Crónica de José Alexandre Ramos em «a justa geografia»
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| foto de Georgina Noronha |
E agora? Sei que há alguns anos te resolveste ao silêncio
(esse silêncio com que escrevias, entendido e respeitado por uns, motivo de chacota para outros)
vivendo o teu mundo sem o auxiliar que te devolvia ao som do mundo, e – sabes? – o mundo cada vez mais deixa de ter som que se queira mesmo ouvir. Ensurdece. Pelo que fizeste bem, para o teu bem, para o bem dos teus. Então, e agora? Partiste sem o último abraço, o último beijo. Sinto ainda na minha face o beijo que me deste, da última vez que vi, de robe e chinelos, chapéu cobrindo o pouco cabelo que tinhas
- Vejo-me ao espelho da barba e não reconheço quem está ali
o fumo do cigarro pendurado entre os teus dedos, a ocupar o espaço vazio entre o disseste e o que eu entendia. As tuas entrevistas para as quais fizeste um boneco e eu entendia.
Entendo bem. Escrever é agarrar a solidão e fazer dela arte. Disseste
- Não importa a ideia de escrever, o mais importante são as palavras
e eu cheio de ideias para escrever e sem quaisquer palavras. Quis aprender contigo, era muito novo, escrevia execrável. Não que tenha evoluído muito, mas tento. Tento que as palavras sejam mais do que a ideia. Portanto, escrevo o que a mão quer, guiada por sabias lá dizer, eu também não sei, só sei que é assim: a mão pronta e escreve, não aquilo que pensei, mas outra coisa. Consegui mais ou menos. Consegui o possível.
Algo assim: a morte chega no imprevisto silêncio do crepúsculo. Assim eu escrevi, há anos. Mal sabia que, no crepúsculo de um dia deste mal nascido março, teria a má nova da tua morte. Diz-me: és agora um glóbulo que corre no meu sangue? Diz-me: como é ser morto? Por que não respondes? Por que deixei de ouvir a tua caneta riscando o papel?
Deixamos todos nós, os que te lêem, o que esperávamos ler e não concluíste no último livro. Sempre foi assim, tudo encadeado de voz para voz, de personagem para personagem, de livro para livro. E agora? Sim, olhar para cada um dos outros e vermo-nos neles. A nesga do Tejo ou do Douro, ou outro qualquer rio, como vista privilegiada de um pequeno apartamento de subúrbio. A vidinha simples de cada um de nós, complicando-se. Sim, os fantasmas que falam noite dentro.
Como uma casa em chamas, não é? Lugares comuns como os antigos naperons sobre os sofás. O cheiro da sopa que vem da cozinha. O jornal, a televisão debitando os males do mundo, e nós abstractos perante tanta miséria ao jantar. Já nos basta os comezinhos conflitos familiares, por que ideia queremos nós saber do mundo?
Tanta verborreia. Decidirias que esta crónica é uma merda. Aceito, aceitando pelos outros o quanto estão convencidos de que são verdadeiros escritores. Que, ao saber do teu desdém, nefastos se manifestavam em colunas de jornais, revistas, online, para dizer que estavas ultrapassado. Ignorância a roçar a blasfémia. Ninguém escreveu quanto tu, ninguém ainda é capaz de deixar um legado que dê trabalho aos críticos durante quinhentos anos. Como Camões. Meu Camões de olho azul, e agora?
Sinto-me órfão outra vez. Como posso carregar com brio e engenho o teu legado? Lendo e relendo-te simplesmente? Imitando-te como imitam os macacos que viste a primeira vez macacando quando o avô Antunes te levou ao jardim zoológico? De facto, isto não presta, não ligues, não dês importância. Creio que também sei remeter-me ao silêncio, escusando-me de mais nada dizer, escrever. Como o escrivão de Melville. Esse dia há-de chegar. Entretanto, sinto que quero continuar escrevendo, bem ou mal. Porquê? Tu próprio o disseste
- Por que dá maçãs uma macieira?
Enfim. Não sei mais. Acendo um cigarro
(já não te lembras disso, entraste no teu mundo interior e esqueceste de levar o maço de marlboro)
puxo uma longa fumaça, olho a estante onde estás, onde ainda tenho a tua voz, admiro o poster que me deste
(curioso: um poster sobre a edição em alemão d’ O Manual dos Inquisidores, o livro que me fez apaixonar pelos teus livros; aliás: adoecer, adoecer com todos os teus livros)
olho a tarde baixando pela janela onde há muito não tenho uma nesga do rio Douro, e pergunto
- E agora, António?
Eu, que me comovo por tudo e por nada, como serei depois de ti?
*
publicado em «a justa geografia»
07.03.2026

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