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Visão - entrevista de Sara Belo Luís - 18 Outubro 2001


Ele diz que já quase não se lembra de Que Farei Quando Tudo Arde?, o romance de 637 páginas que as Publicações Dom Quixote lançam esta semana para as livrarias. Só assim António Lobo Antunes consegue escrever – pondo tudo para trás, os outros, a vida, os livros. Tentando, em cada nova obra, superar os limites da arte de compor as palavras como se de uma sinfonia se tratasse. Ele, o escritor que nunca escondeu que, por detrás de cada exemplar, estão dias, horas e horas, castigando as formas verbais, os substantivos, os advérbios. De tal maneira que… «Às vezes, pergunto-me se terei talento», afirma nesta entrevista.

No momento em que já está a trabalhar noutra narrativa, passada em Angola, sobre uma seita religiosa, Lobo Antunes conta à Visão o projecto de escrever apenas mais dois romances. A parir de 20 de Novembro, irá a algumas universidades para apresentar o seu novo livro. Depois, regressará a um dos seus vários locais de escrita, onde apenas interessam as letras pousadas nas folhas A5 dos blocos de receitas médicas.

Que Farei Quando Tudo Arde? desenvolve-se a partir da história de um travesti, narrada pelo seu próprio filho. Como se interessou pela figura?
Quis escrever um livro sobre a identidade, fazendo várias interrogações que se colocam de um modo especial num travesti. Esta é uma questão recorrente nos meus romances. Passamos a vida a fazer perguntas. E vamos morrer sem saber as respostas.

O Paulo, o narrador, encontra uma resposta.
Sim, quando se identifica com o pai no final do livro. Ao contrário do que aconteceu com a Maria Clara [a narradora de Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura], a minha relação com este rapaz foi muito complicada, não conseguia dar-me bem com ele nos primeiros meses. A maneira como ele pedia as coisas era muito rugosa, repugnavam-me algumas das suas características, a sua personalidade, o temperamento, a maneira de ser. Depois, comecei a conhecê-lo melhor e reconciliei-me um pouco. As personagens adquirem uma dimensão de realidade muito grande e é engraçado que, quando se está a escrever, sejamos essas personagens e, ao mesmo tempo, não sejamos.

Por que é que escolheu este verso – ironicamente, muito actual – de Sá de Miranda para título do romance?
Tenho sempre um grande problema com os títulos. Este é o último verso de um soneto de Sá de Miranda e pensei que era um pouco o resumo do livro. Gosto muito de ler poesia. Com a idade, há prazeres que vão desaparecendo (como o prazer dos gelados ou o de ir ao futebol), outros que aparecem (aos 40 anos começamos a gostar de sopa) e outros que se mantêm como a leitura.

Onde recolheu informações para descrever o drama da vida da Soraia e este ambiente pesado de droga, homossexualidade e SIDA?
Não acho que este seja um ambiente pesado… Falei com algumas pessoas, com a Tereza Coelho, que fez várias reportagens sobre o assunto, e com o Carlos Castro, autor da biografia da Ruth Bryden. Mas eles apenas me contaram dados factuais, o que me ajudou pouco para o que queria fazer. Acabei por inventar tudo o que está neste romance, que será o antepenúltimo. Só quero escrever mais dois romances.

Porquê?
Chega uma certa altura e, inevitavelmente, as pessoas começam a repetir-se. Passamos uma vida inteira a tentar arranjar uma forma pessoal de escrever e, depois, quando nos queremos libertar dela, já não conseguimos. Disse várias vezes que não acredito em grandes romances escrito antes dos trinta anos, porque é preciso ter vivido um pouco para os escrever, nem depois dos sessenta, sessenta e tal, porque já há uma esclerose de processos. A imaginação é feita pela memória e todos esses mecanismos começam necessariamente a falhar. É horrível assistirmos à decadência de um grande escritor, tenho reparado que as obras finais são quase patéticas, sente-se que já se está a rapar o fundo da panela.

Ao lermos um livro seu, é inevitável pensar como é que ele será traduzido para uma língua estrangeira.
Procuramos sempre uma determinada música que é muito difícil de traduzir noutra língua. E há sempre o receio de o livro ficar reduzido à intriga. O trabalho de um tradutor é muito criativo, é preciso ter muito talento. Quando dizemos que lemos o Tolstoi, estamos a mentir, porque o que lemos foi uma versão do Tolstoi. Lembro-me, uma vez, de estar a falar de A Morte de Ivan Ilyich com a pianista Tania Aschot e de ela me perguntar em que língua é que eu tinha lido. «Em inglês? Se tivesse lido em russo...».

Acompanha as traduções das suas obras?
Não, é o agente que faz esse trabalho. Há países em que temos tido mais que um tradutor... Digo «temos» porque o Tom [Thomas Colchie] está comigo desde o princípio. E, no início, ele não ganhava dinheiro nenhum comigo, porque ninguém queria os livros. Depois, as editoras começaram a publicar, tínhamos um grande sucesso de crítica, mas não vendíamos nada. Isto dura praticamente há vinte anos... Se não fosse isto não poderia ter deixado a Psiquiatria, embora como médico ganhasse muito mais dinheiro do que a escrever. É muito difícil ser escritor profissional. Aqui, em Portugal, quantos há? Dois, três no máximo.

Os seus livros têm cada vez mais páginas. Acha que ainda há tempo para se lerem romances com este fôlego?
Julgo que é difícil para um português médio, para uma pessoa que mora no Cacém, que passa sete horas a trabalhar, demora duas horas para ir, duas para voltar, chega a casa cansado, tem a televisão, a mulher, o marido, os filhos, no sábado tem que ir ao supermercado... Havia quem achasse os meus livros complicados. Penso que tenho que ensinar os meus leitores a lerem. Uma vez dentro do universo, torna-se mais fácil, mas, de qualquer modo, tem que haver sempre uma certa margem – o livro tem que ser suficientemente poroso para eu, enquanto leitor, ter a sensação de o estar a escrever. Um livro bom é aquele que tenho a impressão que foi escrito para mim e que todos os outros exemplares dizem coisas diferentes.

Recebe muitas cartas dos seus leitores?
Bastantes. E também me enviam manuscritos, pedindo para que fale com os editores para que sejam publicados. Por vezes, há pessoas com mérito, mas é muito difícil, no meio daquele aluvião de originais... Também não há muita gente que saiba ler. Queremos abrir uma porta do livro com a nossa chave, mas temos que usar a chave do autor. Temos tendência para transformar as nossas opiniões pessoais em verdades universais e rejeitar tudo o que não encaixe na nossa grelha de valores. Penso que a crítica devia servir apenas para ajudar a ler e nunca para adjectivar e hierarquizar. O acto de ler é criativo e implica humildade. Quando vejo as pessoas... dá-me vontade de rir porque, quer estejamos sentados no chão quer estejamos sentados num trono, é em cima do nosso rabo que estamos sentados.

Responde a quem lhe escreve?
Respondo às cartas todas, porque um dos maiores prazeres que tive na vida foi, aos quinze anos, ter escrito ao Céline e ele ter-me respondido. Andei com o envelope na carteira durante anos...

Já disse que Portugal era «enfadonho», arrasando o País, os portugueses, a crítica e os seus colegas de ofício, Chegou mesmo a falar mudar-se para os Estados Unidos e Brasil…
…mas eu estive em vários sítios. «Enfadonho» não é uma palavra que costume utilizar, sou capaz de ter dito outras palavras quaisquer… Quanto mais tempo estou no estrangeiro, mais sinto que sou português. Começo a ter saudades das pessoas, do clima, da língua, da luz… É aqui que me sinto bem, sou daqui. É tão bom chegar ao aeroporto e ver gente a cuspir… Na Suíça, está sempre tudo tão limpo e eu tenho sempre a fantasia que, durante a noite, as suíças estão a varrer aquilo tudo… para Itália, claro.

Mas nunca se mudou definitivamente.
Não. Agora, tive um convite da Universidade de Berkeley… Tenho estado a pensar, a minha família tem insistido para que vá. Embora me agrade pensar que atravesso a ponte e estou em São Francisco, sinto-me cada vez mais preso à minha terra. Mas, como toda a relação de amor, é uma relação contraditória.

Deixou transparecer o seu fascínio por São Francisco. Que outros lugares do mundo lhe causam esse sentimento?
Às vezes, penso que São Francisco nos fascina porque é parecido com Lisboa. É uma cidade alegre, não lhe sentimos o peso, as pessoas são muito amáveis e a solidão não é tão dura, como em Paris. A América fascinou-me muito nas primeiras vezes que lá fui. Agora já não tanto… Esta é a minha terra, este é o meu mundo, onde me sinto bem. Obviamente tem coisas de que não gosto, mas julgo que estava a tomar o todo pela parte. Com os primeiros livros, sentia-me injustiçado, porque havia uma grande ressonância em toda a parte e aqui não…

Isso já não se passa.
Não. Mas, agora, esta unanimidade é muito mais inquietante. Porque se o trabalho é realmente bom, está-se um pouco à frente do tempo. Devia haver mais discordância.

E as suas crónicas, publicadas na Visão?
Tenho dificuldade em pensar que sejam literatura. Onde jogo a minha vida é nos romances. Tenho galope lento, preciso de espaço. Talvez haja escritores de música de câmara e escritores de sinfonia. Preciso de espaço, até como leitor gosto de livros grossos. Já na adolescência, gostava de ler a Guerra e Paz, habituo-me às personagens, quero que a história continue…

Ainda faz maratonas de escrita de 12 horas por dia?
Faço, porque comigo as duas primeiras horas são sempre perdidas. Enquanto se está disperso, há mecanismos autocensórios a funcionar. Quando se está mais cansado, as coisas saem melhor. E, depois, no dia seguinte corrige-se. Escrever é sobretudo uma questão de trabalho. Ainda era adolescente quando aprendi isso n’A Bola com uma entrevista de um campeão chinês de pingue-pongue que treinava 14 horas por dia. É um pouco como os cirurgiões, que têm que fazer a mão.

Não corre o risco de tornar-se uma obsessão?
Não corre o risco, é uma obsessão. Tenho que antepor o trabalho a tudo o resto. Julgo que o que tem feito a minha dificuldade na relação com os outros, a começar pelas pessoas que me estão mais próximas, é o facto de elas acabarem por ter pouco tempo na minha vida. Estou todo o tempo com o livro.

O seu isolamento tem a ver com o facto de sentir que está entregue a si próprio e só de si poder depender?
Sou uma pessoa fechada, tímida, com poucos amigos, não sou muito sociável, não vou a bares, nem a lançamentos. Nunca tive grandes relações com pessoas do meio literário e, normalmente, não vou nessas excursões. Há quem vá a Fátima de autocarro, com pandeiretas e a cantar. Também há escritores que vão aqui e acolá. Nunca tive esse sentido gregário de grupo excursionista.

Em Maio último, regressou da cerimónia de entrega do Prémio do Estado Austríaco para a Literatura Europeia bastante «desolado» e «revoltado», segundo palavras do seu editor.
Esse prémio comoveu-me pelos emigrantes portugueses que diziam que, pela primeira vez, tinham visto a bandeira de Portugal hasteada na Chancelaria. Os emigrantes é que estavam muito indignados por o único português presente ser o embaixador.

E o galardoado?
Nunca fui um escritor oficial. Por vezes, espanta-me que as pessoas peçam subsídios. Como é que posso pedir um apoio e escrever o que me apetece? Temos aqui vários escritores no poder que, ao mesmo tempo, se afirmam como contrapoder, o que não deixa de ser divertido. É óbvio que o poder quer legitimar-se. Camilo ficou neutralizado a partir do momento em que fizeram dele Visconde Correia Botelho, com Dickens e Thackery passou-se a mesma coisa. Michelangelo queixava-se que os Médicis o obrigavam a fazer estátuas de neve. O que se passa com o poder é isso – obrigam os artistas a fazer estátuas de neve que se vão dissolvendo com o tempo.

Quando Portugal é o país-tema no Salão do Livro de Paris e o António Lobo Antunes se coloca à margem da comitiva de escritores portugueses, isso não é uma atitude ostensiva?
Não. Existem grupos onde existem fraquezas individuais. As pessoas juntam-se porque não são suficientemente fortes. Para mim, havia um problema metodológico, porque nunca mandaria 40 pessoas que fazem livros (não sei se são escritores). Duvido que haja 40 escritores em Portugal. Preferia mandar quatro ou cinco com mérito, de modo a ter maior possibilidade de os dar a conhecer. Não me compete a mim dizê-lo, mas acho que, agora, há pessoas de 30 anos a escrever com um talento raro. Da minha geração quem é que ficou? Muito poucos.

Tem tempo para acompanhar o que vai saindo?
Não muito, até porque, quando começo a ler um romance, dá-me logo vontade de começar a corrigir. Se calhar, se lesse o que escrevi, também teria… Quando vou ao estrangeiro, levo sempre uma mala com pouca coisa, para trazer muitos livros. São mais baratos. Normalmente, vou sempre às mesmas livrarias: em Paris, à Gallimard e à Village Voice, uma livraria pequenina, mas fabulosa. É uma perdição. Onde acabo por gastar o dinheiro é nos livros. Gosto do objecto em si, do cheiro, é um prazer que tenho desde que me lembro. Os escritores costumem falar do Homero, do Proust, disto e daquilo… A mim, o que me levou a escrever foi o Sandokan, Os Três Mosqueteiros, o Júlio Verne, a descoberta de que havia mais mundo do que aquele no qual vivia. Comecei a escrever a imitar esses meus heróis. Era uma forma de criar um mundo meu, sem interdições, onde os adultos não entravam e eu é que mandava.

O seu nome aparece sempre nas listas dos «candidatos» ao Nobel da Literatura. Em 1999, a Academia sueca, ao atribuir o prémio a Günter Grass, chamou-lhe «sumidade literária». Aos 59 anos, o que é que o Prémio Nobel significaria para si?
Agora, nada. Porque as pessoas que se alegrariam com isso já cá não estão. Teria significado até há três ou quatro anos. Não tenho grandes necessidades financeiras, vivo com pouco, tenho uma vida austera. Não preciso de carros luxuosos, nem de roupas caras e, quando já cá não estiver, as minhas filhas ficam com os direitos de autor durante 65 anos. Estou a pensar se houve algum prémio que me deu prazer em recebê-lo… Sim, houve um, o Rosalía de Castro, porque adoro a poesia dela. Os outros… Todos os anos, são dois, três… Os escritores de quem mais gosto nunca ganharam nada. Aqueles que penso que são os grandes romancistas deste século nunca foram reconhecidos – Tolstoi, se havia alguém que o merecia era ele, Conrad, Thomas Hardy, Tcheckov. E no entanto eles continuam vivos. Hoje, o Nobel ser-me-ia indiferente. Teria precisado imenso dele há 20 anos, ter-me-ia poupado a uma vida dificílima, a ver que o dinheiro não chegava ao fim do mês, a fazer «bancos» por aqui e por acolá, para poder viver e ter tempo para escrever. Naquela altura, trabalhava como uma besta, passava três noites por semana fora de casa, de serviço em hospitais… Tinha-me feito um jeitão. Agora?...

Para além do valor pecuniário, o Nobel é sempre um reconhecimento mundial.
Isso já tenho. Não é modéstia, nem imodéstia, é a verdade. Sou traduzido em 40 línguas, o que é que posso ter mais? Fiquei espantado com o facto de a Academia falar nos cinco grandes romancistas…

…as sumidades literárias…
…pois, mas só podiam dar o prémio a uma. É natural que venham as outras…

A si?
É pouco natural, deram há pouco tempo a um português, normalmente há esses equilíbrios. E, depois, qualquer prémio tem a ver com muita coisa, até com manobras políticas…

E os últimos têm tido uma grande carga política.
Em todos os prémios, até os paroquiais. Talvez seja necessariamente assim. Acho que hipervalorizamos o Nobel, acaba por ser uma sensação jornalística que dura apenas um ano. T. S. Eliot, Sartre e Malraux eram considerados grandes escritores. Mas quem são os nomes que hoje consideramos grandes escritores? Quem são os escritores portugueses que vão ficar? Quem é que hoje lê Aquilino, Ferreira de Castro, Alves Redol, Namora, Régio? Das pessoas que estão agora a escrever em Portugal, quem é que vai ser lido daqui a 50 anos?

O seu espírito parece ser o de uma pessoa um pouco sisuda e, no entanto, na escrita, tem até bastante humor.
Um escritor sem humor nunca é bom. E os grandes livros têm todos imenso humor. Não estou a falar de livros cómicos, claro, muitas vezes sorrimos pela justeza de uma observação. Mas, cada vez mais, tento desmistificar o escritor. O escritor é um homem comum, o problema é o trabalho, é assim que as coisas se conseguem. O único segredo é o trabalho.

Esse humor é então fruto do trabalho?
Provavelmente preciso de m ais trabalho para chegar aos mesmos resultados que os outros. Às vezes, pergunto-me se terei talento. É tudo feito à custa de trabalho – escrever, reescrever, emendar, voltar a emendar, corrigir… Há pessoas que aos 19 anos escreviam coisas boas, as minhas eram uma porcaria. Passei a faculdade a jogar xadrez e a ler, a vida passava-me ao lado. Os outros apareceram tarde na minha vida. Só comecei a escrever melhor quando deixei de ter uma concepção ptolemaica do mundo.

Quando é que isso aconteceu?
Talvez nos hospitais, quando fui confrontado com coisas que não sabia o que eram. Era o filho mais velho de dois filhos mais velhos, a morte não existia.

Actualmente, as suas viagens acontecem sobretudo por razões profissionais?
Sim, ir à Alemanha, à Áustria… Às vezes passa-me pela cabeça que faço viagens papais para me mostrar e abençoar. No fundo, acabo por conhecer aeroportos, hotéis, as catedrais onde vou dizer missa, estúdios de televisão, coisas assim… O que vale é que gosto de aeroportos e adoro a comida dos aviões.

Considera que isso também faz parte da sua profissão?
Infelizmente. É um ciclo vicioso porque para ser lido é preciso ser conhecido. Se fosse cantor tinha que aceitar tudo…

Ainda vai ao Miguel Bombarda?
Duas vezes por semana.

E dá consultas?
Digamos que a minha actividade médica é praticamente nula.

Há quanto tempo?
Acho que desde o princípio, porque o que queria era escrever. Mas durante muito tempo os livros não existiam a não ser na minha cabeça. É óbvio que fui para Medicina porque vim de uma família de médicos, mas a Medicina tem lados fascinantes. Daí eu não perceber que pessoas com êxitos nas suas vidas profissionais escrevam um folheto e apareçam na televisão com a palavra «escritor» por baixo. Ser escritor dá trabalho e há profissões com muito mais dignidade do que escrever livros. Tomara eu ter a paixão da Medicina ou de outra coisa qualquer…

Escreve em vários sítios. Não sente falta de um certo ambiente de escrita?
Não, desde que tenha o livro, até escrevo nos quartos de hotel. Preciso mesmo de mudar de sítio porque aquilo já é tão monótono…As outras pessoas saem para o trabalho e ficar em casa a fazer redacções é ridículo. Quando era miúdo, escrevia nos blocos de receitas do meu pai e, quando entrava alguém, tapava com o livro de História ou Geografia. Ainda hoje, escrevo nesses blocos com um livro aberto à frente, como se a qualquer momento pudesse entrar alguém que me dissesse que devia estar a fazer uma coisa útil em vez daquelas patetices.

Ainda ouve música clássica?
A minha surdez é um fenómeno recente, o que acontece é que com este aparelho ouço demais… Mas quando estou a escrever não ouço música. Nunca escondi a história da estrutura sinfónica dos meus romances, embora os últimos sejam diferentes. Usava as personagens como instrumentos, fagotes, cordas, metais… A minha obra de sonho seria escrever um livro absolutamente silencioso, sem palavras. Tenho tentado, não sei se com êxito, escrever com cada vez menos palavras, eliminando os adjectivos, as metáforas, os advérbios… O encanto de Frank Sinatra são as suas pausas. Tenho que fazer isso – encher o livro de silêncio.

Continua a reunir-se às quintas-feiras em casa dos seus pais em Benfica?
Os meus irmãos vão, eu quase nunca. Tenho uma relação muito boa com todos eles, mas é uma relação cerimoniosa, não há partilhas de intimidades, nem expansões emocionais, elogios ou ataques. Às vezes, pergunto-me se os irmãos, se não fossem nossos irmãos, seríamos amigos deles…

Imagina-se a fazer ao seu neto o mesmo que o seu avô paterno lhe fazia?
Não tenho essa grandeza, nem essa capacidade de amar. O meu avô morreu, mas para mim continua tão vivo… Ele levou-me a Pádua, de automóvel, quando eu tinha 7 anos. Foi ele (e a minha «avó querida») que tornou feliz uma parte da minha infância, porque as infâncias só são felizes retrospectivamente. Nunca o hei-de esquecer. Mas não tenho a generosidade dele. Toda a minha energia foi sugada pelos livros e até diante do sofrimento tenho duas reacções – sou sempre a pessoa que está a sofrer e também a que está a ver o que é que posso aproveitar para a escrita. Esta atitude protege-me, mas também me proíbe de ter grandes alegrias. Estou constantemente, às vezes sem dar por isso, neste trabalho de sanguessuga da vida própria e alheia.


Visão
18.10.2001

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