camões entre outros. Os temas mais recorrentes de sua literatura são a solidão, a vida, a morte, a guerra, a crítica à sociedade e  a presença e a ausência do amor. Para muitos leitores, Lobo Antunes não é um autor palatável, pois sua escrita é, muitas vezes, labiríntica, hermética e densa.

Em 1988, António Antunes publica um livro de teor crítico e labiríntico: As Naus. A história é uma narrativa de regresso à pátria, no caso, Portugal. Nesse texto, há inúmeras observações e constatações sobre o passado “vitorioso” do país. No romance estão presentes dois posicionamentos: a pátria do tempo dos descobrimentos e a pátria contemporânea. O autor busca no passado explicações para a condição actual de Portugal.

Sobre esse prisma, a narrativa vai tecendo-se através de um narrador que não é fixo, às vezes está em primeira pessoa e, em outras, em terceira pessoa. O tempo narrativo é uma combinação entre passado e presente; ao passo que há ilustrações pretéritas, há, como contraponto, imagens actuais.

De forma bastante original, o escritor utiliza como personagens “celebridades” históricas de Portugal: Luís de Camões, Pedro Álvares Cabral, D. Sebastião entre outros. Dessa maneira,  Antunes faz um resgate do passado dito glorioso e o compara ao resultado actual: uma pátria que vive de histórias idas e que está estagnada. Isso se atribui ao que o escritor José Mattoso escreve em A Identidade Nacional:
 “A transposição da História para a epopeia deu-lhe, porém, a força do mito, não só para a gente pouco instruída, mas também para muitos dos autores mais cultos do século XIX, que continuaram a imaginar a gesta dos Descobrimentos a partir de “Os Lusíadas”. A sobreposição da História e do mito agravou o sentimento da decadência nacional”. (página 283)
A população portuguesa, vivendo desse passado mítico, é chamada à realidade em As Naus. O processo de decadência nacional é representado através da parodização. Lobo Antunes sugere a queda dos mitos, tornando-os seres sem nenhum vestígio de glória. Sobre a função da parodização, Affonso Romano de Sant’Anna escreve:
 “A paródia é um efeito de deslocamento. Há uma deformação. É de caráter contestador. A paródia foge ao jogo de espelhos denunciando o próprio jogo e colocando as coisas fora de seu lugar ‘certo’.” (página 28)
O autor faz esse jogo como forma de reinterpretar o passado, criticar tantas “vitórias” e chegar ao resultado de tudo isso: um novo meio de conscientização nacional. A colonização portuguesa na África, pois, é condição crucial em As Naus. O livro é  narrativa de retorno, retorno de portugueses que vivem no continente africano e regressam à pátria mãe. Lobo Antunes inicia seu relato nos prelúdios da história lusa e chega até a pós-Revolução dos Cravos, período no qual se inicia o processo de descolonização do continente Africano. A pátria mantinha, nessa época, a política colonialista representada por Salazar, última resistência aos movimentos liberais africanos. Muitos portugueses, que discordavam da ditadura, foram exilados na África e lá viveram muitos anos. De certa forma, As Naus é um relato pessoal, pois o próprio autor Lobo Antunes viveu tal experiência.

Todo esse processo histórico custou um preço alto. Muitos negros foram mortos e explorados. Os rendimentos dos países africanos eram destinados aos cofres portugueses, assim como, em suas terras, começaram a imigrar vários europeus estimulando a segregação racial. Em A Descolonização Tardia, de Maria Yedda Linhares, lemos:
 “Um certo boom econômico, estimulado pela conjuntura internacional, favoreceu a imigração branca e a urbanização onde se acentuava a demarcação pela cor, entre os habitantes da cidade e os da periferia, entre europeus e africanos. As cidades cresciam e eram embelezadas. Portugal se orgulhava do dinamismo de suas províncias ultramarinas.” (página 101)
A descolonização, obviamente, gera ao povo, até então colonizado, uma satisfação inigualável de independência, mas, ao povo colonizador, obriga-o a rever seu significado de nação.

Questionamentos importantes como: quem fomos?, quem somos?, quem seremos? são abordados nas entrelinhas de As Naus: essa necessidade de um olhar autocrítico para um redescobrimento de si mesmo.


por Sílvia Andrade
17.05.2014

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