Avançar para o conteúdo principal

Três opiniões sobre A História do Hidroavião

Paulo Ferreira
O deus inteligível

Dizer que António Lobo Antunes é o melhor escritor português (pelo menos vivo) é tão redundante quanto insuficiente. António Lobo Antunes é um deus inteligível cujos evangelhos vão sendo de há uns anos a esta parte divulgados anualmente. Não consta contudo que tenha criado o mundo em 7 dias. Não consta sequer que tenha tirado algum dia para descansar. Na verdade, o homem que não acredita que se possa escrever bons livros antes dos 40 anos, trabalha compulsivamente no seu ofício largas horas do dia. Escreve escreve escreve. E não tem problemas em dizer que no seu ofício, mais do que escritores, existem bois que marram.

Contrariando o que vinha a ser prática, António Lobo Antunes este ano optou por não lançar um romance. O que apresenta é um conto à primeira vista poderá ser catalogado de infantil. Tem uma capa dura e uma fonte grada; um formato que se aproxima do género e ilustrações (lindíssimas, diga-se) impressas no papel couché, da autoria do amigo Vitorino.

Contudo, ao lermos o texto, percebemos que o mesmo atinge jovens e graúdos. É um daqueles livros que se poderá contar (não ler textualmente) ao público mais infantil, mas que os adultos poderão repousar o olhar sem prejuízo de estarem perante um texto escrito para crianças – porque de facto este não é um texto para crianças. O mesmo poderá ser lido tanto aos 8 como aos 40 anos, tirando de cada uma das leituras as interpretações que o entendimento assim o permita e consiga.

É um livro inteligente pois claro, onde Lobo Antunes está presente de corpo e alma, ou de estilo e universo se quiser. Existe África, e Lisboa também está lá, ou vice versa. Existem relações humanas à flor da pele e as memórias do médico que esteve no Ultramar, borbulhando intensamente; temos as imagens (únicas) de Lobo Antunes e até as marcas repetitivas de oralidade do autor.

Contando a história de dois amigos vindos de África, (“Como é Lisboa, Artur?”), com a nostalgia daquele continente a morder-lhes a pele, Lisboa é o cenário para evasão de outro mundo que não aquele que fora cadinho de mais de 40 anos de memórias, onde um deles “foi motorista de camião ao serviço dos holandeses dos diamantes”. Comovente o retrato humano dos dois personagens, onde Lisboa serve apenas para retratar a dimensão triste de dois homens arrancados brutalmente do seu útero.

Face ao livro, e não ao que aqui se escreve, sugiro-lhe pois que largue este jornal e corra. Para a livraria mais próxima; não espere pelo local mais confortável para folhear a obra. Abra-a ali mesmo e leia. Traga-o para casa. Aconselha-se releitura e repetição como se de uma oração se tratasse.

Título: A História do Hidroavião
Autor: António Lobo Antunes. Ilustrações de Vitorino
Editora: Publicações Dom Quixote
Nr. Páginas: 30

por Paulo Ferreira
Jornal de Vila Franca
16.11.2005

***


«Uma comovente história de amor e saudade por África e uma estranha viagem de hidroavião sobre Lisboa, ilustrada por um músico, Vitorino. António Lobo Antunes no seu melhor.» (1998) As palavras citadas encontram-se registadas na contracapa de A História do Hidroavião e parecem resumir o núcleo semântico de toda a narrativa. Acrescentaríamos, porém, a essa “história de amor e saudade” a palavra trágica, porque é, de facto, de um retrato profundamente trágico, que redunda numa metáfora de sabor amargo, que se trata.

O tratamento ficcional de problemáticas atinentes à descolonização portuguesa constitui, a nosso ver, um topos da produção literária de António Lobo Antunes. A verdade é que o autor do recém-editado romance Que farei quando tudo arde? escreve, frequentemente, sobre Portugal de um modo pessimista e desencantado, castigando um passado para muitos marcado, de forma indelével, por dissabores, nunca superados. (É o caso, por exemplo, de As Naus, história(s) feita(s) de um pedaço relevante da História de Portugal do séc. XX, por nela se prefigurarem diversos relatos de vidas que partilham o movimento de retorno à Pátria, fruto do processo de descolonização sequente ao 25 de Abril de 1974).

Em A História do Hidroavião, o espaço a partir do qual se equaciona o presente em face do passado é, mais uma vez e à semelhança do que ocorre, por exemplo, na obra As Naus, Lisboa. A centralidade da capital nesta narrativa só pode, no entanto, ser encarada num plano físico, já que o protagonista da diegese - um homem «que tinha chegado de África (...)», após quarenta e sete anos, «... sem mais roupa que a do corpo e sem mais bagagem que um baralho de cartas...» (Antunes, 1998: 2) -, situado em Lisboa, invoca constantemente África, fazendo desta o cerne espacial da história, através de conjunto de viagens sonhadas, interiores e íntimas. Aliás, e em oposição às referências evocativas a Luanda, a imagem de Lisboa que o narrador oferece é a de uma cidade malvada, feia, tétrica, suja e nada hospitaleira. Trata-se, portanto, da recriação de um cenário disfémico, do qual sobressaem barracas, caldos, «cachorros vadios sempre à cata de sobras» (idem, ibidem: 16) e «os pântanos do Tejo» (idem, ibidem: 12).

Misturam-se, assim, dois espaços, Lisboa e Luanda, correspondentes, respectivamente, ao presente e ao passado. E é neste sentido que a uma sobrevivência precária, miserável, real e presente se contrapõem vivências passadas, luminosas e aprazíveis. Por isso, talvez, o protagonista, representante do reverso humano do império Português, pareça não buscar sequer um sentido para a vida, porque a Vida já foi, em África.
A quebrar ligeiramente o desencanto que emana do texto, parece estar o hidroavião. Se, à primeira vista, a sua aparência - «...era um esqueleto de morcego, com a pele de lona, a desfazer-se debaixo da surpresa das gaivotas...» (idem, ibidem: 2) - não ilumina a vida dos retornados habitantes de Cabo Ruivo, no desfecho da narrativa, este meio simbólico acaba por proporcionar a evasão misteriosa do homem, que vivia a jogar cartas, e do seu companheiro cego, que, lapidar e ininterruptamente, indagava: «- Como é Lisboa, Artur?» (idem, ibidem: 7, 8, 9, 12).

Seguindo as palavras de José António Gomes (1997: 81), «Relato de sonhos “por percorrer” e desejos por realizar, de que a imagem do hidroavião abandonado é uma metáfora, o texto de Lobo Antunes detém-se na descrição de um ambiente suburbano, das personagens e seus devaneios, abordando cenas da vida de um grupo de retornados de África, gente dilacerada pelo corte forçado com o passado, com uma terra de excessos e abundância: “- Como é Lisboa, Artur? (...) - Lisboa é esta infelicidade, amigo.”».

A título conclusivo, e tendo em conta a densidade psicológica e/ou a complexidade dramática das personagens, bem como as portas que o desfecho da diegese abre à fantasia - Artur e o Cego parecem ter voado de hidroavião e ter desaparecido em direcção a Luanda -, A História do Hidroavião é, em nosso entender, um conto exemplar, um testemunho vivo de que, para António Lobo Antunes, o que interessa verdadeiramente «são pessoas que tenham uma espessura de vida.» (Antunes, 1994)

por Sara Silva
não datado



***



E se o Lobo aparasse as garras para não arranhar a interpretação dos leitores mais novos? Concebesse uma crónica afiada nas asas, pronta a levantar voo, via sonho, pronta a descolar num leque de leitores, aeródromo, mais extenso? E, na iminência das ilustrações, chamasse outra vez o lápis deste amigo?

Imaginar a pena de António Lobo Antunes num universo de literatura infanto-juvenil (ou para maiores de 10, ou para todos) é, à primeira vista, tão surpreendente como encontrarA história do Hidroavião a espreitar numa prateleira arrumada em preços baixos. As asas de um avião, desenhado pela pureza artística de Vitorino, a acenarem ruidosamente (asas por momentos braços). Leva-me contigo se ainda crês no conceito de voar. E, para sorte do desejo, ainda há muito quem acredite em tal recurso de estilo.
Dizia eu, tão inesperado como encontrá-la – qual anónimo no metro – sem saber de onde vinha, se vinha, porque ia, que existia. Mas esta história, ao contrário dos desconhecidos, vinha, vinha mesmo, existia, vinha para ficar.
E, mesmo assim, por mais penoso e difícil que pareça, a imaginação dorme e acorda na realidade – na inevitabilidade de um texto delicioso.
Em A história de um hidroavião, Lobo Antunes (nota: futuro Prémio Nobel da Literatura) semeia o néctar da lucidez, de como a vida dos cruéis obstáculos pode ser tão bem contada. Raízes de África (haverá raiz mais instintiva na sua prosa?) numa Lisboa demasiado descolorada pela vontade de fuga, de regresso, no direito da árvore voltar à raiz, do homem cego a tactear a luz do útero. Numa Lisboa que nunca pertence a quem não a deseja. E, no caso extremo da personagem cega que ilumina o texto, a quem nem a conseguiu ver.
A história do Hidroavião é uma crónica maior – por (também) ser para os mais pequenos, desconfio. É a síntese implacável da incapacidade humana em adaptar-se (conformar-se) a destinos afastados do coração, da trágica obsessão por nunca desistir, mesmo que tal signifique perder-se no azul, agarrado a um balão de sonho.

Lobo Antunes ajustou a sua sensibilidade às ventoinhas de um hidroavião imprevisível. Vitorino, o indomável cantautor, deu tons, linhas e cor à imprevisibilidade do aparelho. O hidroavião e a sua história são a prova irrefutável de que qualquer carcaça, desde que sonhadora, tem como génese um vírus de voo.

por Sílvio Mendes
não datado

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia
– Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar
mas muito pouco tempo antes de morrer veio ter comigo e passámos a tarde juntos, sentados lado a lado no sofá. Foi ele quem falou quase sempre, eu pouco abri a boca.
Mostrou-me os braços, o corpo
– Estou miserável
sabia que ia morrer dali a nada e comportou-se com a extraordinária coragem do costume. Coragem, dignidade e pudor. A certa altura
– Para onde queres ir quando morreres?
respondi
– Para os Jerónimos, naturalmente.
Ficou uns minutos calado e depois
– Tu acreditas na eternidade.
Disse-lhe
– Tu também.
Novo silêncio.
– Eu quero ser cremado e que ponham as cinzas na serra, voltado para a Praia das Maçãs.
Novo silêncio. A seguir
– Vou morrer primeiro que tu. Vou morrer agora.
Mais silêncio. Eu
– Ganhei-te outra vez.
ele
– É.
Ele
Ganhamos sempre os dois.
Eu
– Porque é que a gente gosta tanto um do outro?
Ele silêncio antes de
– Se me voltas a falar de amo…

Público: «Cartas da Guerra: um filme que se ergue»

Cartas da Guerra, de Ivo Ferrreira, que tem hoje a antestreia antes de chegar às salas a 1 de Setembro, aventura-se a procurar um corpo, para a personagem António e para si próprio, que esteja num lugar que não aquele a que parecia destinado. Delicado e temerário, cria o seu mundo.

Uma “cena original” luminosa: o realizador Ivo M. Ferreira a entrar em casa de madrugada – como contou -, avançando para o quarto, guiado pela voz da mulher grávida, a actriz Margarida Vila-Nova, que lia à sua barriga uma carta. A futura mãe tinha em mãos as páginas de uma das missivas de D’este viver aqui neste papel descripto: Cartas da Guerra, o volume que em 2005 juntou as cartas escritas pelo alferes médico António Lobo Antunes, de 28 anos e destacado logo após a conclusão do curso de Medicina para uma comissão de serviço em Angola (1971-1973), à mulher grávida que deixara em Lisboa, Maria José.
Mesmo correndo o risco de a “cena” se imobilizar como cliché à força de tanto ser “vista” (mas é belíssima, …

Bia Couto sobre Da Natureza Dos Deuses

Da natureza humana e das suas misérias. Uma leitura das nossas vidas tão desencantada e triste que impressiona.
A vida dos ricos e a vida dos pobres. Em comum, as mesmas angústias e a falta de alegria. Tudo cru, com as cores que se vêem nos talhos. Ninguém é feliz.
No mundo dos ricos, que tudo podem comprar, incluindo homens e mulheres que os servem submissos ou com a astúcia de lhes sacar o máximo possível, falta-lhes ter paz. Não têm. Tentam ajustar contas com o passado mas nunca as acertam porque não dominam a ganância que sentem nem as memórias que lhes criaram essa dureza implacável.
Nos pobres, a mesma miséria. As mulheres novas, ambiciosas, a desperdiçarem a exuberância e a energia dos vinte anos com velhos com dinheiro, a troco de uns fios, sapatos, brincos, vestidos, jantares e carros que lhes podem ser retirados em qualquer altura, porque eles fazem questão de lhes mostrar quem é que manda. Tudo se passa com a bênção dos pais e restante família, aproveitando também eles alg…