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Vinicius Jatoba: sobre Conhecimento do Inferno


Poucos sobrenomes resumem tanto uma obra: o comportamento soturno do lobo, sua elegante agressividade e aura de mistério, esses são os predicativos exactos para a compulsiva sequência de romances do maior vulto do romance português recente. Cada um num sentido, e com suas respectivas codas criativas abrangendo as últimas três décadas em momentos diferentes, José Cardoso Pires, José Saramago e António Lobo Antunes formam uma rica e plural biblioteca que vazou Portugal em todas suas possíveis representações, da mais alegórica à banal, da pública e solar à íntima e nocturna. Com Saramago bem editado e lido no País, e todas as principais obras de Cardoso Pires em catálogo esperando reimpressões, chegou o momento de Lobo Antunes alcançar um merecido público maior. No espaço de menos de um ano terá publicado ‘Conhecimento do Inferno’, um de seus primeiros livros, e ‘Eu Hei-de Amar uma Pedra’, seu último romance; e será justamente a edição progressiva de livros dos diferentes pólos desse arco que dará ao leitor a ideia exacta de que António Lobo Antunes, o escritor genioso, teve que trabalhar muito antes de ser, afinal, António Lobo Antunes, o escritor brilhante que encontrou novas técnicas de representar memória, trauma e neurose na literatura.

Ainda que marcado pelo trânsito, por um movimento pendular entre Portugal e África, Conhecimento do Inferno possui um tempo bem definido: seu narrador, um médico psiquiatra, viaja de carro de Algarve até Lisboa por uma tarde e noite e enquanto descreve os lugares por onde passa pensamentos de diversas ordens e naturezas lhe atravessam num fluxo verbal de alta dosagem lírica. Os primeiros quatro romances de Lobo Antunes, [...], alimentam-se de uma mesma e recorrente experiência autobiográfica: a guerra colonial em África, o exercício pouco inspirado da medicina, a difícil transição entre o homem que sente e o homem que escreve, a impossibilidade do afecto, seja ele entre parentes, seja no matrimónio. O narrador tem um romance que deseja acabar; o nome do próprio autor, Lobo Antunes, aparece no texto; e o hospital que é cenário de parte do livro é o mesmo onde Antunes trabalhava naquele momento - essas referências são os alicerces que garantem a fortaleza dos textos desse primeiro Lobo Antunes: há um gosto metálico e contagiante no modo visceral de se ver o mundo, a linguagem é tão pessoal que se aproxima do diário e da confissão, e é forte a impressão que o livro deixa mesmo muito tempo após a leitura. Porém, há um porém. É compreensível que em 1980, ano de sua publicação original, o livro tenho causado enorme entusiasmo, tanto pelos seus temas até então inéditos na literatura portuguesa quanto pela grotesca força de sua linguagem. Hoje se percebe, contudo, que o livro envelheceu mal. E por dois motivos: a guinada que o trabalho de Lobo Antunes deu na década de 90 a partir do extraordinário ‘A Ordem Natural das Coisas’, romance em que o autor parece estar finalmente à vontade com seu talento; e também pela própria percepção de que a experiência que Antunes explora nesses primeiros livros é menos rica que a retórica ao redor dela tenta indicar. Nesses livros há um tremular agitado na superfície da água que espanta e distrai; décadas depois, no entanto, pode-se perceber que o que era mar é mais poça que os leitores inaugurais poderiam supor, e o próprio Lobo Antunes é o primeiro a afirmar seu honesto desconforto em relação ao seu trabalho anterior a ‘Tratado das Paixões da Alma’. Nesses livros Antunes força muito em sua busca pela originalidade, e há nessa batalha textual um evidente conflito entre sua imaginação absolutamente poética e a necessária pobreza inerente à construção da ficção em prosa, que muitas vezes deve descartar a beleza na busca da eficácia. A natureza metafórica de Conhecimento do Inferno, sua exuberância de imagens aberrantes, faz com que o enredo não avance e se torne nebuloso, impasse esse que Antunes transformará na principal qualidade de sua obra de maturidade ao demitir quase completamente as amarras do enredo. O romance lírico, a que Lobo Antunes tenta em vão se filiar no início de sua trajectória, deve sua natureza mais a uma construção detalhista da atmosfera do que ao acumulo inflacionado de imagens e adjectivos; por outro lado, enquanto narrativas de denúncia social de um autor que nunca escapou do engajamento no campo da ficção, as obras-primas ‘Exortação aos Crocodilos’ e ‘Manual dos Inquisidores’ conseguem mais com estratégias indirectas muito distintas de certos momentos de Conhecimento do Inferno em que Antunes simplesmente ilumina demais suas visões políticas, tornando-se até algo didáctico.

Para antes de sua maturidade um escritor, um grande escritor, costuma deixar uma turba de corpos tortos; livros nascem de livros, e dentro da trajectória de um autor seus próprios livros vão se corrigindo uns aos outros. É possível encarar que os acertos de um escritor, na maioria das vezes, são bem resolvidos diálogos com a sua tradição, e seria impossível pensar Lobo Antunes sem o legado modernista de Faulkner e Woolf, de onde aprendeu e depois aprofundou a maior parte de suas técnicas de contraponto e lembranças entrecortadas. O grande escritor se define mais pelos seus fracassos, esse andar temeroso pelo terreno ambíguo de sua própria personalidade - e o que há de irregular é o embate na busca de uma voz, o que há de excesso é o substrato da luta de encontrar outras possibilidades além daquelas já esgotadas pelos predecessores. Com a canonização de um escritor há uma tendência natural de supervalorização de seus sucessos; porém, uma melhor aproximação dos textos clássicos indica que é mais pela singularidade de seus defeitos que um autor acaba se destacando do resto de seus contemporâneos. Inclusive, no caso de Lobo Antunes, foram esses fracassos iniciais, quando vistos pela óptica de seus romances maduros, que possibilitaram a enorme ressonância de seu estilo tardio e a tranquila soberania de sua voz criadora no cenário literário de hoje. Foi só depois de uma longa década que Antunes encontrou no próprio tecido do romance, na própria história do romance, naquilo que já estava nele para ser desenvolvido, artifícios onde sua maneira lúdica de encarar o mundo material poderia ser finalmente exponenciada; tanto buscou, tanto lutou, e tanto falhou que, ao fim, acabou por encontrar um tipo de romance todo seu. E nisso ele está certo: ninguém escreve como António Lobo Antunes, um dos poucos autores incontornáveis da língua portuguesa. Seus romances têm apenas sua cara; e isso tanto para o bem, quanto para o mal.


Vinicius Jatoba
10.11.2006

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