Rui Pedro Gomes: «Lobo Antunes, 83»

Adverte a fonte - Comunidade Cultura e Arte- que a crónica a seguir transcrita foi originalmente publicada em setembro de 2025. Provavelmente, a assinalar o 83º aniversário de António Lobo Antunes.

Lobo Antunes, 83

Um velejador de uma espécie e de um país.

Há dias, num dia especialmente normal, dei com a conta de António Lobo Antunes no Instagram. Um acaso; feliz acaso. Entre fotografias de eventos e anúncios dos seus livros numa nova língua, encontrei-o. Num rabisco de escrita matinal, uma foto de frases quietas em papéis dos Serviços Clínicos do Hospital Miguel Bombarda, lá estava a caneta azul e em letras gordas: “não me sacudam que estou cheio de lágrimas”.

É como lembro Lobo Antunes: cheio de lágrimas contidas. Sentado num banco qualquer de um dos últimos quiosques de Benfica, a conversar com um pedinte. A extrair-lhe a vida com bons dias e boas tardes, cheio das lágrimas que guiarão a caneta Bic da manhã seguinte. Prestes a pintar a dor de tinta azul. Em português, ninguém navegou a dor como ele.

Porque é o que ele é: um velejador de uma espécie e de um país. Nós humanos; nós portugueses. E é-o pela coragem que se vê nos poucos que sujam as mãos na Humanidade. Nos ruídos dos restaurantes onde se discutem princípios de divórcios e mortes de causa incerta; nas salas de hospital onde ossos e músculos gritam; nos episódios de guerra que envergonham o Diabo.

Porque nos mostra que a vida é tão brutal como dual. Uma faca de dois gumes que, por ser faca, corta e também trata. Que o humano é mau, com instantes de bondade, e vice-versa. Que o Diabo e o Anjo convivem.

Confesso, leitor: conheci a sua obra tarde demais; mas cedo me apaixonei por ela. E nunca é tarde para uma paixão, com tudo o que dela advém: turbulência, descoberta, violência, o encantamento sucessivo. Lobo Antunes suga-nos para mundos que conhecemos e de que nos esquivamos.

Pois entendeu que não há fuga da Humanidade: ela impõe-se. No berço, na infância, na adolescência, na adultez, na vida pessoal, na dos conhecidos e desconhecidos. Não se foge da personalidade. Lobo Antunes percebeu-o na relação fria com os pais e protocolar com os irmãos – como ele, também brilhantes.

Em voz grave e escondida, criou uma forma de expressão; uma maneira de ser. Por uma escrita que, em cada parágrafo, em cada diálogo, se vê o fundo – nos romances e nas crónicas, que sempre desprezou.

Certo dia, chamou-lhes a “piscina dos pequeninos”. Discordo dele. Também dele discordariam graúdos cronistas como Rubem Braga ou Miguel Esteves Cardoso. Gente da piscina dos adultos. Guardo os dois tomos das suas crónicas, ao pé dos romances, com afeto. Guardo especialmente certas crónicas.

Aquelas sobre a família, a morte dos irmãos e da mãe, sobre as paixões suburbanas, e os relatos sobre amigos. Sobre Cardoso Pires, seu companheiro de ofício e de vida, sobre Júlio Pomar, sobre Ramalho Eanes, sobre Miguel Veiga, com quem pouco conviveu, mas cedo simpatizou. Numa carta, disse-lhe uma vez o essencial: “As três coisas mais importantes na vida são a amizade, as mulheres e os livros. Tudo o resto é vão e acessório”.

Miguel Veiga viria a contar, numa entrevista, que o pedaço de carta lhe era autobiográfico. Partilho dessa certeza. Foi com Lobo Antunes que aprendi muito do que realmente importa e a ele devo muitos mergulhos de alma. Impagáveis: nem por esta crónica, nem por mil, nem por cheque bancário.

Conhecer a sua obra é aprender lições preciosas. Eu aprendi; uma geração aprendeu. Levo cada lição – as escritas e as não escritas – como água que vem da fonte; sei o que é vital.

Sei que António Lobo Antunes, aos 83 anos, ainda nos lembra do dever que permite sobreviver à vida.

Dar beleza à dor.


por Rui Pedro Gomes
foto de Reinaldo Rodrigues

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