Teresa Carvalho: «As coisas aqui em baixo»
António Lobo Antunes fez do leitor – provocado, investido, ferido, apontado nas suas insuficiências, incapacidades, nas derrotas a que o tempo, uma vez expirado, o sujeita – um alvo.
Um cartão de visita encontrado nas páginas iniciais de Os Cus de Judas, romance publicado logo após o livro de estreia, ambos de 1979, apresenta-o sumariamente: «sou homem de um país estreito e velho», como quem revê, muito em baixa, cinco séculos de império colonial, quatro décadas de mística imperialista contra a maré da descolonização contemporânea, quinze de guerra colonial. É este país, perdido de si mesmo, de magreza sem remédio enfiada em casaco vários tamanhos acima, que António Lobo Antunes traz para o centro dos seus livros e cujos desnortes, tombos e feridas – abertas, mal lambidas, tratadas a sal – soube converter em fulgurante literatura. Do esplendor de Portugal, para onde quer que nos voltemos na obra que nos deixa, vislumbres no mais-que-perfeito, por morar já no passado do passado. O amigo do médico psiquiatra de romance que depressa se converteu num enorme sucesso editorial, arrisca uma definição do fino retângulo: «Dá-me ideia às vezes que Portugal todo é um pouco isso, o mau gosto da saudade em diminutivo e latidos enterrados debaixo de lápides pífias». Ciente de que a revolução deveria ter mudado a vida mas mudara apenas o regime, o Soldado de Fado Alexandrino, cujo fulcro é a revolução dos cravos, atira-nos com uma solução pouco ortodoxa: «para se fazer uma revolução a sério em Portugal tem de se matar os padres todos, os doutores todos, os ricos todos: pelo menos metade do país».
O autor de Explicação dos Pássaros nasceu como muitos dos seus romances vieram ao mundo – a ferros, e para continuar e aprofundar a revolução romanesca que o seu amigo José Cardoso Pires iniciara já ao publicar O Delfim (1968), com técnicas desenvoltas de montagem romanesca, excelente noção da escrita como acto de escuta, apta a absorver cenas do quotidiano com fino humor. As «Obras Completas de António Lobo Antunes», percorrendo todos os géneros, não tardariam a aparecer, naturalmente recolhidas ao eco morto da gaveta por lhe faltarem pernas para andar. Era ainda o tempo da infância, alheia ao ne varietur. Menino de coro na igreja de Benfica, entre castiçais e salmos, não pôde conter a pergunta da nacional desilusão: «Quando foi que nos fodemos?».
Intenso, irreverente – da estirpe dos provocadores, único, nunca se harmonizou com Deus, trazido ao campo manso dos mortais, sempre a fazerem vista grossa. Tanto assim que o Lobo Antunes ficcionista, acumulou pastas. Psicanalista, confessor, intérprete privilegiado da temática da viagem, e até chegou a fazer as vezes de uma crítica corajosa, pelo abc dos dias da semana: «estes jovens querem ser lidos na segunda-feira, ser publicados na terça, ter um êxito extraordinário na quarta, e ser traduzidos em todo mundo na quinta». E não embarcava na prosa piedosa das contracapas do romance contemporâneo. Impetuoso, temendo embora que a torneira se fechasse de vez, soube negociar com a morte: mais um romance, outro, outro ainda. Somou três dezenas. Obsessivo, brilhante, foi mestre da tropelia e da desconversa (que o diga quem o entrevistou). E também da analogia: elevadores que se avariam «num gemido de entorse», um lar, espécie de ruína de cemitério abandonado: «lustres partidos descolavam-se da pintura como cachos de desgosto não completamente chorados». Era tudo uma questão de forma e de magia: «por exemplo a minha mãe, menos nítida, de braço estendido para o fogão, a inventar [...] uma corola de chamazinhas azuis com o sexto dedo de um fósforo».
Eterno enamorado da metáfora, fez dos restos do salazarismo, sempre insepulto, um projeto museológico, visitável, por exemplo, no Auto dos Danados: «no quarto à esquerda o moribundo achatava[-se] nos lençóis, a cada hora mais magro, reduzido aos ossos reunidos por arames dos animais nos museus, com um letreiro a latim na cabeceira da cama, destinada a explicar uma espécie extinta aos colegiais que o visitavam». E fez do país um cais de regressos.
Recém-desembarcados das colónias de África, logo após a revolução de Abril, os heróis do mar, figuras maiores de um naufrágio histórico, aportam, em As Naus, a uma Lisboa que os despromove, cidade fria, cais de pedra toda arestas. Caso flagrante, a sofrer uma espécie de regressão na carreira, é o de Diogo Cão, fiscal da Companhia das Águas em Luanda. O que enfrentara epicamente o mar salgado é agora um «escudeiro do mar», na comum função de verificar os contadores das águas domesticamente canalizadas. Os salários em atraso, referência acessória apenas no campo discursivo, não são esquecidos.
Pedro Álvares Cabral, outro regressado de Além-Mar, é agora anti-herói, homem sem qualidades – nem qualificações. A necessidade de ganhar a vida em Lisboa, já que o navegador retornado não logra o merecido descanso, fruto do trabalho épico que realizara no passado (apenas no horizonte do leitor) fá-lo converter-se em pau para toda a obra: «Oferecia-me de aprendiz no martelar satânico, de sangue nas têmporas, das oficinas de serralharia, ou de marçano nos talhos de bácoros esventrados, de pestanas loiras de menina; tentava provar a capatazes de boina aos quadrados que era tão dextro como os cabo-verdianos das obras a furar à picareta o alcatrão das ruas, ou convencer os inspectores sanitários, de bafo de lula doente, que governava melhor os urinóis municipais do que os reformados trôpegos». Nuno Álvares Pereira também não está a salvo da despromoção. E, no seu caso, o abaixamento, tão caro à anti-epopeia, estende-se ao próprio físico: «homenzinho pequenino», a perder a condição de impoluto estratega militar, todo entregue a negócios escuros.
Grande despromoção é a que atinge o Infante D. Henrique, a seguir a via da irrisão: sem perder a sua imagem eclética – cruzado, mercador, cientista –, não é já o homem de vasta cultura geográfica que projetou novos rumos para o reino com a maturidade do saber, mas o visionário incauto, o fautor caprichoso, como deixam entender as palavras de Pedro Álvares Cabral: «Afastávamos a medo os reposteiros da sala e ele logo Descubram-me os Açores, e a gente descobria-os, Encontrem-me a Madeira, e a gente, que remédio, encontrava-a, Encalhem-me no Brasil e tragam-mo cá antes que um veneziano idiota o leve para Itália».
Ofício que se distingue dos demais, neste inventário de homens de todos os expedientes que nos oferece As Naus, é o de poeta, que Camões mantém nesta narrativa. O «homem de nome Luís» (que parece sofrer da angústia de todos os poetas de língua portuguesa: não ser Camões) vê-se a braços com duas tarefas espinhosas: escrever uma epopeia nacional em tempos de «deuses zangados»; libertar-se dos restos mortais do pai (o cabo dos trabalhos!), depositados numa urna que o próprio vate designa por «trambolho». O velho e absurdo império colonial não se arrumava facilmente nas traseiras...
O próprio Lobo Antunes, que conservou sempre a juventude da imaginação, nunca se cansou de regressar aos mesmos universos: a infância, os estragos da idade, a guerra colonial, o nó familiar que se desata, a casa que se esboroa em ruínas. Anne Dufourmantelle, filósofa e psicanalista francesa, lembra-nos que um falsário pode imitar o gesto do pintor ou o estilo de um escritor (e foram tantos, no caso de Lobo Antunes) e tornar a sua diferença impercetível, mas não poderá nunca fazer sua a obsessão deles. N’ O tamanho do Mundo, derradeiro romance, regressa o autor a outra das suas obsessões, como quem se reencontra com uma joia de família perdida: o anel feminino.
António Lobo Antunes fez do leitor – provocado, investido, ferido, apontado nas suas insuficiências, incapacidades, nas derrotas a que o tempo, uma vez expirado, o sujeita – um alvo. O leitor, por seu lado, tinha também as suas queixas. E como fidelíssimo doente em visita regular ao médico de família, sem mais sintomas que os habituais, voltava sempre. E lá ia o poliqueixoso dizendo da incompreensão inicial que experimentava ao ler os romances do autor, dos meio-ditos, do dédalo de vozes, das meditações abstratas. A verdade é que podia sempre agarrar-se à saúde forte da sua escrita enérgica, sacudida, fortemente visual – sem par.
por Teresa Carvalho
14.03.2026

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