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José Alexandre Ramos: opinião sobre Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?


Folheando o ar com a boca sem encontrar a página em que se respira - sobre uma primeira leitura de Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, de António Lobo Antunes

Uma mulher enferma está a morrer e os seus quatro filhos estão com ela nestes últimos momentos. É domingo de Páscoa, chove, tudo parece começar às três horas da tarde – e o quão são tristes as casas a essa hora –, ou é a corrida de toiros que principia a essa hora e todos esperam a sorte suprema  não percebo nada de corridas de toiros nem me interessam, só estou a seguir o que o livro sugere – que, sendo a morte do toiro, é também a morte da mãe do Francisco, sedento de afectos como todos os irmãos, e que (por essa razão) vem reclamar para si o que sobeja de um património arrasado pelo vício do jogo do pai (já falecido antes), obcecado com a ideia do 17 nas roletas dos casinos; da mãe da Beatriz abandonada pelo marido com quem casou por lhe ter dado a virgindade dentro de um carro em frente ao mar que a persegue com os cavalos que lhe fazem sombra; da mãe do João que vai procurar a infância perdida nos rapazinhos que se prostituem entre a sombras dos arbustos de um parque público; da mãe da Ana rebelde, a mais feia dos irmãos, ressacando da sua dependência da droga que um homem lha vende num baldio junto ao Tejo; e da Rita, a contemplativa, a sonhadora, vítima prematura de um cancro e que está presente – como o pai – na voz dos restantes. E a ajudar, Mercília, a criada ou governanta da família, que vimos a saber que afinal é meia-irmã da que morre agora, mas nunca reconhecida como tal (como um meio-irmão, filho bastardo do pai, cuja existência se sente incómoda nas personagens e que só é assumida no final do livro).

Podíamos dizer que o livro é isto, mas não é tão simples assim, e tal não é novidade alguma quando estamos a abordar um livro escrito por António Lobo Antunes. São personagens e ingredientes que dariam para escrever qualquer livro ou um argumento de um filme se quiséssemos, mas o resultado nunca seria o que este livro é. Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar? tem uma estrutura semelhante a livros anteriores aBoa Tarde Às Coisas Aqui Em Baixo, e seguindo o esquema das corridas de toiros: antes da corrida, tércio de capote, tércio de varas, tércio de bandarilhas, a faena, a sorte suprema e depois da corrida. Cada tércio bem como a faena e a sorte suprema estão divididos em quatro capítulos, e o antes e depois da corrida são como o prólogo e o epílogo. Em cada capítulo uma voz, a voz que depois se multiplica à medida que os fantasmas assomam e com esses espectros conhecemos outras tantas personagens que o livro contém – também nada de novo feito pela mão deste escritor. Do modo como está divido, em que até parece que existe um fio narrativo progredindo à medida que se aproxima a hora da morte da mãe (da mesma forma que se vão completando as partes da corrida até à morte do toiro), é um livro cuja leitura aparenta ser mais fácil seguir que os seus antecessores recentes. Porém, não quer dizer isto que seja um livro fácil, no sentido de ficar aquém na complexidade narrativa dos livros anteriores, pelo contrário, a condução das vozes (ou da voz unificadora) é aqui ainda mais complicada uma vez que António, o escritor, intervém de um modo mais assumido como uma das personagens do livro, que pode criar alguma confusão no leitor incauto, já que esta personagem-escritorsurge no meio da voz das outras personagens. De modo mais assumido que em outros livros, mas ainda não uma personagem directa: as verdadeiras personagens indicam e dirigem-se a “o que escreve o livro”, o nome António Lobo Antunes aparece em alguns momentos, e deparamos com um jogo discursivo em que umas vezes é o escritor que quer dominar as vozes das personagens, noutras são as próprias que lhe negam esse poder.

É então na progressão da corrida de toiros que as personagens desenvolvem uma narrativa estilhaçada, sem história como António Lobo Antunes sempre preteriu, antes um labirinto de vivências de uma família que ao morrer a mãe acaba ela também estilhaçada, cujos factores dessa desintegração já a vinha desmoronando à medida que os filhos se tornavam adultos, identificando no passado e nas suas infâncias os pontos fracos dos alicerces da família. Aliás, a pretensa história que tanto queremos todos saber qual é e que nunca existe, só se desvenda depois de terminarmos a leitura, uma vez que é com as pontas soltas dadas pelas vozes das personagens que falam e que vão pegando nos restos que as outras deixam, que vamos conhecendo a infelicidade de Beatriz e as sombras dos cavalos no mar, o porquê de Francisco reclamar só para si a herança dos bens da família, das razões porque Ana se droga, se afinal João é um pedófilo ou um homem perdido na sua infância, como e porquê o pai arruína a fortuna no jogo, qual afinal o papel de Mercília, o alheamento da filha Rita falecida precocemente, o aparecimento de um filho bastardo que os irmãos evitam de falar, os cavalos, os toiros, a quinta, a casa em Lisboa, a pensão onde iam passar férias, etc.

Não poderei dizer, se quiser concordar com o autor, que este é o seu melhor livro. Porém as minhas razões particulares como leitor pouco interessam para qualificar o romance de melhor, pior ou igual em relação aos anteriores, muito menos quando se trata de uma primeira leitura. É que a cada novo livro, a releitura torna-se ainda mais um factor importante para compreender o que António Lobo Antunes escreve nestes seus livros. Não me agradou, no princípio, a frequência com que repete as frases “como é triste esta casa às três horas da tarde” e “que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar”, único factor negativo que encontrei na minha leitura. Mas, como sempre senti nos outros livros, é uma sala de espelhos em que nos olhamos distorcidos, umas vezes reconhecendo-nos, outras tentando não o fazer. E se é uma sala de espelhos, também o interpreto como o espelho da memória em que o escritor se vem mirando: sinto que há neste livro muito mais autobiografia – rudimentar e camuflada, evidentemente.

Para finalizar: se conseguirmos entrar dentro do livro de tal forma como se estivéssemos a assistir ao que se diz em tempo real, então vamos entendê-lo. Senão, e como disse o escritor em entrevista, se o leitor fizer surf por cima das páginas, vai conseguir lê-lo com mais ou menos dificuldade, mas sem nunca saber o que vai lá dentro. É preciso estar devidamente preparado e atento, porque se o leitor considerar que é como ler um qualquer livro vai, citando uma frase do romance, folheando o ar com a boca sem encontrar a página em que se respira.


José Alexandre Ramos
17.10.2009

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