António Lobo Antunes. Ter estômago para digerir o fim do mundo

O nosso último gigante nas letras mundiais morreu aos 83 anos deixando uma obra irascível, desequilibrada, torrencial, e que representou um dos mais decisivos confrontos com a memória e a nossa história recente, a guerra colonial e o desfecho do império, a desagregação e a senilidade da condição de vida burguesa.


Um dia destes, encontramo-nos todos no pó. Mas alguns homens houve que, por desespero, sempre se relacionaram com a vida deixando-se comover excessivamente, dominar por ímpetos imoderados, e nos sucessivos derrubes ao longo de uma vida desabalada, isso veio a resultar num convívio antecipado com a morte, que os fez voltarem-se para esse resíduo que persiste e vai além da vida, a música que fica de cada época, bebendo e buscando esse sentido mais fundo, que, leal à nossa vulnerabilidade, se liberta da lei que a todos nos tolhe. Assim nasce aquela música que erguem uns poucos contra a inclemência do tempo. Paixão e morte, uma estimando e endoidecendo a outra. E ele filtrando essa cumplicidade, os detalhes sórdidos ou sumptuosos, ocupando os ângulos, firmando esse pacto terrível, convicto de que a morte não o apanharia no interior da música. Assim, a vida inteira, António Lobo Antunes empenhou-a nessa desordem provocada, conquistando-a, para arrastá-la consigo num delírio organizado.

Dos romances que foram muito além da conta (32 ao todo), tantos deles já afanosamente redundantes, à «prosa alimentar» das crónicas, além de prolífico, não soube manter uma certa reserva, e poupar-nos aos efeitos de dramaturgia barata e auto-promocional daquele personagem que tinha tanto de incerimonioso que raiava muitas vezes o patético, sempre com fitas de génio mimalho, soberbamente envaidecido, que o tornavam insuportável para quem queria levá-lo a sério como homem e como escritor. No entanto, nunca ninguém deixou de lhe reconhecer a sua centralidade numa «revolução» do romance português que se deu no século XX, com figuras como Nemésio, Agustina, Virgílio Ferreira, Jorge de Sena, Velho da Costa, Saramago e poucos mais. O seu talento esteve sempre naquele modo de colorir contra o desenho, ultrapassando os contornos, agitando e desflorando aquela «suave inércia do desespero», com uma endemoninhada obra onde o passado e a História recente são chamados para uma bulha infindável, numa ordenação pessoalíssima das impressões, dos elementos dramáticos, em que o seu imenso tratado das paixões da alma promove uma vertigem que se despoja de todos os elementos de solenidade, e atinge o nervo daquela capacidade de sentir e presenciar a realidade, de ficarmos imersos, de encadearmos as sensações em nós memoriosos. Isto só é possível porque esta arte assume uma avassaladora força corrosiva, alucinada, minuciosa até à abjecção.

«Cada época tem os seus imprecadores», diz-nos Agustina Bessa-Luís num texto que lhe dedicou. «Eles velam para que a sociedade morna e adocicada não se condene à sombra da sua falsa sensibilidade.»

Em Lobo Antunes o real assume-se fantástico naquela propensão para o desaire, e tudo desponta do estilo, mais do que a intriga, de qualquer veio que determine a acção, está a desaustinada variação a partir de elementos constantes, gerando planos elípticos, uma fúria absorvente, barroca, e que produz esses reflexos distorcidos, «imagens mórbidas», num vigor extenuante. Lobo Antunes exprimiu-se sempre por meio dessas «litanias melífluas» (Patrícia Cabral). E se no princípio era o verbo, ele abdicou de qualquer posição dianteira, preferindo ficar para o fim, apropriando-se da vertigem escatológica. Depois de já todos os editais celestes terem deixado roucos e perros os anjos, ele veio para produzir um juízo desses para dar cabo das hierarquias, sendo um desses animais de porte imenso que foi beber na confusão dos reflexos, nessa superfície espelhar onde era possível assistir ao filme da desintegração de todas as nossas referências, retirando a sua força da crise dos grandes sistemas de síntese. Com aquelas suas investidas, Lobo Antunes «destrói uma certa sacralidade inibidora da linguagem literária» (Isabel Margarida Duarte), e a sua obra vem falar-nos sobre a enorme desolação que nos habita dada a reverberação dos efeitos da fatal perda da unidade da criação. É a prodigalidade absurda daquele estilo o último pacto de sentido que resta, e aquela «compulsão metafórica», a fluência torrencial daquelas páginas ofegantes, bem como a risível e pungente humanidade que nos assalta nos seus romances, confronta-nos com essa segunda dimensão da queda, que não passa apenas por deitar sal nas feridas nacionais, mas reconhecer como as engrenagens afectivas estavam a estiolar-se, e parecíamos desfeitos por uma incapacidade de nos reconhecermos uns nos outros, afectados por uma espécie de prosopagnosia, de «cegueira facial», determinada pela incapacidade de fixar laços com algum grau de definição, de modo a resistirem aos abalos de uma vida sem um horizonte social ou político comum. Assim, aquela vocação do diagnóstico social que tanto se generalizou reconhece essa angústia de absorver em si o mundo e irradia-lo de forma minimamente consequente. Aqui os heróis são esses seres escaqueirados, como refere Júlio Conrado, adiantando que algum peso teve a experiência do psiquiatra na forma como o romancista abriu caminho à perfídia da viagem confessional, que ratifica, mas também se insubordina face àquela realidade de uma burguesia anti-heróica, à deriva entre os fragmentos da sua antiga unidade espiritual… «Burguesia náufraga que deixou de fazer avançar (…) o seu corpo policial de defesa dos bons costumes». Assim, como vinca este crítico, Lobo Antunes surpreende o movimento deslizante do seu estrato social para a feliz agonia da perda de identidade.

Os seus romances constituem um infindável repositório desses sinais de uma desagregação do todo sentido da forma mais íntima. Por isso, ele nos fornece esse mosaico em que, mais do que os signos ou as imagens, é na própria fragmentação do espelho, nas fracturas e fendas que se acha o impulso das ramificações múltiplas de que a trama se governa, formulando esse «repositório final de obsessões num entrelaçado contínuo: repetições monótonas e absurdas, delírios mentais, deformidades físicas, acentos caricaturais (…), excrementos, poluições – tudo envolvido numa teia cancerosa da qual nada escapa: personagens, paisagens, cenários, objectos, memórias, projectos, ilusões». Foi Dinis Machado quem nos forneceu a melhor chave de compreensão deste controvertido friso, e isto logo em 1983, num texto dividido em «doze notas» e que submete a análise o romance Fado Alexandrino, um dos mais ambiciosos do autor, e talvez aquele em que pela primeira vez e de forma mais empenhada ele se obrigou a uma «conjugação conflituosa de tempo, espaço e vozes plurais» (Cardoso Pires). Assim, Machado reconhece como este nos coloca perante «um painel de situações deterioradas, armazém de matérias putrefactas, de sonhos gastos e de gestos perdidos, [o qual] flutua, à deriva, no caudal do texto, que se vai revelando a pouco e pouco como pauta musical, com a descoberta de sonoridades e execução de andamentos». O autor de O que diz Molero, foi também o primeiro a traçar um paralelo decisivo nas apreciações que outros fariam desta obra, notando como nela se acumula «uma espécie de arsenal Felliniano, com a aparente desorganização visual e a função movediça de uma escrita que se não limita a encorpar o real mas, também, a desmesurá-lo». Aponta ainda para a forma como o texto antuniano «manobra agilmente por entre excessos, carências, falhas e sobras. E faz-se disso, numa tarefa de arrasto. Daí a sua permanente oscilação, a sua vocação cataclísmica.»

Assim, há um método em toda aquela loucura, naquele estilo atravancado de imagens, uma proliferação de imagens que se reproduzem, ilustrando uma praga que em vez de significar abundância, é um negativo daquele fulgor genesíaco, como se cada reflexo absorvesse aquilo que lhe deu origem, um regime de devoração, em que de cada objecto só restam já os sinais da sua consumição, as migalhas os detritos. Por isso, as imagens são ruínas, restos que se decompõem interminavelmente, havendo um esforço de refazer a unidade apenas para se ser tomado pela desolação de a sentir desfazer-se – peças de um puzzle cada vez mais difícil de remontar, peças de enredos ondulantes, como marés de um mar diáfano ou colérico. Tudo isto encerra o escritor numa espécie de maldição, pois a clareza das suas percepções devolvem-no uma e outra vez à costa apenas para se lançar uma vez mais com toda aquela febril impotência contra as vagas, numa embarcação improvisada em que mete à cunha tudo o que pode, arca de um Noé desvairado que, como assinala Machado, reconhece que «não há terapêutica possível senão a condenação de continuar a escrever», sendo que, com todo este esforço, «envenena sistematicamente as estruturas do romance». A moeda de troca, diz-nos Machado, é esta: «esconjuro-me naquilo que retenho, medico-me naquilo que escrevo».

Não há libertação, nem cura, mas para não se ficar inteiramente desarmado, o escritor encontra dentro de si mesmo essa dimensão apocalíptica, estende entre os seus nervos, na armação da sua consciência todos os elementos de uma hecatombe, como se lhe coubesse a ele digerir o fim do mundo. «Quando me abrirem a barriga numa mesa operatória, à procura do fígado, ou da vesícula, ou do estômago, encontram em lugar de vísceras um silêncio de quintas desertas e o ladrar longínquo dos cães, a inquietação dos cães chamando, sobressaltados, a madrugada.» A morte dilata-se também ela, é a imagem das imagens, o próprio plano, essa vida detida e disposta numa imagem. E a decomposição pós-mortem desencadeia uma formação de sentidos tão delicados como aquela renda ou as teias de aranha entre as quais o vento constrói uma melodia que domina todos os sentidos.

Assim, como nota Machado, o que está por trás da técnica textual de Lobo Antunes é essa forma de manejar uma fábrica de detritos, um horizonte de destroços, que pode ser ameaçador e inibidor da acção, a menos que o escritor saiba servir-se da metáfora, da imagem e da comparação como pontos de apoio, de código de comunicação, de auto-esclarecimento e de prazer da escrita. «As súbitas alterações de tempos e de falas, os movimentos descontínuos em que se elaboram resultam, paradoxalmente, da necessidade e do desejo de ‘fixar’.»

Por trás daquela escrita em «vendaval», Lobo Antunes parece uivar como um velho que sente a aproximação da senilidade, tentando segurar uma memória feita livro, «como espectros acotovelados e insones», assim traduzindo essa «mágoa que todos mais ou menos transportamos». Não só da revolução que algures falhou, mas depois da forma como esse elemento de sonho se fez em pó nas nossas vidas íntimas. Assim, Cardoso Pires assinala como naquelas páginas tantas vezes há uma incitação ao combate e logo depois à resignação, ao passo que o amor surge como essa «pausa enganadora do destino irrecusável dos condenados». Somos obrigados a um processo de análise e reconhecimento dessa falha, desse pecado que não se prende com as origens mas com os desfechos, essa falha derradeira do nosso carácter, a desistência, todos esse momentos em que o ideal e a generosidade faleceram perante o peso das circunstâncias… Atravessamos um deserto interior, «páginas e páginas de averbações e de contenção, o sorriso que dói, a imprecação, a aventura de narrar em sacrilégio e em risco aberto, a descrição ad libitum em caudal e em gume ardente – tudo, ah sim, tudo o que torna única e blasfema a voz de um romancista assim, coroada por polissemias perturbadoras» (Cardoso Pires).

Há algo como uma arte derradeira, funambulesca, a de uma gravidade intensificado, a do confronto total, em que cada gesto se revê de forma quase imediata no seu reflexo, como se o tempo se esgotasse em si próprio, a própria respiração das frases embaciasse o espelho, como se o leitor não pudesse deixar de se sentir posto em causa, a viver e a ser sujeito em simultâneo a esse exame invasivo, como se pudesse sentir a morte a respirar-lhe contra a nuca. E daí essa obstinada procura que Lobo Antunes empreende e para a qual arrasta o leitor, a busca desse «som longínquo, tarefa complementar e subterrânea, de ‘la petite musique’ do escritor», vinca Dinis Machado.

Paulo Castilho foi dos primeiros a vincular esta obra romanesca à expressão de uma sensibilidade estilhaçada, reconhecendo a forma como Lobo Antunes representa o homem moralmente destruído, fazendo vibrar sobre qualquer das suas personagens golpes sucessivos e impiedosos, «até deixar de pé apenas a ruína da personagem». A pulsação e truculência da sua escrita, o seu exibicionismo verbal resulta, de acordo com Castilho, numa «espécie de fotografia retocada até à saturação». Por outro lado, este retrato sem concessões que Lobo Antunes nos oferece não representa apenas o «photomaton», pois se há nesta escrita «ferozmente inconformada, quer literária, quer factualmente, um esforço de cobrir o concreto e o real com vários ecos simultâneos de memória e de delírio, de renúncia e de humor» (Cardoso Pires), percebe-se como Lobo Antunes queria ir além do diagnóstico. Havia nele algo daquela cólera de não sermos deuses, essa que é a verdadeira força da poesia. «O ódio é vital para a saúde», declara uma personagem de Auto dos Danados. O lado excessivo da escrita de Lobo Antunes não se confunde com uma prescrição, mas está do lado de uma insurreição que, mesmo sabendo-se ineficaz, recusa apaziguar-se.

Ele escrevia à mão, como se sabe, naquela «letra embrionária e ínfima», e parecia fazê-lo não apenas para provar o seu génio, mas também, como Saramago, para interceder por este país face ao seu destino, para resgatá-lo da propensão mendicante, para o sacudir de um estupor de séculos, para o corromper e sobressaltar, levá-lo de volta à aleivosia e truculência dos períodos em que se mostrou mais desabusado e insolente, de forma a arrancar de vez a sua própria mitologia. «Gostaria que alguém me explicasse por que razão nada neste país alguma vez muda», lamenta uma personagem de Manual dos Inquisidores. Se não havia forma de o fazer sair dos eixos, descarrilar, talvez construindo um espelho malicioso, que lhe devolvesse um reflexo contagiado, uma respiração que lhe aquecesse as face, o pusesse diante de uma metamorfose grotesca, capaz de afrontar triunfalmente a estagnação desta sociedade.

«A possibilidade é a sombra da realidade», diz-nos Bessa-Luís. «Isto é o que nos define: a sombra da realidade». Se o escritor parte necessariamente daquilo que o atravessa, dessas paixões quebradiças, ligeiras, enfáticas, duma cupidez receosa, duma impotência febril, é possível articular através das suas experiências e aflições um reservatório para encadear formas de delírio urgentes. Agustina reconheceu como ele se mostrava «dotado duma paciência que é o signo do sonhador, mas uma paciência que toma aspectos irados e que é o timbre às vezes dos homens malditos». Ele era «aquele que leva, para além da moldura doméstica, a sua bagagem de coisas e emoções para as converter no fio mais resistente das ideias». E Lobo Antunes nunca renegou esse elemento da sua bibliografia como uma bibliologia, de um modo de confissão exuberante, tendo sublinhado numa das suas crónicas a célebre frase de García Márquez que surge no romance O Amor em Tempos de Cólera: «O coração tem mais quartos do que uma casa de putas.»

No fundo, ele partiu das suas insuficiências para impor esse grau de exigência estarrecedora, e isto num tempo em que nos víamos habituados a dietas linguísticas que já não permitiam assumir grande revolta contra aquela sensibilidade que fazia por se adequar aos rigorismos de uma sociedade industrializada em todos os seus efeitos. Agustina fez-lhe o maior dos elogios que um escritor pode afazer a outro, reconhecendo que ele se parecia com ela num aspecto fundamental: «somos ambos incorrigíveis», e adiantou que o traço crucial que define os escritores é essa relação que os faz sentir o mundo como algo que é limitado. Lobo Antunes empreendeu assim esse conflito contra os limites, essa ira de quem percebe que «não são os sentimentos nobres das pessoas, mas o ácido prazer de amar seja o que for» (Agustina) aquilo que permite a um mero mortal fazer rachar os mármores e provocar uma debandada que perturbe o sonho dos deuses. Nunca fez outra coisa senão divagar aflitivamente, divagar e insurgir-se, contra tudo, todos… «divago como um velho num banco de jardim perdido no esquisito labirinto do passado, a mastigar recordações no meio de bustos e de pombos, de bolsos cheios de selos, de palitos e de capicuas, movendo continuamente os queixos como se premeditasse um escarro fantástico e definitivo».


por Diogo Vaz Pinto
05.03.2026

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