Lídia Jorge: «António Lobo Antunes e a grandiosidade da obra que deixa aos leitores de todo o mundo»
O que disse Lídia Jorge no fatal dia 5 de março, e que aqui fazia falta. Apesar de ter sido escrito (no Público), na altura em que o António nos deixou, as palavras desta igualmente grande escritora dizem assertivamente o que significa a literatura de António Lobo Antunes.
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| os jovens António Lobo Antunes e Lídia Jorge, na década de 80 - autor da foto desconhecido |
É difícil escrever estas palavras. Tudo o que posso dizer é que António Lobo Antunes deixa uma obra singular, inovadora e que cumpre por inteiro o que se pede a um grande escritor – foi uma testemunha atenta do seu tempo e soube transfigurar a experiência pessoal numa saga que toca a humanidade. De certa forma, o autor de Os Cus de Judas inscreve-se na genealogia dos escritores europeus que desde o início do século XX encararam o tema do colapso dos impérios como divisa da sua escrita.
Lobo Antunes vem na esteira de Joseph Conrad, que iniciou a desocultação da relação entre colono e colonizado com a publicação de O Coração das Trevas, abrindo portas literárias para uma nova relação humana. Porém, a singularidade de Lobo Antunes resulta de ter sido capaz de unir a experiência histórica de um português que foi à guerra – ao longo da vida ouviu milhares de pacientes – a uma escrita de matriz subjectiva com recurso ao melhor que a sofisticação da língua portuguesa oferece.
Ele recorreu ao modelo do romance modernista, intimista e psicológico, para dar conta dos efeitos da ditadura, da colonização e da descolonização nos comportamentos humanos. Ao cruzar de forma poética o mundo real objectivo e o mundo subjectivo, António Lobo Antunes foi capaz de criar um estilo próprio caracterizado por uma voz íntima, uma música secreta singular, que, embora imitável, nunca o imitado se lhe assemelha.
António Lobo Antunes deixou-se levar pela linguagem até às zonas onde se perde o medo, o pudor e a concessão, para colocar um país inteiro revelado diante de si mesmo. Alguém escreveu que a sua escrita sobreviveria quer fosse em papel, num écran ou num pedaço de barro. Creio que sim. O próprio costumava dizer que dia em que não escrevesse se sentia sujo como se não tomasse banho. Mas agora, que deixa de estar vivo, a sua vida deve limitar-se à vida que está contida nas páginas dos seus livros. A palavra generosidade tem muitas faces, a face que se lhe deve aplicar reside na grandiosidade da obra que deixa aos leitores de todo o mundo.
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Boliqueime, 5 de Março, 2026por Lídia Jorge
05.03.2026

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