André Carrilho (ilustrador)
da página facebook de André Carrilho:
«Provavelmente ele nunca soube, mas a fisionomia de António Lobo Antunes esteve ligada a pontos-chave da minha carreira de retratista. Desenhei-o pela primeira vez em 2001, para o Público (terceiro desenho).
Foi um retrato que incluí no portfolio que enviei para o The New York Times em 2003 e que os fez darem-me trabalho. Nem de propósito, um dos primeiros desenhos que me pediram foi justamente um retrato do escritor (segundo desenho). Em 2009, desenhei-o outra vez, para a The New Yorker (terceiro desenho).
Sempre incluí desenhos de portugueses no meu portfolio internacional, por uma combinação de orgulho e teimosia. Porque nunca fingi ser outra coisa a não ser português. O meu cartão de visita eram as nossas caras, e a do António Lobo Antunes foi uma das principais.
Agora, ando a ler livros sobre a guerra colonial. Há umas semanas acabei “Os Cus de Judas.” Sublinhei muitas passagens, mas partilho esta, ainda pertinente décadas depois de ter sido escrita:
“Viu por acaso como nos assustamos se alguém, genuinamente, sem segundos pensamentos, se nos entrega, como não suportamos um afecto sincero, incondicional, sem exigência de troca? A esses, os Camilos Torres, os Guevaras, os Allendes, apressamo-nos a matá-los porque o seu combativo amor nos incomoda, procuramo-los de bazooka ao ombro raivosos, nas florestas da Bolívia, bombardeamos-lhes os palácios, colocamos no seu lugar sujeitos cruéis e viscosos, mais parecidos connosco, cujos bigodes nos não trepam pelo esófago refluxos verdes de remorso.” (p. 139)
A sua lucidez vai fazer falta. Que descanse em paz, caro António Lobo Antunes.»



Comentários
Enviar um comentário