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José Mário Silva: sobre Não É Meia Noite Quem Quer

A casa do fim

Num ensaio recente, As Mulheres na Ficção de António Lobo Antunes – (In)variantes do feminino (Texto Editora), a professora Ana Paula Arnaut (Universidade de Coimbra) associa ao sexto ciclo romanesco de Lobo Antunes, iniciado com O Arquipélago da Insónia (2008), um progressivo suavizar da «confusão e estranheza causadas por intrincadas redes polifónicas». Nos romances mais recentes, garante a investigadora, «parece mais fácil identificar a voz que fala e, em consequência, diferenciá-la de outras verbalizações que ocorrem num mesmo trecho». A publicação, quase em simultâneo, do 24.º romance de Lobo Antunes, Não é Meia Noite Quem Quer, confirma esse processo de simplificação formal que permite ao leitor seguir, mesmo com interrupções e elipses, o fluxo narrativo das múltiplas histórias e respectivos planos cronológicos

Em vários aspectos, a estrutura deste livro assemelha-se à do romance anterior (Comissão das Lágrimas, 2011). Tudo volta a girar em torno de uma personagem principal feminina, uma dessas que «permanecem, de forma irremediável, em gaiolas de grades inexistentes», segundo Ana Paula Arnaut. Mulheres que se fecham sobre si mesmas e concentram no próprio corpo, dentro da cabeça, as histórias que as atormentam. Se em Comissão das Lágrimas encontrávamos Cristina, internada numa clínica psiquiátrica, perseguida por um círculo de vozes que «se acotovelam, vociferando», conjunto de «pessoas na minha cabeça a mandarem em mim», em Não é Meia Noite Quem Quer a protagonista narra os três dias que leva a despedir-se da casa de férias familiar «onde nunca põe os pés», cenário das memórias de uma infância agora transformada em «ruínas moribundas».

Na casa que tantos anos depois «diminuiu de tamanho, sem espaço para eco algum», invadida pelo «bolor do silêncio», cria-se uma espécie de limbo onde ela pode confrontar-se definitivamente com os seus fantasmas e os «desabamentos do tempo». A sua cabeça é como o carrossel das feiras, «girafas e cavalos de madeira» sempre à roda, à roda, desentranhando «a quantidade de tralha, sepultada na gente, que ressuscita». E não só a sua «tralha», também a dos outros, «silhuetas sem nome que me chamam, ao chamarem-me reconheço-as, mal emudecem perco-as». Aos 52 anos, com o casamento desfeito, o trauma de um filho perdido, a experiência de um cancro que lhe levou um dos peitos, desorientada e vulnerável («tudo me aleija, hoje, tudo me fere»), ela deixa-se atravessar pela «melancolia longa», pelas «imensidões comovidas» das vidas alheias («em quantas vozes a minha voz se dividia»), e até pelas interpelações de objectos inanimados (uma maçaneta, um tapete «puído»), da própria casa e do mar que a convida para um encontro fatal.

Se na família ninguém se despede («vamos embora e pronto»), a protagonista tenta ainda perceber «qual a razão de as pessoas se apartarem». E surgem assim, uma a uma, essas figuras que iluminaram ou ensombraram a sua existência: a mãe controladora, sempre a queixar-se dos filhos; o pai fraco que não cumpriu as expectativas nele colocadas e se afunda no alcoolismo; um «irmão surdo», incapaz de se fazer compreender; outro «não surdo», perseguido pelas memórias terríveis da Guerra Colonial, em particular a imagem de uma aldeia africana a arder, num dia de massacre; o «irmão mais velho» que se atirou da falésia e como que chama por ela do fundo das águas; o marido que a trocou por uma vizinha; a colega da escola onde é professora, com quem se envolve numa relação lésbica; etc. Todas estas figuras se chegam à frente e se penduram nas girafas e cavalos de madeira do seu carrossel mental, umas só durante uma voltinha, outras o tempo todo, algumas até com direito a narração própria (como a amante ou o irmão «não surdo»).

Lobo Antunes arrisca pouco neste livro? Talvez. Parece recusar-se a sair da sua zona de conforto? Sim. Mas isso não é necessariamente mau, sobretudo num autor de tamanha exuberância estilística. Se a progressão narrativa se revela algo mecânica e previsível (para quem já conheça bem a obra anterior), atentemos nas muitas frases que apetece recortar: «Tu de roupa caída aos pés num charco de algodão aos quadradinhos»; «um metrónomo para a esquerda e para a direita numa angústia cardíaca»; «daqui a pouco chove porque a terra parece erguer-se ao encontro das nuvens, uma exaltação nas plantas como antes de um beijo». Lobo Antunes continua a ser inigualável na descrição da mediocridade suburbana, rodeada de bibelôs («chinesices, pontezinhas, pagodes, a arca com relevos de árvores anãs e dragões»), e na obsessiva atenção aos pormenores: o homem que carrega uma bilha de gás com uma serapilheira a proteger o pescoço; o outro que na paragem do autocarro «ajeitava o chinó» e «conforme a testa maior ou menor uma cara diferente»; esse animal feito de «sombra sem matéria, capaz de atravessar paredes num assobiozinho subtil e a que as pessoas chamam gato». Mais um exemplo: «olha a maré a encher, olha os leques de espuma, os pescadores a enrolarem as canas com limos nos anzóis, não peixes, que peixes há nestas ondas, há ossos de afogados, roupinha desfeita, despedidas que a água dissolveu». E ainda esta visão desencantada do que nos faz a morte: «existimos à mesma só que não dão por nós, somos um centro de mesa que se entorta ou um preguear de cortina».


José Mário Silva
02.05.2013
Bibliotecário de Babel

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