27/05/2016

Emma Rodriguez opina sobre Sôbolos Rios Que vão

edição em castelhano
 por Random House
Quando António Lobo Antunes participou [n]a Guerra de Angola se dedicava a escrever cartas; cartas nas quais falava de muitas coisas e que nasciam de sua necessidade de comunicar que estava vivo. Para o escritor português os romances que escreve também partem desse desejo. O que faz é colocar-se junto do leitor e dizer-lhe: “estou aqui, contigo, diante deste mistério que não compreendemos, um mistério que nos ultrapassa" e que, como dizia Lorca, nos faz viver”. Assim me contava numa conversa que mantivemos na época da publicação de O arquipélago da insónia. Agora, o meu retorno à sua obra se dá com Sôbolos rios que vão, um romance que seduz com aquela perseverança da memória, com os rumores de um passado que nunca desaparece, que se torna presente enquanto exista alguém que siga mantendo suas recordações.

Já ao iniciar a nova viagem estive consciente das atmosferas do velho casarão desse “arquipélago”, um casarão cheio de quadros fotográficos, mas vazio de vozes, gestos, das palavras que o habitaram; atmosferas que seguiam em mim com a força dessa literatura que se passa no fundo, com uma suave e imperceptível palpitação, até acabar convertendo-se numa espécie de fértil raiz. António Lobo Antunes volta às estâncias familiares de sua infância, sua infância de interior, mas desta vez a partir de uma circunstância excepcional, seu internamento num hospital, onde foi operado de um câncer há algum tempo, e onde percebeu a proximidade com a morte.

Da impressão de afrontar literariamente esse momento, de buscar a linguagem capaz de expressar suas emoções extremas, era algo essencial para este homem que exerceu a psiquiatria antes de dedicar-se inteiramente às letras e de se converter num explorador dessas pulsões e afectos que nos definem e irmanam na ampla viagem da humanidade; esses sentimentos permaneceram imutáveis e nos fazem sentir que não mudamos nada enquanto ao nosso redor, fora da essência, os planetas têm seguido girando e se hão forjado sociedades cada vez mais complexas, evoluídas, altamente tecnológicas. “Mas seguimos perguntando-nos pelo sentido da vida e sentindo-nos desconcertados ante a morte”, recorro a outra frase do escritor, noutro encontro, dessa vez quando da publicação de Meu nome é legião, um livro de cariz diferente, menos biográfico, mais colectivo, em que dá voz aos humilhados, aos marginalizados, aos despossuidos. Um livro em que indaga sobre a violência, uma de suas obsessões, e chega a constatar de novo o quão só estamos, o quão pequenos somos ante a imensidão do mundo.

Mas voltemos a Sôbolos rios que vão; deixemo-nos arrastar por suas correntes, sabedores de que o território de António Lobo Antunes não é um território de fácil e cómodo acesso. Nadar em suas águas é como adentrar-se no oceano e sentir a estranheza do primeiro momento, esse frio que nos faz tremer e que nos impulsa a voltar à areia quente. Mas há que seguir avançando, avançando sem parar até o instante em que se chega a perceber a plenitude do contacto com o mais profundo, o som da respiração, o azul do céu envolvente, o ritmo do movimento, o afastamento do ouvido e de tudo que não seja a sua própria voz. Vale a pena estar aí e ficar um tempo, como vale chamar à porta do escritor e sentir o privilégio de ser convidado a entrar.

É certo. Desloca um pouco a quem se aproxima dela pela primeira vez, porque é uma obra diferente, inclassificável às vezes, construída pela ruptura. É necessário acostumar-se à maneira de olhar do escritor, a esse tomar sair pela parte irracional, pelo que não pode ser domidador nem dominado. Neste romance, António Lobo Antunes viaja ao seu centro e se mostra nu, sincero, humilde, só e perdido ante a dor, o medo, a busca dessas palavras que, ainda não nascidas, ainda não ditas, da mesma maneira nem nunca na mesma ordem de antes, ajudem a entender o que está passando. Como acontece em outros livros do escritor, como O arquipélago da insónia, tudo parece um delírio, um sonho, uma alucinação, um desvario. O homem no hospital é consciente da gravidade de sua situação, olha a chuva cair por detrás da janela e viaja ao passado, à infância, aos diferentes lugares da vida vivida. Quantos destinos, quantas identidades, quantos trajectos até à desembocadura, até chegar a perceber com lucidez o que foi, o que deixou de ser, aquele que se tornou.

A enfermidade, o câncer, é como “um ouriço de castanheiro” que se meteu dentro do corpo, como o ouriço que de pequeno torna-se em árvore. O mecanismo das recordações se coloca em marcha, igual ao relógio que se dá corda, é tudo associações, imagens sobrepostas. A vida em forma de camadas, de substractos de emoções, de sensações, de fragmentos. O homem que jaz na cama, às expensas dos profissionais que cuidam dele, não pode frear a dor, do mesmo modo que o menino não pode frear a bicicleta na primeira vez que seu tio ensinou a conduzi-la. E o cheiro do piso da enfermaria é igual ao da farmácia do povoado onde escutava contar histórias de lobos no inverno. E a enfermeira que se aproxima para apagar a luz do cômodo lhe faz lembrar sua mãe aproximando-se da porta de seu quarto para fazer o mesmo.

A escuridão aparece e o homem está só, igual [como] quando pequeno ficava sozinho com seus medos. E aparecem os avós, o pai, toda essa gente que foi e que segue sendo no fundo de seu coração, como parte dele enquanto sua existência se prolonga. Todas as sensações voltam, se repetem, porque somos aquilo do que nos nutrimos, porque as primeiras experiências, as primeiras descobertas, os primeiros desejos, estão aí, no poço profundo, e emergem sempre, em situações similares.

“que misteriosa a vida, davam-lhe banho na selha da cozinha e o desconforto de estar nu à vista da empregada, pequeno, magro, submisso tal como na enfermaria pequeno, magro e submisso de novo”, sublinho este trecho comovedor.  “se a mãe encostasse a bochecha à dele, mesmo idosa, mesmo cega, a palavra filho a fazer sentido, não a palavra morte, enquanto ia caminhando com os rios sem nada que o estorvasse, acompanhado pelo pasodoble de um saxofone remoto, na direção do mar”, elejo esta outra passagem porque diz muito da maneira de narrar, de contar, de construir, do escritor. Um estilo de enorme plasticidade, não-linear, em desacordo com as sinalizações convencionais do texto, feito de interrogações em busca de respostas, de repetições que são como flashes de lucidez, à maneira de um poema. Um poema longuíssimo que cheio da potência das metáforas, de imagens, e ante o qual chegamos a perceber que tudo cobra sentido, que de alguma maneira se deu um pequeno milagre que nos conduz a um foco de luz capaz de iluminar traços de verdade que antes éramos incapazes de perceber.

Nesta ocasião a linguagem da poesia, do mais íntimo, se mistura com o frio vocabulário do hospital: das salas de cirurgias, de radiografias, sondas, soro, botijas de oxigênio, as receitas, análises, agulhas, diagnósticos, terapias. Uma mistura explosiva que funciona, enfrentados todos esses termos aos de outros dicionários, dicionários de sentimento, da natureza: veredas, árvores, perfume de eucaliptos, líquens e rochas do rio da infância... E o escritor impõe seus contrastes, seus ritmos, como quem dirige uma orquestra, um todo que nos faz girar, nos envolve e nos fascina.

O fluxo da memória de António Lobo Antunes é caudaloso e selvagem. E a melhor maneira de segui-lo é deixar-se levar pelo ritmo das ondas que se elevam e acabam sempre por cair, por essa prodigiosa melodia que se ascende e descende por sendas diversas, por pensamentos díspares, por uma sábia combinação de pausas e de silêncios. “Escrever é estrutura, por carne a um delírio”, volto a recuperar uma dessas falas em que me dizia que nunca partia de respostas, só de perguntas; que muitas vezes lhe parecia que estava caminhando por um sonho; que em ocasiões só tinha a impressão de que os livros estavam no ar, independentemente do autor que lhes desse forma; que a maior parte das vezes a escrita era uma ofício de paciência, mas que quando encontrava a palavra exata para expressar uma emoção, um sentimento, ele, que não era homem de lágrimas, não podia evitá-las.

Tampouco quem se aproxime de suas narrativas pode evitar as lágrimas. Lágrimas em certo sentido satisfatórias, refrescantes. No caso de Sôbolos rios que vão, ainda que partindo da dor, da enfermidade, não é a dureza do que se conta o que mais emociona. São os momentos de beleza que se alcançam, essa evocação do acontecido, nada sensível apesar de tingido com as cores da doçura e da melancolia, são forças de compreensão que se abrem em meio de uma memória ziguezagueante que em determinados momentos ganha espessura e bifurcações capazes de se tornar difíceis de decifrar. Não queiramos entender tudo, não busquemos argumentos. Acaso a vida tem um roteiro fixo? Acaso a memória responde como um guia?

“tentava dar nome às formas e não achava os nomes, estava e não estava acordado como quando parece compreendermos o sentido do mundo que no instante de o compreendermos se esfuma”, divaga o protagonista. “devolvam-me os pinheiros, a serra, a infância que trouxe para o hospital e me pertence”, emite seu grito mudo. Tudo sucede em seu interior, um longo monólogo que só escutam os mortos, os que se foram. Eles são mais reais que as visitas. Eles enviam mensagens reveladoras, acompanham-no por paisagens onde aprendeu a intuir o sublime, a descrever o desejo, a paulatina transformação do seu corpo, o despertar do sexo. O sorriso do jovem de dezesseis anos que foi e aí retorna.

Parece que não acontece nada no romance, mas na verdade se revelam muitas coisas nesse transcorrer da memória em que o protagonista manuseia em busca de si próprio. “Entenderás quando cresceres”, lhe diziam na infância. Parece que não acontece nada, mas dessa imersão sai a frota dos afetos que não ficaram esquecidos; as primeiras decepções, por exemplo, a do pai que engana sua mãe com a criada e a quem nunca voltará a gostar da mesma maneira de antes, os primeiros abandonos, o do tio querido que vai para a Espanha para trabalhar e nunca mais regressa. E as mortes dos mais queridos que não voltam do outro lado, do invisível. E as recordações desse primeiro amor que o abandonou e que segue como importante no traçado de sua biografia, de sua existência. 

São os acontecimentos-chave na vida, mas além das circunstâncias de trabalho, dinheiro ou êxitos, aqueles que têm realmente um valor verdadeiro. Esses momentos capazes de iluminar tudo. “Tantos segredos e tanto assunto suspenso”, pensa o narrador enquanto recolhe os fragmentos de toda uma vida. “que coisa impossível de entender o tempo”, o escutamos dizer. “O quarto não mudou, as luzes permaneciam iguais, os enfermeiros ocupavam-se dele no ritmo do costume com as palavras do costume e no entanto a impressão de se achar no centro do que não sabia o que era e de que a vida dependia, sem nada que ver com a doença e tão apagado pelos anos que não lograva encontrá-lo, a chave capaz de girar na porta que conduzia a ele mesmo...”, seguimos.

edição brasileira Alfaguara
Alheio a modismos, às listas de mais vendidos, António Lobo Antunes ergueu um particularíssimo território, seu oceano, título a título, encontro após encontro. É por isso que pode descer até esses fundos no que ainda é temor, vingança, o sentimento de indignação, de humilhação. Frente a uma sociedade que dá às costas ao que dói, que segue adiante sem deter-se ante os que sofrem, ele se atreve olhar de frente aos rostos da solidão e a atravessar com palavras a ponte até a morte. Pode fazer porque foi tocado com o dom da escrita e, sobretudo, porque aposta pela vida, pela vida consciente.

“O que de verdade me inquieta é a resignação. Esse momento em que alguém decide parar. Meu pai morreu no em que parou e se sentou numa cadeira olhando o mar. Algo dentro dele mudou. Penso nos esquimós que sentam no gelo e penso na maior parte da gente que está sentada no gelo. Essa gente morta sem saber. Que vidas tão mal empregadas! Somos casas com muitos quartos, mas só somos capazes de viver em dois ou três. Temos muito medo do que está dentro de nós”, recupero agora parte do que me disse o escritor numa conversa distante.

O que ele tinha medo, que medo pode ter um homem que não se senta no gelo?, lembro que lhe perguntei. E me respondeu que tinha medo da sua violência interior, uma violência que não soube que existia até ir para a guerra, quando se encontrou com tanta gente jovem e boa, mas com uma enorme capacidade de causar dano se fosse o caso. “Então aprendi que a maldade convive com a bondade. Aprendi a ser muito prudente na hora de emitir juízo sobre os outros”, disse. Foram palavras, apreciações que se prenderam em mim num momento em que percebia que estava rodeada de gente no gelo, ainda não era capaz de lhe dizer as palavras justas. 

A literatura de António Lobo Antunes tem a capacidade de colocar essas palavras justas, iluminadoras, como recém-nascidas em suas mãos que juntas transformam sentidos. Seus livros são uma aposta pela vida, sim, uma intenção de percorrer todas esses quartos sobre os quais fala. “sua vida cheia de passados e não sabia qual deles o verdadeiro, memórias que se sobrepunham, recordações contraditórias, imagens que desconhecia e não sonhava pertencerem-lhe”,  lemos em Sôbolos rios que vão. Um romance em que novamente o escritor avança por estas instâncias sem medo de ir abrindo portas. Detrás dessas portas pode haver monstros ou demônios, mas também o sorriso franco do jovem de dezesseis anos com tudo por descobrir, capaz de transmitir o valor necessário para prosseguir o caminho, andando, avançando até o momento em que o rio abre os braços ao mar.


texto original de Emma Rodriguez
em Lecturas Sumergidas, 2014
texto citado da tradução livre de Pedro Fernandes em Letras In.verso e Re.verso
10.05.2016

[revisão da tradução do texto para PT-BR por José Alexandre Ramos]

26/05/2016

Pedro Fernandes opina sobre Não É Meia Noite Quem Quer

edição brasileira Alfaguara
«não temos certeza se existiu ou nos deram imagens que amontoamos na esperança de conseguir o que se chama vida». Este fragmento colectado de Não É Meia Noite Quem Quer (*) bem poderia servir de síntese temática sobre esse romance ou ainda de chave de leitura sobre os títulos da obra mais recente de António Lobo Antunes, estes que foram lidos pelo próprio escritor como a revisão obsessiva de um mesmo livro. A razão para tanto – a da síntese – é também enunciadora dessa afirmativa que o português faz sobre a sua obra.

Novamente, estamos diante do limiar da condição humana – território sobre o qual tão bem a literatura antuniana tem se construído. A voz que domina esse complexo labirinto de idas e vindas da memória ou esses lapsos que surgem numa e desaparecem noutra vez do pensamento é de uma mulher marcada por uma diversidade de perdas; o conjunto de iluminações nasce do seu reencontro com [o] passado através da visita à casa onde viveu até antes do casamento. É um fim de semana tomado pela revisão sobre grande parte dos episódios de um tempo quando o pai ainda vivo é um palerma, a mãe uma mulher visceral que não despreza a traição com os funcionários de grande monta que visitam a casa quando na ausência do companheiro sempre a se queixar do filho surdo – sua cruz, o irmão surdo que costura a narrativa com um refrão que também será síntese da obra – “Ata titi ata” (uma das variantes) e o irmão que foi para a Guerra [colonial] em África (ou não foi?) e suicidou-se jogando-se do penhasco para o mar, o que torna em figura obsessiva nos reflexos dessa narradora; narradora que está num casamento apagado, interrogando-se sobre sua própria sexualidade pelo suspeitoso envolvimento com a amiga Tininha, com a vida marcada pela perda de um seio para o câncer e do aborto de um filho – para citar outros três dramas maiores.

De facto, a presença do irmão suicida é a mais forte entre os frangalhos de recordação, que é afinal o corpo da obra; está alinhavada por uma extensa quantidade de trivialidades do dia-a-dia comum de uma menina de forte pendor introspectivo, às voltas na invenção de diálogos com e entre as árvores de próximo à casa onde vive ou inquieta ante o ir e vir dos pássaros, o fluxo do mar e, além da paisagem, também os objectos que estão no seu entorno; de uma menina que lembra continuamente determinadas situações, aquelas que ficam presas e vão e vêm como flashs toda vez que se confronta com o passado: uma ida à praia, os passeios de bicicleta com o irmão mais velho, as trapalhadas do irmão surdo, as queixas da mãe, o silêncio do pai envolvido pela bebida, as idas à venda do bairro, o contacto com os poucos vizinhos, etc. É afinal um passeio entre ruínas cujo interesse é coisa nenhuma; não estamos, por exemplo, ante uma personagem como é Maria Clara de Não entres tão depressa nessa noite escura, interessada em construir a história de seu passado a fim de se compreender na figura que é no presente da recordação. Não É Meia Noite Quem Quer é um fluxo contínuo do que vem à memória de alguém que depois de tanto tempo é confrontado com um passado que jurava apagado, mas está apenas adormecido. 

Por citar Não entres tão depressa nessa noite escura e este romance, é válido pensar na presença da noite como traço simbólico de aproximação e distinção das obras. No primeiro, o apelo é propulsor da acção contrária: uma viagem aos confins de noite, que é a um só tempo esse passado que assume a vida da personagem e a escuridão de seu próprio eu. No título ora lido, a afirmativa é quase uma tese a ser corroborada pela extensa visita a uma existência tomada pela presença recorrente da perda. Note-se, entretanto, que o tema perda é recorrente num e noutro romance; é a obsessão contínua de António Lobo Antunes com sua literatura. Em Não É Meia Noite Quem Quer é como se o autor estivesse interessado em dizer, depois de compreender a biografia de sua personagem, que nem todos estão condenados à escuridão da existência mas é para os que estão que devemos (ou a literatura deve) virar sua atenção. Isto é, o escritor irmana-se com parte mais frágil da humanidade, essa que é margem e passa despercebida aos olhos dos que estão imersos demais na correria da vida contemporânea e já não são mais capazes de ver os tragados pelo peso de existir ou o que a existência lhe reservou de contínua dor.

A sugestão do tema só estará nascida na leitura integral do romance e é uma poderosa estratégia ou desafio que o escritor lança para o leitor do mesmo lugar habitado pela poesia; não é o título de um poema uma fresta pela qual se espreita o volume de sua forma dada na leitura integral da peça? Pela recorrência nessa estratégia chamada pelo escritor de contra-epopeia, talvez seja exagero nenhum dizer que António Lobo Antunes se afirma com um autor de exímios poemas em prosa, já que sua narrativa nos propicia a mesma obsessão interior experimentada pela personagem; obriga-nos à posição de desassossego no sentido mais sincero dessa palavra. 

Se lembrarmos que do passado toda a grande literatura se manteve porque cultivou o verso ou que essa era a forma perfeita para traduzir também uma totalidade da existência e olharmos para o presente para ver que ao verso reduziu-se o conteúdo da lírica marcadamente descontínua e fragmentada também não será exagero dizer que o retorno feito pelo escritor português é uma resposta de, no mesmo desejo que sustentou a narrativa – o de melhor dizer sobre a realidade – melhor dizer sobre os movimentos internos do eu, única maquinaria que, fraca, resiste complexamente frente a um mundo de indivíduos e que já não é mais campo de aventura e experimentação para o homem.

É preciso dizer que a leitura de Não É Meia Noite Quem Quer, assim como a de nenhuma obra contemporânea, não está feita apenas se esbarrarmos na compreensão do cerzido das histórias engendradas pela narrativa (no caso do romance ora lido, trazidas pela memória da narradora); é preciso que o leitor tenha a mesma disposição aventureira de singrar por esse labirinto verbal para instalar algumas curiosidades que o permitam sair do universo aberto do romance a fim de buscar na possível rede de diálogos construídos pela obra e melhor sentir as filigranas da narrativa. Alguém terá dito sobre a poesia de Ezra Pound e a de T. S. Eliot que são tessituras marcadas pelo enigma estrategicamente arquitetado pelos poetas a partir da transfiguração de suas próprias Babel; na outra margem alguém terá chamado isso de incompetência poética porque uma vez decifrada a charada, o que sobraria do texto, se não uma velharia de palavras? Mas, será que os dessa margem terão conseguido tornar o poema em sucata ou terão sido sucateados pelo tempo? 

No caso de António Lobo Antunes há ainda outra linha que é necessário avivar entre os nomes que melhor terão dado ao texto o fôlego para tornar seus leitores tomados pela incapacidade de vencer integralmente as malhas do texto: a de sempre nos dá um novo texto – não só pela revisão da interpretação porque passa os sentidos de todo leitor mas pela possibilidade de descobrir outras narrativas igualmente possíveis ante a que formamos na primeira leitura ou a que nos é entregue pelas sinopses em notas como estas. O escritor faz o texto prolongar-se no infinito. Uma continuidade alimentada toda vez que despertamos [d]os seus livros e sobre a qual nunca temos controle. Um exemplo? O citado caso da ida ou não do irmão dessa narradora de Não É Meia Noite Quem Quer para a Guerra em África. Alguém poderá perguntar, afinal, qual importância tem isso para o andamento do romance e basta pensar que uma coisa é o suicídio ter sido um não definitivo à imposição de ir ao front e outra coisa é o suicídio ter sido depois de haver estado num inferno na terra. Há no primeiro gesto uma atitude de heroísmo muito cara às personagens antunianas, em grande parte, fiapos de gente teimando em alçar algum vôo a partir do convívio doloroso com o passado e o presente; essa personagem do romance ora lido, é um exemplo, não será alguém cujos sentidos se voltam cada vez para o irmão porque assim se vê em sua condição existencial? Já se a atitude tiver sido fruto do pós-guerra, amplia-se o legado medonho, a crítica ao Estado facínora, capaz de tornar homens em zumbis tal como é aquele soldado atormentado em Os cus de Judas.     

Sobre a necessidade de visitar outros lugares com os quais flertam essa narrativa, fiquemos com o título e a informação oferecida pelo romancista na epígrafe de que esta é uma frase de René Char; depois veremos, frase não, um verso do poema “De relance”, do poeta que integrou por um tempo os vultos do surrealismo francês, René Char: “Semeio com minhas mãos, / Planto com os meus rins; // É muda a chuva fina. // Numa estrada estreita, / Escrevo o meu segredo. // Não é meia noite quem quer // O eco é meu vizinho, / A bruma, a minha sequência”. Essas informações e a leitura do poema são, como vê, esclarecedoras sobre o romance: à medida que compreendemos o traço ou o tônus surrealista que corre de uma ponta a outra a narrativa, sabemos estar ante uma narradora que exercita-se na compreensão íntima (e pública quando somos seu espectador) de seus segredos feitos de ecos do passado e imprecisos da mesma maneira que uma bruma, incapaz de se rever como uma imagem pura e limpa porque isso não é o que somos, sobretudo quando somos noites. Agora, isso desaba o edifício verbal que é a obra? De maneira alguma. Amplia-o, permite ao leitor renovar o encanto pela narrativa e reinaugurar seu itinerário por ela.

(*) Apesar de ter sido publicada no Brasil como "Não é meia-noite quem quer", decidi usar a grafia original do título.


por Pedro Fernandes
em Letras In.verso e Re.verso
09.02.2016

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

21/05/2016

Bebel Lye opina sobre Os Cus de Judas

edição brasileira Alfaguara
Calma! Os cus de Judas é uma expressão portuguesa que equivale ao nosso dito popular "onde Judas perdeu as botas". 

Olá lyevráticos! Tudo bem com vocês? Quem segue o blog no Instagram sabe bem que o livro Os Cus de Judas, do autor António Lobo Antunes, deu trabalho para mim. O post de hoje  além de resenha, será uma conversa franca sobre esta obra. Bem, para começar adianto que se você for um leitor iniciante ou ainda não tiver uma boa bagagem literária, é interessante evitar este trabalho. Por um motivo muito simples: complexidade. 

ENREDO
O narrador - que é o personagem principal - é português, reside em Lisboa e é mandado para a guerra na África - local que ele denomina cus de Judas (onde Judas perdeu as botas) - para servir como médico. Na realidade a histórica começa com o próprio narrador contando sua experiência na guerra a uma moça num restaurante em Lisboa. Conta de seus medos, das tragédias que viu, das mulheres que teve, das noites que se masturbou, da esposa que sentiu saudade, da filha que não viu nascer...

Toda a história é em formato de monólogo e confesso que não achei o ápice do enredo - aquele momento crucial. É um livro de não tão simples compreensão, porque o tempo não é cronológico e sim, psicológico. O narrador é criança, de repente já está na guerra, depois volta a ser adolescente... Outra dificuldade são os fluxos de consciência e memória. Eles se sobrepõem à história sem nenhuma marcação nítida: o narrador está na guerra combatendo doenças num parágrafo e no outro já está em casa com sua filha em Lisboa, depois volta à guerra. 

Eu li a versão em ebook, que contém 91 páginas muito bem organizadas. Não perde em nada para a versão impressa - tive acesso as duas. Uma observação interessante vai para a escrita: se você for o tipo de leitor que não gosta de ler obras com palavrão, evite esse livro. Por ser num contexto de guerra, por falar bastante dos desejos sexuais dos homens e etc. e etc... A história tem muitos palavrões. Particularmente não gostei da forma com que o livro trata e retrata as mulheres, mas isso seria assunto para outro post.

O lado positivo - sim, o livro tem muita beleza! - na minha opinião é a forma com que o autor descreve a Guerra da África, a escravidão, o período fascista em vigor, as citações que faz sobre Salazar... Essa descrição, cheia de humanidade é linda. Sem dúvidas, isso é o que faz o livro ser uma verdadeira obra de arte. O narrador é muito marcante. 


por Bebel Lye
15.05.2016

Crónica «Nós» com reflexão sobre a sua leitura por Olga Fonseca

Nós Não precisávamos de falar. Como ele dizia – Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar ...