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Aparecido Donizete Rossi disserta sobre As Naus


Fado da desesperança: Resenha de As Naus
   
O romance As Naus (1988), de António Lobo Antunes, encerra em si toda a problemática do romance pós-moderno: tanto a estrutura da narrativa, que é absolutamente calcada em experimentalismos de linguagem e em uma total fragmentação das instâncias narrativas canônicas (narrador, personagem, espaço, tempo, etc); quanto o assunto tratado, a independência de Angola, mostrando a Lisboa que os angolanos que vieram para Portugal encontraram, numa imensa crítica social.
 
Apesar da fragmentação das instâncias da narrativa, é importante darmos algumas informações básicas sobre o romance. Por exemplo, as personagens: todas as personagens têm nomes de figuras históricas de Portugal e de outros países. Temos Luís de Camões, que carrega durante grande parte da narrativa algum recipiente (que vai de um caixão até uma garrafa plástica) contendo o corpo do pai, escrevendo Os Lusíadas em um bar freqüentado pelo submundo lisboeta. Contudo, Camões também é apresentado como um dos que vieram de Angola para Portugal, assim como todas as outras personagens.
 
Assim, na viagem de vinda (em uma nau), temos um diálogo entre Camões, Miguel de Cervantes e Pedro Álvares Cabral (!). Há também a personagem de Diogo Cão, do rei Dom Manoel, de São Francisco Xavier (que é apresentado como um cafetão que ficou rico explorando a prostituição de mulheres vindas de Angola), enfim, há a presença de muitas e muitas personagens históricas de Portugal e da Espanha (aparecem também Federico Garcia Lorca e Luiz Buñuel). Essa presença de nomes históricos de personalidades importantes que de fato existiram parece servir para que o leitor sinta a presença do passado, e assim não consiga esquecer deste em nenhum momento. Outras partes do romance farão menção de fatos históricos, mas todos colocados no presente.
 
Na verdade, toda a narrativa se passa no presente, e os indícios da existência desse presente são as várias menções à Angola e as várias descrições de lugares e coisas que só podem existir numa Lisboa do final do século XX (por exemplo outdoors, carros, asfalto, dentre outros). Dessa forma, temos a todo momento um passado que é presentificado, ou seja, trazido ao tempo presente.
 
Essa presentificação de um passado histórico é uma das características do que, em literatura, convencionou-se chamar (mas ainda com certa restrição e provocando muitas discussões) de pós-modernismo. É importante ressaltar que pós-modernismo não é um movimento literário, mas apenas uma nomenclatura para um conjunto de características das obras contemporâneas que não se encaixam na estrutura narrativa clássica do romance. Isso significa que há, por exemplo, uma sobreposição de vozes narrativas ao invés de um ou mais narradores identificados, o que dá ao discurso uma característica fragmentária, como o indivíduo da sociedade moderna. E isso é verificado em As Naus: não temos um narrador, mas sim várias vozes que se misturam em primeira pessoa do singular, em primeira pessoa do plural e em terceira pessoa do plural, o que faz com que não saibamos quem está narrando.
 
Sem dúvida que todos estes artifícios de construção narrativa e de experimentalismo de linguagem têm uma função além do simples experimentar: no caso de As Naus, a função é de crítica social, uma vez que Portugal, como fez com o Brasil, explorou Angola por muito tempo até sua independência (1975!). A sociedade que Lobo Antunes apresenta, tanto quando sabemos que a narrativa está se passando em Angola, quanto quando esta se passa em Lisboa, é uma sociedade de submundos: temos pessoas que chegam de Angola em condições de pobreza quase sobre-humana, em naus (navios de séculos passados, portanto sempre atrasados e decadentes) e, para tentar sobreviver em Lisboa, têm que se prostituir, mendigar ou mesmo transformarem-se em exploradores e ladrões. Tudo isso pontilhado por descrições assombrosas que revelam uma Lisboa decadente, que não tem estrutura para conceder uma vida digna nem sequer aos seus próprios cidadãos, que dirá a emigrantes e refugiados.
 
Na verdade, a grande crítica embutida em As Naus é à Lisboa, mas que poderia ser estendida para Portugal todo, uma vez que durante muito tempo, principalmente do final da ditadura salazarista até o final dos anos oitenta do século XX, Portugal esteve entre as nações consideradas mais pobres da Europa. Portanto, a presentificação de um passado glorioso através da introdução de personagens que só carregam nomes de fama, mas que, em sua maioria, são pessoas decaídas e humilhadas por sistemas de governos corruptos, traz à tona uma crítica à sociedade da qual o autor fazia parte.
 
E é interessante notar justamente essa construção das personagens: apesar dos nomes de glória, pessoas que não conseguiram se estabilizar na vida ou, se conseguiram, foi através de meios ilícitos. Temos aqui uma grande construção irônica; aliás, a ironia parece ser uma das principais bases em que se assenta o romance: em todos os momentos, há sempre um contraste entre aparência e essência, como um tribunal que se assusta diante da declaração de Dom Manoel, após ser preso por estar andando em um carro que mais parecia um ferro-velho ambulante, de que tudo aquilo que o rodeava lhe pertencia. É incrível o efeito conseguido com esta cena: a retumbante voz de Dom Manoel paralisa todos os presentes, como se eles estivessem diante de uma autoridade suprema (mas que não passa, na verdade, de um mendigo louco). Contudo, a impressão que temos é que é a voz do passado glorioso que ecoa pela sala, mas essa mesma voz, no presente, é considerada a voz dos loucos, por isso Dom Manoel é internando em um hospício. Além disso, este parece ser também o motivo pelo qual Lobo Antunes escolheu o romance em sua estrutura contemporânea para expressar suas críticas: um estrutura louca para ações loucas.
 
Uma outra cena sumamente irônica é o final do romance, quando Camões e mais um outro que também fora internado em um hospício em que todos estavam morrendo de tuberculose (e o narrador faz questão de chamar de pétalas de rosa o sangue expelido pelos pulmões dos doentes) conseguem fugir. Eles se dirigem à praia, pois crêem que a qualquer momento Dom Sebastião sairá do mar, acompanhado de sua comitiva, e os salvará. Nesta magnífica passagem, Lobo Antunes ironiza um dos principais mitos nacionais: o de que Dom Sebastião, cujo corpo nunca fora encontrado após a famosa batalha de Alcácer Quibir, um dia voltaria e salvaria a nação portuguesa de seus problemas. Na verdade, com esta cena o autor coroa a grande ironia de As Naus: só resta aos angolanos e portugueses (estes últimos representados aqui pela figura de Camões) esperarem a salvação de Dom Sebastião, pois o resto está perdido, inclusive a esperança.
 
Dessa forma, As Naus se revela um romance fatalista, em que tudo o que resta hoje, nos tempos pós-modernos, de uma sociedade de glórias como foi Portugal no passado, são os grandes nomes de sua história, mas apenas nomes, e nada mais. Na verdade, a impressão que fica depois da leitura do romance é algo como o soar de um fado, mas não de um fado que canta a tristeza e a saudade apenas, mas de um fado que canta uma total desesperança face ao presente e ao futuro português, presente e futuro estes que não conseguem se libertar do eterno ecoar de um passado glorioso que fica cada vez mais distante, perdido em naus senis, sempre lembrando o que Portugal foi e o que hoje ele é, num perpétuo sentimento de frustração.

* * *
BIBLIOGRAFIA

ANTUNES, António Lobo. As Naus. Lisboa: Dom Quixote, 1988.
HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-Modernismo. Rio de Janeiro: Imago, 1991. 

 
por Aparecido Donizete Rosso
17.07.2002

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