José Alexandre Ramos e a saudade do António
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| foto de Nuno Ferreira Santos |
meu amigo, minha referência, meu amor
quantas saudades tuas, homem! Uma saudade começada na ausência por não termos sido, de facto, tão próximos quanto desejaria
uma saudade de quando te ausentaste do mundo no qual sempre procuraste a humana condição
uma saudade que, também por essa ausência, deixaste de escrever
dessas saudades, mais saudade de ler-te na continuação do livro anterior, sempre vivendo dramas e particularidades do país que fomos e teimamos em não renovar; em cada novo livro fazias um manifesto pelas vozes que te povoavam a mão, na tua caligrafia redonda e miúda, a reclamar a atenção de como fomos feitos, quem somos, quem queremos ser amanhã
saudade de falar contigo e não entenderes, porque a surdez te alienava – ou seria a constante procura das melhores palavras para grafares, melhores que as ideias, pretendendo que essas palavras pudessem ser mais rápidas do que o pensamento?
saudades tuas, meu amor, minha referência, meu amigo
por que nos deixaste órfãos de coisa nenhuma e, ao mesmo tempo, de tudo?
quantas saudades tuas, Homem!
*
em memória de António Lobo Antunes

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